Jornal do CAECO

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Ricardo de Medeiros Carneiro
Ao longo do processo de discussão e implementação da reforma da pós-graduação do IE e, recentemente, com a definição do corpo docente cadastrado na CAPES em reunião da Congregação, os critérios pelos quais esta instituição avalia os cursos de pós-graduação têm sido um tema de discussão recorrente. Nestas notas, sem a pretensão de tratar exaustivamente do tema, procura-se levantar alguns aspectos controversos desses critérios no que tange especificamente à área de Economia. Seu objetivo maior é estimular a discussão e a apresentação de novas contribuições para o aprofundamento do diagnóstico sobre um tema crucial para nossaatividade como professores e pesquisadores.

 

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———- Mensagem encaminhada ———-
De: <mctavares@>
Data: 20 de junho de 2011 16:26
Assunto: Apoio
Para: carneirordm@
Cc: mlaplane@
Caro Ricardo Carneiro
Soube de sua candidatura a Diretor do nosso instituto de Economia e estou lhe mandando o meu apoio entusiástico.
Boa campanha e boa sorte.
Com o abraço da amiga
Maria da Conceição Tavares
C/c ao diretor do IE/Unicamp
Prof. Dr. Mariano Francisco Laplane.

            Há menos de um ano atrás, estudantes do Instituto de Economia mobilizaram-se contra a efetivação de uma delação requisitada pela reitoria ao diretor do Instituto de Economia, Mariano Laplane. A instância máxima de poder dentro da universidade buscava nomes de responsáveis pela realização de uma festa no campus, o “Encontro de Baterias”, que tradicionalmente ocorre no Teatro de Arena.

            A cruzada contra as festas caminhava a passos largos. O IFCHSTOCK, maior festa realizada no campus, foi definitivamente proibido no mesmo período. A Polícia Militar ordenou a retirada de todo o material que estava armazenado dentro das dependências do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Não mandou recado. Fez isso presencialmente, e durante uma tarde o que se viu foram dezenas de estudantes carregando milhares de cervejas para fora da Unicamp. Aquela cena marcou, para aqueles que viveram outros tempos, o fim de um projeto de integração dos estudantes entre si e da universidade com o entorno. Um projeto construído, com todas suas contradições, deficiências e limites, pelo movimento estudantil, por jovens que viam a Festa como oportunidade política, para além da retórica dos partidos, dos movimentos, do hoje tão repugnante “esquerdismo”.

            Por esse motivo, o IFCHSTOCK ficou conhecido como a MANIfesta. O fato de ocorrer no espaço público, e ser concebido por aqueles que valorizam este espaço (não em termos contábeis, ou estratégicos, mas em termos de formação cívica, moral, da gestação do respeito e da tolerância frente ao diferente), fazia com que nestas festas fosse fortemente desestimulada qualquer atitude opressiva, seja em relação às mulheres, aos homossexuais, aos gordos e gordas, feias e feios, negros, índios, pardos, pobres etc. Essa concepção de encontro no espaço público reverberava de certa forma para todas as outras festas realizadas na Unicamp. Nesse contexto, muitos mudaram suas concepções. Muitos conheceram pessoas diferentes de si e as entenderam. Beberam cervejas juntos, conversaram juntos, embora isso parecesse impossível caso o isolamento do privado nunca tivesse sido rompido. Não descrevo aqui um conto de fadas, só quero deixar claro que essa era uma oportunidade aberta aos universitários: rever, a partir da utilização do espaço público, suas concepções de classe, seus preconceitos, suas ideologias, a dimensão de sua visão de mundo. Do ponto de vista acadêmico, essas atividades sempre concentraram um gigantesco potencial de fazer valer a universidade como universidade, e não como coleção de especificidades.

            A convivência com as celebrações privadas sempre ocorreu. No caso do IE, elas são majoritariamente representadas pelos jogos universitários, com todas as suas contradições e limites. Nestes eventos, as preocupações com o caráter coletivo e público sempre foram muito pouco respaldadas, embora possamos sim encontrá-las nas atitudes de determinados participantes. Entretanto, são poucos. A maior fonte de diversão são as diversas esferas de concorrência e competição (a melhor equipe, a melhor torcida, o mais bêbado, o mais “causador”, o mais pegador…) e geralmente isso leva a reforçar padrões grotescos de sociabilidade e incitar a reprodução dos signos de “superioridade” tão fortes em nossa sociedade (o machismo, a homofobia, a humilhação, a segregação, o preconceito).

            Há dois dias duas estudantes denunciaram essa faceta dos jogos universitários e das festas. Expuseram provas concretas de como se manifestam entre os estudantes e trouxeram outros casos de igual relevância (o “rodeio das gordas”) para questionar: qual o limite de nossa tolerância? Até que ponto admitiremos sem problematizar, sem se incomodar? Até que ponto a conivência não é uma forma de responsabilidade? São essas perguntas que eu gostaria de ver respondidas não só pelos estudantes, mas pelo diretor do Instituto e por outros que sempre consideraram um absurdo a universidade acolher festas, manifestações culturais, acolher as diferenças.

            O que as eleições do CAECO tem a ver com isso? Tudo. A frieza que o ambiente universitário impõe, em suas relações para dentro e para a fora, faz crescer o discurso de que a integração deve ser atomizada. Deve ser uma “integração separatista”, uma integração para dentro (fascimo). Estar próximo a outros estudantes, a outros setores da sociedade, não é integração, é divórcio da sua função bem definida na burocracia acadêmica. As novas gerações de estudantes, na ausência de um outro testemunho do que seja integrar, devem estar atentas a essas concepções fracas e vazias de conteúdo e construir, na medida em que acumularem forças, novos significados para esses termos. Boicotar jogos e festas poderá ser uma consequência, mas deve ser uma consequência refletida, consciente, crítica e não apenas rebelde. Vivi isso quando busquei “sair” do IE em busca de ar fresco, de liberdade, de afetividade, de amor. E vi que dava tempo de apostar em outros valores, se despojar das bestialidades que estão por aí. Sempre há tempo para o verdadeiro diálogo (o diálogo que é feito com amor, carinho e esperança, não o diálogo defensivo que o preconceito clama para se justificar).

            Por fim, devemos ter em mente o aspecto estrutural de todo esse processo e questionar a concepção das instâncias de poder do que é público e o que é privado. Os estudantes que tanto prezam pela diversão e integração dos alunos do IE estão, por linhas tortas, selando um pacto de mediocridade com as instâncias de poder onde são eles mesmos que perdem, ao não explicitar os problemas crônicos de que padece a Universidade e que tem relação direta com a nossa saúde física e psicológica neste lugar.  Neste contexto, a solução é fazer uma festa aqui, outra acolá. Que me perdoem arautos da masculinidade, mas essa verdadeira pagação de pau para a universidade e para o sistema como um todo é das coisas mais broxantes que podem existir.

 Em apoio a Daphnae e Flávia,

 Taufic 06

Hay hombres (e mulheres) que viven contentos aunque vivan sin decoro. Hay otros que padecen como en agonía cuando ven que los hombres (e mulheres) viven sin decoro a su alrededor. En el mundo ha de haber cierta cantidad de decoro, así como ha de haber cierta cantidad de luz. Cuando hay muchos hombres (e mulheres) sin decoro, hay siempre otros que tienen en sí el decoro de muchos hombres (e mulheres). Esos son los que se rebelan con fuerza terrible contra los que les roban a los pueblos su libertad, que es robarles a los hombres (e mulheres) su decoro. En esos hombres (e mulheres) van miles de hombres (e mulheres), va un pueblo entero, va la dignidad humana. Esos hombres (e mulheres) son sagrados.

Martí 

Dentre as diversas formas de ser sórdido, uma das mais esquivas é pelo uso da anedota, porque ela agride e desautoriza os ofendidos a reagir contra ela.

Duas estudantes do IE e militantes do coletivo feminista Pão e Rosas publicaram um artigo no Jornal do CAECO (ieunicamp.wordpress.com) no qual elas primeiro afirmam a existência de uma ideologia de violência contra mulher na sociedade e, posteriormente, apontam como a mesma coisa se verifica no ambiente universitário específico do Instituto de Economia da UNICAMP: contra alunas e contra funcionárias.

O ponto herético foi criticar o jogo universitário, o evento religioso mais importante no calendário da Atlética. A prática esportiva, nunca deixa de ser, também, uma prática lúdica e cultural. E as dimensões culturais possíveis passam por várias possibilidades construtivas ou não. Nossa intocável entidade reproduz – embora não precisasse – uma espécie de High School Musical do ensino superior.

A crítica feita por elas é a forma como a premissa do esporte é apropriada para reproduzir uma cultura de coisificação e violência contra a mulher entre os estudantes. E a excelente denúncia do machismo é forte, porque ela é notada no seio da insuspeita elite rica, branca, educada, cristã, é dirigida aos seus filhotes irrepreensíveis.

No imaginário machista circulam dois estereótipos categóricos e definitivos sobre a condição da mulher: submissa ou desvairada. A mulher que não se coloca na sua posição de adequação ao homem é a mulher louca que transtorna as relações e o seu lugar social.

A reação ao artigo foi brutal, ferocíssima, infame. No mesmo espaço se registraram inúmeras respostas – a maioria anônimas, outras não – com apologia explícita e chocante da violência contra mulher em geral e contra as duas em específico.

Na noite do dia 20/06 o coletivo Pão e Rosas da qual fazem parte, organizou um ato de exposição – prática recorrente da luta desses grupos – da violência que foi dirigida como resposta ao texto. Houve, por um lado, difusão pública da resposta nominal mais emblemática, registrada no espaço de comentários do Jornal, feita por Renato César Martins Pinto, estudante do curso noturno: “Uma mulher que não sabe diferenciar um hino universitário de estupro, espancamento ou qualquer outra forma de violência realmente merece ser subjulgada.” (sic). (Que fique claro, existem inúmeras outras respostas tão ou mais graves registradas anonimamente ou não no mesmo espaço).

Por outro, houve a coleta de assinaturas para uma nota pública de repúdio ao machismo na universidade, acompanhada da uma discussão conduzida pelo grupo para problematizar a questão, principalmente, entre as mulheres do curso.

Dessa vez a reação foi algo mais que brutal, ferocíssima e infame porque foi temperada com a reação das duas chapas em disputa pelo Centro Acadêmico do Instituto.

A chapa composta por ex-membros da Atlética, uma chapa situacionista porque não propõe o enfrentamento de nenhuma das várias questões críticas que permeiam a universidade, partiu em defesa da vítima: o estudante Renato. Isso mesmo. O estudante que estava sendo constrangido e se tornou um mártir do sacro-direito de subjulgar (sic) uma mulher.

Os advogados de defesa argumentaram por dois lados. Primeiro, ele tem o direito de manifestar suas convicções. Segundo, as agressoras, desvairadas, estavam criando um verdadeiro escândalo com base em exagero e manipulação de agentes subversivos soviéticos estudantes do IFCH. De fato, existem estudantes do IFCH no coletivo Pão e Rosas, o que especialmente causa ojeriza nos estudantes do IE, mas também há estudantes de outras faculdades. Todos eles estavam presentes enquanto parte do coletivo.

Bem, há quem diga que a movimentação toda consistiu num golpe eleitoreiro. Não foi. Antes tivesse sido. Explico.

A posição da outra chapa foi explicitamente: a) não intervir, porque não era um problema especificamente dela, apesar de possuir uma pauta contra opressões em sua carta-programa, tratar-se de colegas e alunas de/em seu Instituto; b) não intervir para não ter sua credibilidade de maneira nenhuma associada ao ato das estudantes, à presença de estudantes do IFCH no IE ou atritos com a sacra-atlética.

Por sorte, os oprimidos não precisam da sensibilidade de terceiros para expressar indignação contra seus opressores. Qualquer cultura é difícil de mudar, principalmente uma cultura opressiva. Mas se é possível, a mudança certamente passa por uma reação à violência, por uma exposição dos agressores e pela expressão legítima da indignação das pessoas ameaçadas.

Mas o que se vê, contudo, é uma reação oportunista de isolamento das estudantes. Acontece, por um lado, pela relativização da agressão e, por outro, pela acusação de desvario. O problema do machismo volta a pairar nas nuvens, quase sem nos tocar, e o caso se reduz a meia dúzia de linhas infelizes contra duas pessoas em particular.

O absurdo dessa situação reflete uma deterioração humana sem tamanho. Uma cultura de opressão que brutaliza mulheres, negros, homossexuais não deve jamais ser naturalizada, relativizada, consentida e muito menos ignorada. Sim, haverá barulho, sim, haverá desconforto, sim, haverão rostos desconhecidos e sim, haverá denúncia pública e irrestrita.

Quero declarar minha total solidariedade e respeito a todas as mulheres que se sentiram ofendidas, principalmente à Flávia, à Daphnae e ao senso de dignidade que carregam. Foram agredidas, sofreram esse assédio moral explicitamente por serem mulheres, mas não foram subjugadas por ninguém, em hipótese alguma, sob quaisquer custos.

 Daniel – Fantasma Jedi

Muitos fatos que acontecem na sociedade nos passam despercebidos. Estamos tão acostumadas à mentira de uma sociedade livre e de iguais condições somada a uma visão fatalista de nossas vidas, que acabamos por naturalizar vários tipos de violência: fome, desigualdade, falta de acesso à água potável e rede de esgoto, analfabetismo, discriminação racial, xenofobia etc. A violência contra a mulher é uma delas: a mulher morta e esquartejada pelo companheiro, a mulher que fica paralítica vítima da violência doméstica, os vários casos de estupros, de abusos, de tráfico de mulheres são capazes de nos sensibilizar, geram ódio, raiva, pena, mas não são capazes de nos mobilizar. Por exemplo, em Campinas, conforme dados da Secretaria de Segurança de SP, só nos primeiros quatro meses desse ano, foram registrados 73 casos de estupro. No estado de SP, em 2011, já ocorreram 2699 casos! Esses dados são reflexos daquilo que ocorre diariamente, e é por nós, mulheres e homens, naturalizado ou banalizado.

Segundo a Unesco, uma em cada três ou quatro meninas é abusada sexualmente antes de completar 18 anos e segundo a ONU, uma em cada em três mulheres será espancada, violentada ou estuprada em algum momento de sua vida. Qual a razão desses dados bárbaros? Na nossa sociedade capitalista patriarcal em que tudo é transformado em mercadoria, desde os direitos elementares para sobrevivência humana até o próprio ser humano e suas relações, as mulheres são vistas pelos homens e por elas mesmas como uma propriedade masculina, um objeto, e não um sujeito independente (num sentido amplo que ultrapassa o conceito meramente financeiro englobando a sua independência plena com relação ao homem, à maternidade, à família), capaz de transformar a realidade. A Igreja, o Estado burguês, a mídia possuem um papel fundamental na difusão dessa visão de mulher enquanto objeto sexual, na qual se destaca o papel reprodutivo e o papel submisso de usufruto do homem.

Essa ideologia que legitima e gera esses atos e esses números inadmissíveis é a mesma que se expressa nas Economíadas. O que a princípio pode parecer apenas um torneio esportivo despido de qualquer conteúdo ideológico revela, num olhar mais atento e crítico, o machismo, a homofobia e o elitismo ocultos. Na Economíadas Caipira do ano passado, vimos um exemplo escancarado (!) nos hinos divulgados em material oficial da Atlética, ou seja, nas músicas que resumem os objetivos e os valores dos estudantes de economia. “Pinga, maconha, mulher e baixaria/quem manda nessa porra é Unicamp economia”, “Ela diz que é gatinha, que seu peito é natural/Diz que sua bolsa Prada foi presente de Natal/Mas eu to ligada na pura realidade/Chupa rola e dá o cu pra pagar mensalidade/ Ela é puta graduada!”, “Aqui só tem coiote louco/Quero beber, quero cheirar/Cuidado biscatinha da Puccamp porque a fodeu vai te pegar!” ou “Essa é a escola que todos desejam, mas poucos conseguem entrar/Você que tentou e não conseguiu, vai pra puta que pariu!” são alguns exemplos dos hinos cantados. 2011 é mais um ano em que esses mesmos estudantes se animam para, nos jogos e nas festas, ostentarem “a melhor escola do Brasil”, cheia de encantos – mas só para os poucos vencedores que passaram no vestibular.

Essa visão está tão presente e tão arraigada nos homens e nas mulheres, que o fato de a Atlética ter uma presidente mulher não é capaz de alterar em nada o caráter machista e opressor das festas, como a festa da Senha; dos trotes, com concursos de miss e elefantinhos; dos eventos financiados e promovidos pela entidade cujo símbolo do coiote com a coiote fêmea estereotipada, dinheiro e cerveja está sempre presente.

Esse não é um fato isolado das Economíadas, está na maioria dos jogos universitários, independente das faculdades que os organizam. No InterUnesp do ano passado vimos a expressão máxima da barbaridade que permeia esses eventos com o “Rodeio das Gordas”, no qual os homens se aproximavam das mulheres que consideravam gordas, as empurravam no chão, montavam em cima e cronometravam quanto tempo conseguiam ficar sobre elas.

É importante lembrar que tanto o InterUnesp, como as Engenharíadas, as Economíadas e outros desses eventos recebem financiamento de empresas privadas, tais como as de cerveja, cuja publicidade machista é difundida na mídia e nesses tipos de festas, e das reitorias das universidades. No IE sabemos que a Atlética já tentou realizar acordos com empresas como o SANTANDER em troca de publicidade para o banco no uniforme dos times e dentro do instituto, além de receber uma verba da diretoria para a realização das Economíadas.

Ao passo que, quando há a tentativa de se contrapor a esse tipo de festa, construindo de forma politizada e consciente uma outra forma de sociabilidade, sem machismo, sem homofobia, sem hierarquia, se propondo a romper com toda a tradição tão reivindicada por essas entidades, como foi no caso do Festival Contra as Opressões promovido pelo DCE da Unesp no ano passado, a resposta dada pela reitoria são processos de sindicância aos alunos organizadores. No IE não é diferente, enquanto temos o auditório negado pela direção para a realização de ciclo de estudos de autores marxistas sob a alegação de que esse não é um assunto de relevância acadêmica, a Atlética tem as portas do auditório escancaradas para a realização do seu “Momento Economíadas”.

Diante de tudo aquilo que denunciamos nas linhas acima não cabe mais aceitarmos os discursos dos que nos dizem que essa é uma questão subjetiva, apenas uma brincadeira, que depende da interpretação individual. Esta é uma situação diante da qual não podemos mais nos calar, achando que é natural. É preciso rompermos o silêncio, é preciso denunciarmos essas atitudes, boicotando esses tipos de eventos, pressionando e discutindo politicamente com e nessas entidades para mudarmos essa realidade bárbara.

Flávia Ferreira, 09, militante do Pão e Rosas

Daphnae Picoli, 09, militante do Pão e Rosas

“Sim, a precarização do trabalho em nosso país tem rosto de mulher. E é justamente aí que reside o perigo desta constatação: o que aconteceria se milhões de mulheres pobres, trabalhadoras terceirizadas, informais, donas de casa, desempregadas, esse verdadeiro exército silencioso, se levantasse de uma só vez contra todas as formas de opressão e contra este sistema que nos explora e superexplora cada vez mais?”[1].

Nosso Brasil do crescimento e desenvolvimento econômico, do Pré-Sal, da Copa do Mundo e das Olimpíadas, incluído entre as maiores economias do mundo, esconde uma realidade muito distinta dessa aí, propagada pelo governo e pela mídia burguesa para todo o mundo. O crescimento que aconteceu com o Governo Lula e continua com o da Dilma ocorreu, como apontam os dados estatísticos do IBGE, com queda no desemprego e maior criação de empregos formais, ocupados principalmente pela força de trabalho feminina. Contudo, o que permanece oculto é que estes postos de trabalho são, na realidade, trabalhos precarizados, sem estabilidade, sem condições decentes no local de trabalho e com contratos flexibilizados – sem garantia de direitos historicamente conquistados, como licença-maternidade, 8 horas diárias de trabalho e auxílios -, permitindo que os trabalhadores ganhem menos de um salário mínino.

Essa realidade do mercado de trabalho que parece tão distante está escancarada na nossa frente. Os terceirizados da limpeza, do bandejão, da segurança, da construção civil aqui da Unicamp são todos empregados com esse tipo de contrato. Trabalham dez horas por dia, inclusive finais de semana, e recebem (líquido) menos que um salário mínimo, não possuem lugar para descansar (no IE, por exemplo, as terceirizadas descansam no bosque porque não possuem um local adequado para ficarem durante o horário de almoço), não possuem direitos trabalhistas, não podem faltar nem se estão doentes porque são ameaçados de serem demitidos, são ignorados pelos alunos, professores e funcionários efetivos, não podem conversar com estes e caso o façam podem sofrer punições, serem demitidos ou transferidos para outra unidade(essa fiscalização aqui na Unicamp tornou-se mais rígida após a tentativa de contato de alguns estudantes com os trabalhadores terceirizados e a mobilização dos primeiros contra a terceirização, no ano passado), enfim, trabalham num regime de semi-escravidão.

A precarização do trabalho, chamada de terceirização, atinge toda a classe trabalhadora, mas está mais presente entre nós, mulheres. Isto porque a mão-de-obra feminina, sendo considerada por nossa sociedade capitalista como inferior à masculina, recebe salários menores e este fato serve como pretexto para que o salário de toda a classe trabalhadora seja rebaixado. Nós, mulheres, ocupamos os postos de trabalho mais precarizados, com menor remuneração e com serviços que são, em sua maioria, extensão do serviço doméstico.

Além desse trabalho realizado em condições desumanizadoras, estas trabalhadoras ainda possuem sob sua responsabilidade o serviço doméstico e o cuidado da família, realizando uma dupla jornada. De acordo com os dados do Ipea, as mulheres chefes de família e com filho trabalham cerca de 13 horas semanais a mais que os homens na mesma situação, realizam 30 horas semanais de trabalho não remunerado, ou seja, trabalho doméstico, e isso é três vezes mais do tempo gasto pelos homens na realização das mesmas tarefas. É importante ressaltar que este trabalho feito em casa é essencial para o funcionamento do capitalismo, pois irá garantir a manutenção da força de trabalho: um trabalhador precisa se alimentar, ter sua roupa lavada, passada, viver em um local limpo, caso contrário não poderá ir trabalhar e tudo isso é garantido dentro de casa, pela mulher, num papel que lhe é socialmente atribuído.

Estas trabalhadoras, ao contrário do que muitos dizem, não realizam funções secundárias dentro da universidade, são parte dela e são essenciais para o seu funcionamento. Contudo, sabemos que embora suas tarefas sejam essenciais para o funcionamento da universidade, a estes trabalhadores e aos seus filhos nunca será dada a oportunidade de ingressar na universidade com outro papel que não este. De acordo com os dados do Inep apenas cerca de 3,5% da população brasileira tem acesso ao ensino superior. O rendimento médio per capita da população é de 1,3 salários mínimos, já o dos estudantes da Unicamp é o dobro disso, 3 salários mínimos. No caso do curso de economia, um dos mais elitizados, essa renda média salta para cerca de 4,5 salários mínimos por pessoa da família.

Além disso, o conhecimento que é aqui gerado não retorna como benefícios para esses trabalhadores, ao contrário, são vendidos para as transnacionais em acordos com a reitoria e o governo do Estado, em troca de financiamento de laboratórios, festas, atléticas, intercâmbios aos estudantes, estágios. Estas são as mesmas transnacionais e empresas –representantes do imperialismo– que (como bem estudamos no nosso curso) no início dos anos 80, sob o pretexto de se ajustar a um ambiente instável de crise – gerada por elas – flexibilizaram, racionalizaram e terceirizaram a sua produção, aumentando os seus lucros por meio da superexploração dos trabalhadores em todo mundo, mas principalmente nos países subdesenvolvidos.

Estes trabalhadores e, principalmente estas trabalhadoras, mulheres, que sentem sobre si o peso da dupla exploração, dentro e fora de casa, não estão calados. Ainda nesse semestre, vimos as manifestações dos trabalhadores terceirizados em Jirau contra as condições precaríssimas de trabalho, numa obra em construção do grandioso PAC, que teve como resposta do governo federal o envio da Força de Segurança Nacional. E mais perto de nós, na USP, as trabalhadoras terceirizadas da limpeza também realizaram uma greve porque estavam trabalhando ser receber salário já havia três meses, um fato que era agravado pela razão da firma ter declarado falência. Uma greve que, no início, reivindicava apenas recebimento dos salários, transformou-se em uma luta contra a terceirização e pela efetivação sem concurso público dessas trabalhadoras, bandeira levantada também por nós do Pão e Rosas, pois se o objetivo do concurso público é provar a capacitação dessas trabalhadoras para exercerem as suas funções, a maior prova que podemos ter é o fato daquelas já as exercerem.  O apoio do SINTUSP (Sindicato dos funcionários da USP) e dos estudantes (que foram chamados pelas trabalhadoras a saírem das salas de aula e lutarem com elas) teve como resultado o pagamento dos seus salários pela Reitoria da USP, apesar de não terem sido efetivadas. É importante ressaltar que a Reitoria da USP a princípio tinha se negado a pagar estes direitos às trabalhadoras, sob a alegação de que isso era de responsabilidade da empresa que as contrataram, contudo, em razão das mobilizações, dos piquetes, dos atos e manifestações, da lutas destas trabalhadoras em aliança com os estudantes esse pagamento foi arrancado da Reitoria.

O movimento estudantil e os centros acadêmicos (especialmente este aqui, de economia, cujos alunos estudam esta questão diariamente) devem estar juntos na luta com e por estas trabalhadoras, numa perspectiva clara de uma democratização ampla e radical do acesso ao ensino superior público, gratuito e de qualidade, para que este tipo de trabalho realizado em condições desumanas não ocorra aqui na universidade e nem em local algum. Para que essa grande maioria, que não entra na universidade senão para limpar salas que nunca irão usar, construir prédios nos quais os seus filhos nunca poderão estudar, tenham acesso à universidade. Não podemos mais fechar os olhos e estudar em silêncio numa Universidade que explora trabalho semi-escravo de mulheres e homens para funcionar.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, acreditamos que diante dessa realidade não adianta lutarmos sozinhas, é necessário que nós, mulheres, nos organizemos, para que juntas, nos aliando com os setores mais oprimidos da sociedade, consigamos exigir e arrancar os nossos direitos, tal qual nos ensinaram as trabalhadoras terceirizadas da USP. A nossa luta não deve ser contra os homens, mas sim contra esse sistema capitalista e patriarcal que nos explora e nos oprime diariamente – nos impondo dupla jornada de trabalho, exigindo de nós padrões de beleza inalcançáveis – e que necessita manter e perpetuar o machismo, a homofobia e o racismo pra funcionar. A emancipação da mulher, a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, não virá por meio da chegada ao poder de uma ou outra mulher, que no final estão lá não para representar as milhares de trabalhadoras, tais como as terceirizadas, mas sim para atender ao interesse de uma pequena elite, da classe burguesa. Somente a partir da nossa auto-organização e da nossa luta anticapitalista e antiimperialista numa perspectiva classista poderemos mudar esta realidade.

Flávia Ferreira, 09, militante do Pão e Rosas
Daphnae Picoli, 09, militante do Pão e Rosas

[1] A precarização tem rosto de mulher, ORG. Diana Assunção. Ed. ISKRA, 2011.

Ter visto o segundo debate das eleições do CAECO foi uma experiência muito peculiar. Como no primeiro, já imaginava que meu animo iria se exaltar, mas o humor (ou mau-humor) que senti diante daquela discussão, acalorada, sobre “integração” e diante do festival de acusações, que permeou o debate, é inexplicável. Por não conseguir conte-lo em mim, escrevo aqui minhas impressões dos dois debates.

Imagino que ambas as chapas tenham idéias incríveis para “integrar” todo mundo do IE, que acreditem que estão mais bem preparadas e têm mais competência para fazer isso. Mas uma coisa me chamou a atenção: como a chapa “Um CAECO para você” imagina promover essa tão famigerada INTEGRAÇÃO!

No fim da tarde de uma terça-feira fria algumas pessoas se reúnem para assistir o segundo grande debate das eleições do CAECO 2011. As chapas se preparam, as regras são explicadas em meio algum tumulto da platéia, que se ajeita como dá. O relógio é ativado e… Primeira a falar “Um CAECO para você”: Começa esclarecendo o famoso incidente da “bola de cristal” que aparentemente rendeu vários posts no Facebook. Tudo explicado, agora é hora de mostrar por que eles são melhores em “integrar”. E a justificativa? É só olhar os eventos da atlética! Eles “Integram” bastante, muita gente vai, a maioria das pessoas tem uma ligação com a atlética e/ou com seus integrantes (bem como com as pessoas que compõe a chapa, fato importantíssimo que foi citado em outro momento). O restante do debate me parece meio obscuro, já que essa fala foi o suficiente para me tirar o animo.

Ok. Vamos supor que seja verdade, vamos supor que a maioria dos alunos do IE gosta e freqüenta esses eventos (será?). Eu fico me perguntando e eu? Eu não me sinto “integrada” com a atlética, não freqüento muitos eventos da economia. Aparentemente, por ser minoria eu tenho que me conformar e seguir a tendência. Tudo bem, maioria é maioria… Mas a idéia toda dessa tal de “integração” não é juntar todo mundo? Maioria, minoria, mulheres, homens e afins? Como a chapa pretende fazer isso se já vem com essa idéia de que representa a maioria (maioria de que? De quem?) e de que essa é a função do CAECO?

E a palavra da moda é “Integração”!! Achei estranho ter ouvido poucas vezes “tolerância” e “respeito”. Para mim, é quase impossível desconectar essas três palavras. Tolerância e respeito, na minha visão, são essenciais para que ocorra essa integração megalomaníaca que se espera. Por isso além de mau humor, fiquei confusa com a posição tomada pela chapa “Um caeco para você”. Não era justamente a falta de espaço para visões diferentes que eles criticam na gestão atual? E desde quando “maioria” é “diferente”? Afinal, intolerância da maioria ou da minoria, no limite não é intolerância de qualquer forma? Talvez os integrantes da chapa não tenham pensado nisso, talvez, não tenha sido isso que eles queriam dizer. O que importa é que foi dito, mais de uma vez.

Recordo-me de um episódio do primeiro debate, em que foi feita uma pergunta nesse sentido. Ao serem questionados sobre o machismo e a homofobia, os integrantes da tal da chapa de “oposição” se colocaram, obviamente, contra essas manifestações, mas admitiram nunca terem pensado no assunto(????).

Bom, vivemos em um mundo intolerante. Um mundo repleto de pré-conceitos, fobias, pudores, fascismos, em todos os âmbitos de nossas vidas e nas relações hierárquicas que construímos e mantemos todos os dias. A intolerância, de muitos tipos, nos rodeia o tempo todo, está dentro de nós, está em todos os lugares. Não ficou claro se os integrantes da chapa “Um CAECO pra você” acredita realmente que por algum motivo transcendental, o IE está livre dessas intolerâncias e por isso, contornam discussões desse tipo, ignoram as minorias, o diferente, ou se o fazem por que não reconhecem o assunto como sendo relevante e nunca “pensaram nisso”. Acho que o festival de acusações que ocorreu durante os debates, por parte de ambas as chapas e por parte dos que estavam assistindo, é uma prova irrefutável de que infelizmente não, nosso querido Instituto de Economia não alcançou o nirvana. Outra demonstração desse fato, foi o repudio da chapa em questão, em nome de TODOS, a uma ação individual que ocorreu durante a greve- a pichação do muro- (Oh não! eu não repudiei a ação, sou minoria de novo). Por esses e outros tantos fatos vou supor a segunda opção: eles não reconhecem o assunto como sendo relevante.

Dessa forma, a questão que ficou martelando na minha cabeça foi: como posso acreditar que uma chapa que não consegue identificar essa intolerância tão obvia, a ponto de nunca ter se proposto a refletir sobre ela; e parte do pressuposto de que a “maioria” e “todo mundo” são sinônimos, pode realmente conseguir unir pessoas de diferentes tipos para construir um espaço de e com todos? A conclusão: acho que não posso acreditar.

Eu não quero um centro acadêmico da maioria, nem da minoria, nem de ninguém. Eu quero um centro acadêmico livre de qualquer tipo de pensamento pré-moldado. Um espaço em que todas as manifestações, atividades, propostas, idéias, sejam bem-vindas. Um espaço dos estudantes e para os estudantes. Utópico? Talvez. Mas para mim isso sim é integração e eu acho que a chapa um “CAECO para você” está caminhando na direção contraria.

Marina 09