Jornal do CAECO

Muitos fatos que acontecem na sociedade nos passam despercebidos. Estamos tão acostumadas à mentira de uma sociedade livre e de iguais condições somada a uma visão fatalista de nossas vidas, que acabamos por naturalizar vários tipos de violência: fome, desigualdade, falta de acesso à água potável e rede de esgoto, analfabetismo, discriminação racial, xenofobia etc. A violência contra a mulher é uma delas: a mulher morta e esquartejada pelo companheiro, a mulher que fica paralítica vítima da violência doméstica, os vários casos de estupros, de abusos, de tráfico de mulheres são capazes de nos sensibilizar, geram ódio, raiva, pena, mas não são capazes de nos mobilizar. Por exemplo, em Campinas, conforme dados da Secretaria de Segurança de SP, só nos primeiros quatro meses desse ano, foram registrados 73 casos de estupro. No estado de SP, em 2011, já ocorreram 2699 casos! Esses dados são reflexos daquilo que ocorre diariamente, e é por nós, mulheres e homens, naturalizado ou banalizado.

Segundo a Unesco, uma em cada três ou quatro meninas é abusada sexualmente antes de completar 18 anos e segundo a ONU, uma em cada em três mulheres será espancada, violentada ou estuprada em algum momento de sua vida. Qual a razão desses dados bárbaros? Na nossa sociedade capitalista patriarcal em que tudo é transformado em mercadoria, desde os direitos elementares para sobrevivência humana até o próprio ser humano e suas relações, as mulheres são vistas pelos homens e por elas mesmas como uma propriedade masculina, um objeto, e não um sujeito independente (num sentido amplo que ultrapassa o conceito meramente financeiro englobando a sua independência plena com relação ao homem, à maternidade, à família), capaz de transformar a realidade. A Igreja, o Estado burguês, a mídia possuem um papel fundamental na difusão dessa visão de mulher enquanto objeto sexual, na qual se destaca o papel reprodutivo e o papel submisso de usufruto do homem.

Essa ideologia que legitima e gera esses atos e esses números inadmissíveis é a mesma que se expressa nas Economíadas. O que a princípio pode parecer apenas um torneio esportivo despido de qualquer conteúdo ideológico revela, num olhar mais atento e crítico, o machismo, a homofobia e o elitismo ocultos. Na Economíadas Caipira do ano passado, vimos um exemplo escancarado (!) nos hinos divulgados em material oficial da Atlética, ou seja, nas músicas que resumem os objetivos e os valores dos estudantes de economia. “Pinga, maconha, mulher e baixaria/quem manda nessa porra é Unicamp economia”, “Ela diz que é gatinha, que seu peito é natural/Diz que sua bolsa Prada foi presente de Natal/Mas eu to ligada na pura realidade/Chupa rola e dá o cu pra pagar mensalidade/ Ela é puta graduada!”, “Aqui só tem coiote louco/Quero beber, quero cheirar/Cuidado biscatinha da Puccamp porque a fodeu vai te pegar!” ou “Essa é a escola que todos desejam, mas poucos conseguem entrar/Você que tentou e não conseguiu, vai pra puta que pariu!” são alguns exemplos dos hinos cantados. 2011 é mais um ano em que esses mesmos estudantes se animam para, nos jogos e nas festas, ostentarem “a melhor escola do Brasil”, cheia de encantos – mas só para os poucos vencedores que passaram no vestibular.

Essa visão está tão presente e tão arraigada nos homens e nas mulheres, que o fato de a Atlética ter uma presidente mulher não é capaz de alterar em nada o caráter machista e opressor das festas, como a festa da Senha; dos trotes, com concursos de miss e elefantinhos; dos eventos financiados e promovidos pela entidade cujo símbolo do coiote com a coiote fêmea estereotipada, dinheiro e cerveja está sempre presente.

Esse não é um fato isolado das Economíadas, está na maioria dos jogos universitários, independente das faculdades que os organizam. No InterUnesp do ano passado vimos a expressão máxima da barbaridade que permeia esses eventos com o “Rodeio das Gordas”, no qual os homens se aproximavam das mulheres que consideravam gordas, as empurravam no chão, montavam em cima e cronometravam quanto tempo conseguiam ficar sobre elas.

É importante lembrar que tanto o InterUnesp, como as Engenharíadas, as Economíadas e outros desses eventos recebem financiamento de empresas privadas, tais como as de cerveja, cuja publicidade machista é difundida na mídia e nesses tipos de festas, e das reitorias das universidades. No IE sabemos que a Atlética já tentou realizar acordos com empresas como o SANTANDER em troca de publicidade para o banco no uniforme dos times e dentro do instituto, além de receber uma verba da diretoria para a realização das Economíadas.

Ao passo que, quando há a tentativa de se contrapor a esse tipo de festa, construindo de forma politizada e consciente uma outra forma de sociabilidade, sem machismo, sem homofobia, sem hierarquia, se propondo a romper com toda a tradição tão reivindicada por essas entidades, como foi no caso do Festival Contra as Opressões promovido pelo DCE da Unesp no ano passado, a resposta dada pela reitoria são processos de sindicância aos alunos organizadores. No IE não é diferente, enquanto temos o auditório negado pela direção para a realização de ciclo de estudos de autores marxistas sob a alegação de que esse não é um assunto de relevância acadêmica, a Atlética tem as portas do auditório escancaradas para a realização do seu “Momento Economíadas”.

Diante de tudo aquilo que denunciamos nas linhas acima não cabe mais aceitarmos os discursos dos que nos dizem que essa é uma questão subjetiva, apenas uma brincadeira, que depende da interpretação individual. Esta é uma situação diante da qual não podemos mais nos calar, achando que é natural. É preciso rompermos o silêncio, é preciso denunciarmos essas atitudes, boicotando esses tipos de eventos, pressionando e discutindo politicamente com e nessas entidades para mudarmos essa realidade bárbara.

Flávia Ferreira, 09, militante do Pão e Rosas

Daphnae Picoli, 09, militante do Pão e Rosas

“Sim, a precarização do trabalho em nosso país tem rosto de mulher. E é justamente aí que reside o perigo desta constatação: o que aconteceria se milhões de mulheres pobres, trabalhadoras terceirizadas, informais, donas de casa, desempregadas, esse verdadeiro exército silencioso, se levantasse de uma só vez contra todas as formas de opressão e contra este sistema que nos explora e superexplora cada vez mais?”[1].

Nosso Brasil do crescimento e desenvolvimento econômico, do Pré-Sal, da Copa do Mundo e das Olimpíadas, incluído entre as maiores economias do mundo, esconde uma realidade muito distinta dessa aí, propagada pelo governo e pela mídia burguesa para todo o mundo. O crescimento que aconteceu com o Governo Lula e continua com o da Dilma ocorreu, como apontam os dados estatísticos do IBGE, com queda no desemprego e maior criação de empregos formais, ocupados principalmente pela força de trabalho feminina. Contudo, o que permanece oculto é que estes postos de trabalho são, na realidade, trabalhos precarizados, sem estabilidade, sem condições decentes no local de trabalho e com contratos flexibilizados – sem garantia de direitos historicamente conquistados, como licença-maternidade, 8 horas diárias de trabalho e auxílios -, permitindo que os trabalhadores ganhem menos de um salário mínino.

Essa realidade do mercado de trabalho que parece tão distante está escancarada na nossa frente. Os terceirizados da limpeza, do bandejão, da segurança, da construção civil aqui da Unicamp são todos empregados com esse tipo de contrato. Trabalham dez horas por dia, inclusive finais de semana, e recebem (líquido) menos que um salário mínimo, não possuem lugar para descansar (no IE, por exemplo, as terceirizadas descansam no bosque porque não possuem um local adequado para ficarem durante o horário de almoço), não possuem direitos trabalhistas, não podem faltar nem se estão doentes porque são ameaçados de serem demitidos, são ignorados pelos alunos, professores e funcionários efetivos, não podem conversar com estes e caso o façam podem sofrer punições, serem demitidos ou transferidos para outra unidade(essa fiscalização aqui na Unicamp tornou-se mais rígida após a tentativa de contato de alguns estudantes com os trabalhadores terceirizados e a mobilização dos primeiros contra a terceirização, no ano passado), enfim, trabalham num regime de semi-escravidão.

A precarização do trabalho, chamada de terceirização, atinge toda a classe trabalhadora, mas está mais presente entre nós, mulheres. Isto porque a mão-de-obra feminina, sendo considerada por nossa sociedade capitalista como inferior à masculina, recebe salários menores e este fato serve como pretexto para que o salário de toda a classe trabalhadora seja rebaixado. Nós, mulheres, ocupamos os postos de trabalho mais precarizados, com menor remuneração e com serviços que são, em sua maioria, extensão do serviço doméstico.

Além desse trabalho realizado em condições desumanizadoras, estas trabalhadoras ainda possuem sob sua responsabilidade o serviço doméstico e o cuidado da família, realizando uma dupla jornada. De acordo com os dados do Ipea, as mulheres chefes de família e com filho trabalham cerca de 13 horas semanais a mais que os homens na mesma situação, realizam 30 horas semanais de trabalho não remunerado, ou seja, trabalho doméstico, e isso é três vezes mais do tempo gasto pelos homens na realização das mesmas tarefas. É importante ressaltar que este trabalho feito em casa é essencial para o funcionamento do capitalismo, pois irá garantir a manutenção da força de trabalho: um trabalhador precisa se alimentar, ter sua roupa lavada, passada, viver em um local limpo, caso contrário não poderá ir trabalhar e tudo isso é garantido dentro de casa, pela mulher, num papel que lhe é socialmente atribuído.

Estas trabalhadoras, ao contrário do que muitos dizem, não realizam funções secundárias dentro da universidade, são parte dela e são essenciais para o seu funcionamento. Contudo, sabemos que embora suas tarefas sejam essenciais para o funcionamento da universidade, a estes trabalhadores e aos seus filhos nunca será dada a oportunidade de ingressar na universidade com outro papel que não este. De acordo com os dados do Inep apenas cerca de 3,5% da população brasileira tem acesso ao ensino superior. O rendimento médio per capita da população é de 1,3 salários mínimos, já o dos estudantes da Unicamp é o dobro disso, 3 salários mínimos. No caso do curso de economia, um dos mais elitizados, essa renda média salta para cerca de 4,5 salários mínimos por pessoa da família.

Além disso, o conhecimento que é aqui gerado não retorna como benefícios para esses trabalhadores, ao contrário, são vendidos para as transnacionais em acordos com a reitoria e o governo do Estado, em troca de financiamento de laboratórios, festas, atléticas, intercâmbios aos estudantes, estágios. Estas são as mesmas transnacionais e empresas –representantes do imperialismo– que (como bem estudamos no nosso curso) no início dos anos 80, sob o pretexto de se ajustar a um ambiente instável de crise – gerada por elas – flexibilizaram, racionalizaram e terceirizaram a sua produção, aumentando os seus lucros por meio da superexploração dos trabalhadores em todo mundo, mas principalmente nos países subdesenvolvidos.

Estes trabalhadores e, principalmente estas trabalhadoras, mulheres, que sentem sobre si o peso da dupla exploração, dentro e fora de casa, não estão calados. Ainda nesse semestre, vimos as manifestações dos trabalhadores terceirizados em Jirau contra as condições precaríssimas de trabalho, numa obra em construção do grandioso PAC, que teve como resposta do governo federal o envio da Força de Segurança Nacional. E mais perto de nós, na USP, as trabalhadoras terceirizadas da limpeza também realizaram uma greve porque estavam trabalhando ser receber salário já havia três meses, um fato que era agravado pela razão da firma ter declarado falência. Uma greve que, no início, reivindicava apenas recebimento dos salários, transformou-se em uma luta contra a terceirização e pela efetivação sem concurso público dessas trabalhadoras, bandeira levantada também por nós do Pão e Rosas, pois se o objetivo do concurso público é provar a capacitação dessas trabalhadoras para exercerem as suas funções, a maior prova que podemos ter é o fato daquelas já as exercerem.  O apoio do SINTUSP (Sindicato dos funcionários da USP) e dos estudantes (que foram chamados pelas trabalhadoras a saírem das salas de aula e lutarem com elas) teve como resultado o pagamento dos seus salários pela Reitoria da USP, apesar de não terem sido efetivadas. É importante ressaltar que a Reitoria da USP a princípio tinha se negado a pagar estes direitos às trabalhadoras, sob a alegação de que isso era de responsabilidade da empresa que as contrataram, contudo, em razão das mobilizações, dos piquetes, dos atos e manifestações, da lutas destas trabalhadoras em aliança com os estudantes esse pagamento foi arrancado da Reitoria.

O movimento estudantil e os centros acadêmicos (especialmente este aqui, de economia, cujos alunos estudam esta questão diariamente) devem estar juntos na luta com e por estas trabalhadoras, numa perspectiva clara de uma democratização ampla e radical do acesso ao ensino superior público, gratuito e de qualidade, para que este tipo de trabalho realizado em condições desumanas não ocorra aqui na universidade e nem em local algum. Para que essa grande maioria, que não entra na universidade senão para limpar salas que nunca irão usar, construir prédios nos quais os seus filhos nunca poderão estudar, tenham acesso à universidade. Não podemos mais fechar os olhos e estudar em silêncio numa Universidade que explora trabalho semi-escravo de mulheres e homens para funcionar.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, acreditamos que diante dessa realidade não adianta lutarmos sozinhas, é necessário que nós, mulheres, nos organizemos, para que juntas, nos aliando com os setores mais oprimidos da sociedade, consigamos exigir e arrancar os nossos direitos, tal qual nos ensinaram as trabalhadoras terceirizadas da USP. A nossa luta não deve ser contra os homens, mas sim contra esse sistema capitalista e patriarcal que nos explora e nos oprime diariamente – nos impondo dupla jornada de trabalho, exigindo de nós padrões de beleza inalcançáveis – e que necessita manter e perpetuar o machismo, a homofobia e o racismo pra funcionar. A emancipação da mulher, a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, não virá por meio da chegada ao poder de uma ou outra mulher, que no final estão lá não para representar as milhares de trabalhadoras, tais como as terceirizadas, mas sim para atender ao interesse de uma pequena elite, da classe burguesa. Somente a partir da nossa auto-organização e da nossa luta anticapitalista e antiimperialista numa perspectiva classista poderemos mudar esta realidade.

Flávia Ferreira, 09, militante do Pão e Rosas
Daphnae Picoli, 09, militante do Pão e Rosas

[1] A precarização tem rosto de mulher, ORG. Diana Assunção. Ed. ISKRA, 2011.

Ter visto o segundo debate das eleições do CAECO foi uma experiência muito peculiar. Como no primeiro, já imaginava que meu animo iria se exaltar, mas o humor (ou mau-humor) que senti diante daquela discussão, acalorada, sobre “integração” e diante do festival de acusações, que permeou o debate, é inexplicável. Por não conseguir conte-lo em mim, escrevo aqui minhas impressões dos dois debates.

Imagino que ambas as chapas tenham idéias incríveis para “integrar” todo mundo do IE, que acreditem que estão mais bem preparadas e têm mais competência para fazer isso. Mas uma coisa me chamou a atenção: como a chapa “Um CAECO para você” imagina promover essa tão famigerada INTEGRAÇÃO!

No fim da tarde de uma terça-feira fria algumas pessoas se reúnem para assistir o segundo grande debate das eleições do CAECO 2011. As chapas se preparam, as regras são explicadas em meio algum tumulto da platéia, que se ajeita como dá. O relógio é ativado e… Primeira a falar “Um CAECO para você”: Começa esclarecendo o famoso incidente da “bola de cristal” que aparentemente rendeu vários posts no Facebook. Tudo explicado, agora é hora de mostrar por que eles são melhores em “integrar”. E a justificativa? É só olhar os eventos da atlética! Eles “Integram” bastante, muita gente vai, a maioria das pessoas tem uma ligação com a atlética e/ou com seus integrantes (bem como com as pessoas que compõe a chapa, fato importantíssimo que foi citado em outro momento). O restante do debate me parece meio obscuro, já que essa fala foi o suficiente para me tirar o animo.

Ok. Vamos supor que seja verdade, vamos supor que a maioria dos alunos do IE gosta e freqüenta esses eventos (será?). Eu fico me perguntando e eu? Eu não me sinto “integrada” com a atlética, não freqüento muitos eventos da economia. Aparentemente, por ser minoria eu tenho que me conformar e seguir a tendência. Tudo bem, maioria é maioria… Mas a idéia toda dessa tal de “integração” não é juntar todo mundo? Maioria, minoria, mulheres, homens e afins? Como a chapa pretende fazer isso se já vem com essa idéia de que representa a maioria (maioria de que? De quem?) e de que essa é a função do CAECO?

E a palavra da moda é “Integração”!! Achei estranho ter ouvido poucas vezes “tolerância” e “respeito”. Para mim, é quase impossível desconectar essas três palavras. Tolerância e respeito, na minha visão, são essenciais para que ocorra essa integração megalomaníaca que se espera. Por isso além de mau humor, fiquei confusa com a posição tomada pela chapa “Um caeco para você”. Não era justamente a falta de espaço para visões diferentes que eles criticam na gestão atual? E desde quando “maioria” é “diferente”? Afinal, intolerância da maioria ou da minoria, no limite não é intolerância de qualquer forma? Talvez os integrantes da chapa não tenham pensado nisso, talvez, não tenha sido isso que eles queriam dizer. O que importa é que foi dito, mais de uma vez.

Recordo-me de um episódio do primeiro debate, em que foi feita uma pergunta nesse sentido. Ao serem questionados sobre o machismo e a homofobia, os integrantes da tal da chapa de “oposição” se colocaram, obviamente, contra essas manifestações, mas admitiram nunca terem pensado no assunto(????).

Bom, vivemos em um mundo intolerante. Um mundo repleto de pré-conceitos, fobias, pudores, fascismos, em todos os âmbitos de nossas vidas e nas relações hierárquicas que construímos e mantemos todos os dias. A intolerância, de muitos tipos, nos rodeia o tempo todo, está dentro de nós, está em todos os lugares. Não ficou claro se os integrantes da chapa “Um CAECO pra você” acredita realmente que por algum motivo transcendental, o IE está livre dessas intolerâncias e por isso, contornam discussões desse tipo, ignoram as minorias, o diferente, ou se o fazem por que não reconhecem o assunto como sendo relevante e nunca “pensaram nisso”. Acho que o festival de acusações que ocorreu durante os debates, por parte de ambas as chapas e por parte dos que estavam assistindo, é uma prova irrefutável de que infelizmente não, nosso querido Instituto de Economia não alcançou o nirvana. Outra demonstração desse fato, foi o repudio da chapa em questão, em nome de TODOS, a uma ação individual que ocorreu durante a greve- a pichação do muro- (Oh não! eu não repudiei a ação, sou minoria de novo). Por esses e outros tantos fatos vou supor a segunda opção: eles não reconhecem o assunto como sendo relevante.

Dessa forma, a questão que ficou martelando na minha cabeça foi: como posso acreditar que uma chapa que não consegue identificar essa intolerância tão obvia, a ponto de nunca ter se proposto a refletir sobre ela; e parte do pressuposto de que a “maioria” e “todo mundo” são sinônimos, pode realmente conseguir unir pessoas de diferentes tipos para construir um espaço de e com todos? A conclusão: acho que não posso acreditar.

Eu não quero um centro acadêmico da maioria, nem da minoria, nem de ninguém. Eu quero um centro acadêmico livre de qualquer tipo de pensamento pré-moldado. Um espaço em que todas as manifestações, atividades, propostas, idéias, sejam bem-vindas. Um espaço dos estudantes e para os estudantes. Utópico? Talvez. Mas para mim isso sim é integração e eu acho que a chapa um “CAECO para você” está caminhando na direção contraria.

Marina 09

Não pensava originalmente em escrever nada sobre as atuais eleições do CAECO, mas me senti pressionado a fazê-lo por conta dos debates que tive o desprazer de assistir nas últimas duas semanas. Sim, por uma lado foi ótimo ver nosso pacato instituto conseguir mobilizar gente e ideias num debate. Convenhamos com pesar, não é algo patente na nossa “febril e fabril” rotina estudantil.

Mas o que teria me feito romper o silêncio? Despejo de uma só vez: a prática irresponsável e inconseqüente do uso da mentira e da falácia pra mobilizar de forma pequena e tacanha a opinião dos estudantes. Nada de novo no instituto. Seria possível que teríamos que nos acostumar com “laplaneadas” desse calibre?

No ano passado fui acusado nominalmente pelo diretor deste instituto, juntamente com Daniel Costa, de sozinhos inventarmos, manobrarmos e sustentarmos uma greve. O motivo, segundo o diretor, era um interesse político partidário de nossa parte. O que estava em questão? O envio de nomes de alunos da Atlética para a reitoria e consequentemente para a polícia. Esses nomes foram salvos, graças à ação autônoma dos estudantes (vulgo greve e protesto pelos mesmos). Mas mesmo assim 4 estudantes do CAECO tiveram seus nomes enviados e eu e Daniel fomos completamente tolhidos de qualquer perspectiva dentro do instituto. Fato que pra mim se confirmou com a perseguição que sofri este ano no exercício, pelo meu quarto ano, de PED de introdução a economia (o qual me vi obrigado a largar). Fato: nem eu, nem Daniel temos qualquer envolvimento partidário, fato de conhecimento amplo, principalmente entre nossos círculos de amigos e que nos rendem recorrentes críticas dos mesmos (diga-se, fazer parte de um partido, na última vez que chequei, não é crime nem moralmente condenável). Mas o Sr. Diretor em nenhum momento pensou em saber se sua acusação procedia.  Retomo essa pequena história porque os debates tiveram 2 elementos centrais e reincidentes. De um lado, a gestão da chapa que encerra seu ciclo (“Despertar é preciso”, doravante DeP) e por outro, o envolvimento da chapa “Um CAECO pra você” (1Cpvc) com a atlética. Gostaria de desenvolver alguns questionamentos sobre ambos.

Em primeiro lugar, gostaria de entender melhor a esquizofrênica relação que a aspirante “1Cpvc” mantém com a atual chapa, “DeP”. Pelo que entendi, a atual chapa faz tudo errado, não faz nada pelos alunos do IE, é objeto de manobra político-partidária e também abre mais espaço pra outros centros acadêmicos do que para os próprios estudantes do IE. Eis, senhoras e senhores, uma verdadeira “laplaneada”. Tive contato muito próximo com a chapa “DeP”, pois fui representante discente na congregação do IE em grande parte do seu mandato. Como tal, sempre me reportei à entidade que de fato representa à coletividade estudantil do IE, o CAECO. Compareci a reuniões e sempre que fui procurado tentei atender às solicitações dessa entidade representativa. Aliás, foi como representante estudantil que tomei ciência da situação que veio a originar a greve de 2010.  Ocorre que desde 2002, ano em que ingressei no IE (estou no doutorado), esta foi a chapa que mais fez em prol dos alunos deste instituto. Cito, de memória, a reativação da representação na Comissão de Graduação, uma choppada sem trote (a despeito dos esforços de alguns), discussões sobre as reformas da graduação e da pós, discussões sobre a formação do economista e o curso do IE, intervenção no congresso nacional da Associação Nacional de Graduação em Economia, discussão sobre a moradia da Unicamp, empréstimo de dinheiro a Atlética que passava por dificuldades financeiras, elaboração de uma avaliação de curso alternativa à péssima elaborada pela comissão de graduação, debate entre ideias partidárias (pasmem!) para as eleições presidenciais, festa latino-americana, além da já mencionada justa defesa de alunos da atlética frente a um diretor que declarou e cumpriu sua delação. Só no período de greve, que sempre teve suas pautas votadas em assembléia, com votos contados apenas por alunos do IE (os alunos de outros institutos podem falar, mas não votar), lembro-me de algumas iniciativas, inclusive assinadas conjuntamente pela Atlética, ECONOMICA e CAECO, apontando problemas de ordem didática, curricular e de infra-estrutura.

O que me causou estranheza é que a chapa “1Cpvc” consegue, dentro dessa lista de feitos, afirmar, sem pestanejar, que NADA foi feito para os alunos, mesmo que reconheçam, em discurso, que discutir o curso e sua qualidade seja importante. Me pergunto, desde quando isso virou importante para esses alunos? Em 2010 uma discussão sobre o curso levou o mesmo número de alunos que o debate para o chão preto. Se o curso é uma preocupação, onde estavam esses alunos? Por que não estavam lá? Nas reuniões do CAECO, que acusaram ser manobradas por partidos e usadas por outros centros acadêmicos, por que não estavam lá? Como podem acusar, sem apresentar provas ou nada que comprove as acusações, nem mesmo seu próprio testemunho, uma vez que não freqüentaram as reuniões pra saber quem ia ou deixava de ir? Que tipo de chapa levianamente joga esse tipo de acusação? Qual a diferença entre isso e o que foi feito de forma covarde pelo diretor do IE? Me senti mal de ver essa prática “laplaneana” ser reproduzida, inclusive por alguém que defendi com o que pude (e faria de novo) naquela greve. Não me venham dizer que a chapa “DeP” não fez nada… pra quem quis participar de fato, foi uma chapa que apresentou atividades quase semanalmente. Pelo que ouvi no debate, foram discussões e atividades inclusive endossadas pela chapa atleticana. Então ao mesmo tempo fizeram e não fizeram atividades para os alunos? A chapa “1Cpvc” pede pra coletividade dos estudantes aquilo que seus próprios membros não quiseram dar: participação. Nas propostas vemos apenas itens que não pressupõem de maneira nenhuma o controle da chapa para execução: bastava participarem das reuniões do CAECO e todas elas estariam contempladas.

A solução está naquilo que fariam melhor: a integração. O que me leva à relação que os membros da chapa têm com a atlética. De fato, como próprios membros da chapa atestam, sua atuação no IE se deu pela AAA XV de Julho. No mínimo é justo que julguemos então a chapa por aquilo que sabemos que fizeram por lá. Acho sim que o esporte integra e é essencial à saúde. Mas não é o esporte que está em pauta nas eleições pro CAECO. A pergunta é: que tipo de integração os estudantes podem esperar da chapa atleticana? Só posso me basear no que sei. Sei de churrascos onde pessoas são obrigadas a comer ração no chão, onde pessoas cospem cerveja na cara de pessoas. Nada diferente do que eu presenciei no churrasco que a atlética “ofereceu” quando ingressei na Unicamp, ou no ano seguinte, ou no seguinte… Por ironia do destino, um dos membros da chapa “Prisma” foi justamente vítima dessa última prática, pelas mãos (ou pela boca?) de um membro da chapa “1Cpvc”. Querem que eu acredite que é uma prática normal cuspir cerveja na cara de outra pessoa? E pior, dizem que não podemos tratar desse assunto em termos pessoais! De fato, cuspir cerveja em alguém deve ser algo essencialmente impessoal… Mesmo que não houvesse o caso envolvendo diretamente os membros das chapas em disputa, são práticas abertamente endossadas nos churrascos da atlética e em economíadas (ou alguém proíbe isso? E sim, já fui em 2 economíadas). Eu definitivamente não quero a generalização desse padrão através do CAECO.

Outro item que me comove é a preocupação dos ex-atleticanos com o orçamento e balanço do CAECO (que está afixado em sua sede). A atlética não recebe repasse de dinheiro público, tal qual o CAECO? Então se “accountability” é tão importante, por que essas mesmas pessoas de espírito público não divulgaram os balanços da atlética? Por que não alteraram o estatuto da atlética para que os alunos do IE possam saber onde e com que são gastos os recursos públicos? Por que as reuniões da atlética não são abertas ao público se a entidade recebe e gasta recursos públicos? Por que, magicamente, isso se torna um problema pro CAECO mas não pra Atlética? Não se trata aqui de questionar se membros desviaram dinheiro, pra mim isso é impensável, mas prestar contas e abrir diálogo com os estudantes e a sociedade, afinal se “o CAECO deveria ser pra você”, por que a atlética foi “só deles”? Fato é que esses mesmos estudantes poderiam muito bem ter promovido isso na atlética, mas por algum motivo pouco claro, não consideraram conveniente. Essas coisas são ou não são relevantes? Por que essa abordagem dual? O que mudou?

Fiquei decepcionado de ver como o bom trabalho da atual chapa do CAECO foi distorcido, até por aqueles que se beneficiaram dele. Teríamos um debate muito melhor se tratássemos das propostas e filosofias daqueles que virão a assumir o CAECO e não reduzir um trabalho que se teve falhas (e teve, os próprios membros da chapa têm suas críticas e estão dispostos a discuti-las), definitivamente não foi inerte, manobrado por alunos de fora do IE ou partidos políticos. Qualquer um que foi às reuniões ou compareceu às atividades pode atestar. Deixem pro Laplane “laplanear”.

Armando (02) Doutorado em Desenvolvimento Econômico

Joker

Posted on: 13/06/2011

“(…) quia peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa” (em português: (…) porque pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras,  por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa)

 

Repudiada, renegada, excluída, confusa, inverossímil, a que não serve para nada.

Faltam adjetivos para traduzir a relação entre a maioria dos estudantes do IE e a avaliação de curso realizada semestralmente.

Acompanhamos as últimas 5 ou 6 avaliações de curso coletivas. Foi um literal mais do mesmo. Mais do nada, nesse caso. Se antes a proposta era “vamos melhorar”, agora é “precisamos averiguar”, “esta mudança já consta no novo catálogo” (vendido como uma verdadeira tábua de salvação do curso). Escuta-se, discute-se, mas a sistemática é a mesma. Os professores são os mesmos, as pessoas demoram para mudar, sabe como é…

Nas avaliações de curso individuais, poucos, se não nenhum dos professores que conhecemos e tivemos aulas por dois ou mais semestres, aparentaram ter aproveitado, ou sequer notado, as críticas que lhes dirigimos através dos formulários anônimos de avaliação.

Há quem considere nosso curso anacrônico, muito criticozinho e pouco funcional. Há quem o considere, pelo contrário, crítico de menos, limitado, apologético, saudoso do que não exista mais. Há quem o considere o mais completo do país. Entretanto, caminhamos para uma mediocrização sem paralelo. Ou será que estamos sendo, nós, do IE/UNICAMP, o que nunca deixamos de ser?

“Mas na hora da cama/ Nada ficou direito/ É minha cara falar/ Não sou proveito/ Sou pura fama…”

 

E é daí que retornamos do nosso devaneio e chegamos à segunda parte. Que é a parte que nos toca, que toca aos nossos colegas de Instituto. O papel dos estudantes nisto. Há quem atue na graduação como se estivesse num drama, outros numa comédia e há ainda os que preferem o terror e os musicais, ou pior e melhor, tudo junto e misturado. Contudo, estamos encarnando atualmente colegas apenas um papel: o de PALIAÇOS [sic], consciente ou inconscientemente. Se o curso piora em várias frentes temos sim nossa parcela de culpa, apesar desta ser menor que a dos professores, que têm o poder de escolher seus pares mediante os três tipos de prova (escrita, títulos e argüição) do concurso público que os contrata (existe a imprevisibilidade dos candidatos, existe; entretanto as ditas “afinidades eletivas” já são uma barreira e tanto para isto) e cujas escolhas nem sempre correspondem (ARGUIÇÃO!) em qualidade na sala de aula na prática docente.

Onde reside nossa culpa, colegas? Reside na acomodação, acoxambração, verdadeiro pacto de mediocridade que nos permeia. “Ah”, mas dirão alguns, “a gente não pode fazer nada. Entrou no IE, comprou o pacote fechado” ou “quem entrou na dança que balance a criança”. NÃO!!! Há sim espaços decisórios para serem ocupados, onde, por mais farisaicas que sejam as discussões, há discussões! Congregação, Centro Acadêmico, Representantes Discentes de Graduação, até a Atlética (não incluímos a Empresa Júnior nesta listagem pois ela realiza um processo de seleção para os que querem nela ingressar, o que restringe seu público, o que sinceramente não concordamos; já a Atlética, bem que poderá evoluir abrindo suas reuniões a TODOS), e, por fim, o que chamou nossa atenção para este texto, a Avaliação de Curso. Aquela coletiva, no Auditório ou Sala 1 do Pavilhão de Graduação, aquela que atrai poucos gatos pingados e tem um horário meio ruim.

Não esperavámos mais nada da Avaliação após tantos desencantos, contudo assustou-nos a falta de objetividade e de articulação dos colegas para discutirem o curso. Os bixos ainda podem alegar inocência e inexperiência, mas os demais colegas, a partir da turma 010, não têm desculpas. Meus caros, estamos no Instituto de Economia da UNICAMP, não no Colégio Múltipla Escolha!

A busca incessante pelo magnífico, glorioso, destruidor de portas e obstáculos, avassalador, segregador Coeficiente (futuro) de renda (ops!!! Pequeno descuido), Coeficiente de Rendimento acaba dando o tom rumo à precarização do ensino na hora da avaliação. O tom juvenil de:

“Ai meu DEOS! Ela me deu uns 6,2 naquela prova… Essa matéria é muito difícil”;

 

 “Tia, tem que ler o Keynes pra amanhã? aaaaaah”;

 

“Vou pegar matéria com aquele professor porque ele (a) é coxa, aí eu fecho com uma boa nota pra fazer meu intercâmbio”;

 

Cara de choro nunca mudou nada. Nada que sua mãe não quisesse. Esse blábláblá acaba por impedir que os alunos (por iniciativa dos mesmos) façam uma avaliação condizente com o real interesse de aprimorar o curso,o desempenho do professor em ministrar a aula e uma própria auto-avaliação decente, o que recorrentemente alunos desse “reduto de carros zeros 1.0” não o fazem, colocando a culpa sempre no professor, com frases do tipo:

“Nossa, passei a noite inteira estudando. Por que eu fui mal? Aff! Esse professor é muito ruim”;

 

Queremos uma avaliação séria. Queremos professores sérios. Queremos concursos públicos para professores que priorizem o candidato mais apto a exercer a profissão, e não o camarada de núcleo, no qual o estágio probatório está no fim. Queremos ser sérios. Queremos um CURSO sério. Só assim teremos um país sério.

É assim mesmo. Chama na xinxa! Bota o pau na mesa! Não gostou, manifeste-se. Porque nem isso se faz. As raras manifestações, quando ocorrem, restringem-se aos grupos de e-mails ou mensagens no Orkut/Facebook, sempre na linha das “indignaçõezinhas” de plantão. Daí para pregar PRA VOCÊ algo que sempre foi seu, mas você nunca buscou nem foi atrás, já é um passo. Um passo em falso, perigoso.

Alunos, acreditem em nós, ou no ET Bilu, ou no que quiserem: busquem conhecimento! Mediocridade até agora só nos trouxe desgraça.

Professores, colaborem, participem, provoquem-nos, instiguem-nos, critiquem-nos, escrevam-nos, ajudem-nos.  E, sobretudo, abandonem o PowerPoint ou abandonem as aulas!

 Kid Bengala, Carlos Bazuca e Wilson Känu