Jornal do CAECO

Archive for the ‘Reificação do destino histórico’ Category

“O filósofo britânico Samuel Johnson dizia, em meados do século 18: ‘A segurança, dê no que dê, será sempre o melhor’. Dois séculos depois, dizia o filósofo italiano Benito Mussolini: ‘Na história da humanidade, a polícia sempre chegou antes do professor’. E agora, neste início de século 21, grandes cartazes nos advertem nos supermercados e nos shopping centers*: ‘Sorria. Para sua segurança, você está sendo filmado’.” (Galeano)

* e nas universidades.

Anúncios

Grande capital controla como nunca as eleições e os candidatos mais cotados

Escrito por Paulo Passarinho*

26-Jun-2010

 

A eleição presidencial mais controlada pelo grande capital, desde o restabelecimento das eleições diretas no país, se aproxima de seu calendário oficial. Por uma das inúmeras deformações do processo eleitoral, o que assistimos até o momento atende pelo eufemístico nome de pré-campanha.

Formalmente, somente após as convenções dos partidos – que devem se realizar até o dia 30 de junho – e da data de 6 de julho as campanhas podem se assumir como tais. O que assistimos, portanto, até o momento foram eventos pré-eleitorais, independentemente da máquina do governo federal ou do aparato do PSDB estarem a pleno vapor, com os seus respectivos candidatos, Dilma e Serra.

As eleições se encontram sob o controle do grande capital, pois o outrora contestador PT se encontra mais domesticado do que cachorrinho de circo. O candidato da oposição, José Serra, pertence ao confiável PSDB, partido responsável pela consolidação do modelo liberal-periférico ou neocolonial, como queiram, em curso no país desde o atribulado e instável governo de Collor.

Delfim Neto, o ex-czar econômico da ditadura militar, e conselheiro informal do atual presidente, já afirmou por mais de uma vez que “Lula salvou o capitalismo no Brasil”. Exagero. O que Lula, o PT e os seus aliados históricos fizeram foi salvar justamente o modelo econômico baseado na dita abertura econômica e que se traduz no continuado processo de abertura financeira, comercial, produtiva e tecnológica do país.

Outra aberrante característica do momento é que a mídia dominante já realizou uma espécie de prévia eleitoral. Além dos dois candidatos já mencionados, a oligarquia que controla os principais meios de comunicação do país incluiu dentre os seus eleitos a eco-capitalista Marina Silva. Talvez pelo seu esforço de também se mostrar mais do que bem comportada frente aos donos do dinheiro, da terra e da mídia.

Marina, na busca dessa bem comportada imagem, se coloca capaz de – caso eleita – juntar o melhor do PT e do PSDB em seu governo, e vir a ser também “uma grande solução para o agronegócio”. Parece que vai longe o tempo em que os verdes se colocavam a favor da agroecologia.

Para quem lê qualquer dos jornais de maior circulação, ou assiste a noticiários de TV, percebe-se com clareza a existência imposta desses três citados candidatos. É dentro desse contexto que devemos compreender o esforço realizado nos últimos dias por intelectuais considerados de esquerda e que procuram justificar o apoio a Dilma como a melhor opção para o país. Mais do que isso, procuram apontar o imenso equívoco que representa não apoiar o PT e seus aliados nesse momento. Até mesmo a célebre divisão entre a social-democracia alemã e os comunistas daquele país, no início dos anos trinta, e que acabou por facilitar a ascensão de Hitler ao poder, é lembrada para justificar a posição favorável ao apoio à candidata do Planalto.

Procurando respaldar essa visão, de forma mais consistente, encontramos análises que destacam que o atual governo promoveu a reinserção internacional do Brasil na economia global, com uma ativa política de integração regional e alianças estratégicas com os países do hemisfério sul. Como exemplo, cita-se o fato de a China ter se tornado o nosso principal parceiro comercial, com a América do Sul em segundo lugar e os Estados Unidos sendo deslocado para um modesto terceiro plano.

Esse tipo de abordagem desconsidera que o capital procura a sua valorização de acordo com condições objetivas de rentabilidade, o que não deve ser confundido com qualquer tipo de viés ideológico ou político. A China hoje, além de promover uma formidável expansão de sua infra-estrutura econômica, o que demanda a importação, por exemplo, do nosso minério de ferro, abriga um diversificado setor de bens de consumo duráveis e não-duráveis, que se deslocou dos Estados Unidos para aquele país. Há, inclusive, analistas que consideram que as mais de setenta mil filiais de empresas norte-americanas operando em território chinês consolidam uma integração produtiva sino-americana que conforma uma solidez estratégica entre esses dois países, que em muito extrapola a propalada relação do Estado chinês com a dívida pública do Tesouro americano.

Mas, especialmente, é uma análise que procura desconsiderar a nossa real inserção na economia global. Nossa presença comercial no mundo se baseia no modelo agro-mineral-exportador, tão criticado historicamente pela esquerda e por todos os setores que já alimentaram a esperança do estabelecimento no Brasil de um autêntico projeto nacional de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, com nossa estrutura produtiva cada vez mais desnacionalizada, importamos máquinas, equipamentos, peças e componentes industriais ao sabor das definições estratégicas das matrizes das corporações estrangeiras, aqui presentes através de suas filiais.

E para financiarmos tudo isso, para sustentarmos essas importações e as elevadas remessas de lucros e dividendos para os controladores externos de nossa economia, a devastação promovida pelo agronegócio, por mineradoras e siderúrgicas de produtos semi-elaborados ganha a sua funcionalidade, através de nossas exportações.

Levando-se em conta a importante agenda da integração latino-americana, um mínimo de cuidado analítico também se faz necessário. Não podemos confundir aspectos da política diplomática do governo Lula – efetivamente importante para vários governos reformista-revolucionários de nossa América – com o conjunto da nossa política externa.

Na América Latina, o furor e impetuosidade de multinacionais brasileiras já colocaram em rota de choque o governo Lula com governos efetivamente comprometidos com a transformação de seus países. Foi o caso, por exemplo, do conflito entre o governo do Equador e a Construtora Odebrecht, por ocasião do rompimento de uma represa construída pela empresa naquele país, onde o governo brasileiro e suas lideranças no Congresso – com o apoio do DEM – assumiram a firme defesa dos interesses da empreiteira brasileira.

Outro exemplo importante é dado pela política de financiamentos do BNDES para grandes projetos, de interesse das construtoras brasileiras. Além de internamente o BNDES ser hoje o principal agente financeiro da predação ambiental em nosso país, na América Latina o papel do Banco segue os mesmos passos.

Somente na Amazônia peruana, a previsão é que se construam seis usinas hidroelétricas, de total interesse das empreiteiras brasileiras, na procura de alternativas de negócios que escapem dos controles que nossa legislação ambiental procura estabelecer. Além disso, são projetos que obedecem às estratégias de infra-estrutura elaboradas pelo Banco Mundial para a região, dentro da concepção de se criarem melhores condições para a exportação de produtos primários para as economias centrais.

E essa política do BNDES na América Latina não pode também ser desvinculada dos obstáculos que o governo brasileiro coloca para a consolidação do Banco do Sul. Proposta como instituição de fomento relevante na região e instância para uma maior e necessária integração financeira entre os nossos países, fora da área de intervenção do FMI, Banco Mundial, BID – instituições que encarnam sobremaneira os interesses norte-americanos –, é sabida a oposição brasileira a esses propósitos.

E isso tudo sem também deixar de mencionar a presença das tropas brasileiras no Haiti, ou o recém acordo militar Brasil-Estados Unidos, rompido desde o governo Geisel, e agora restabelecido – sem um mínimo de transparência – pelo atual governo.

São muitos os exemplos, portanto, que colocam em xeque a ingênua, ou oportunista, abordagem que simplifica a análise mais substantiva da política externa brasileira. Por fim, não poderia também deixar de mencionar o argumento que destaca que acima de tudo o governo Lula priorizou o social.

Prioridades de governo se refletem, necessariamente, nos seus respectivos orçamentos. E é impossível acreditar que um governo que prioriza o pagamento de juros e amortizações, como é o caso atual, tenha tido condições de colocar as políticas sociais em um plano relevante.

O que tivemos, de fato, foi o aprofundamento da outrora também criticada focalização de políticas sociais nos setores mais vulneráveis do nosso povo. Política importante, para o atendimento aos mais carentes, mais miseráveis. Mas absolutamente insuficiente para o que precisamos: políticas universais e de alta qualidade para o conjunto do nosso povo.

Ao contrário, continuamos a assistir – em termos de educação, atendimento de saúde, transportes públicos, segurança ou habitação popular – a uma perigosa degradação.

 

* Paulo Passarinho é economista e membro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro.

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/4776/9/

A janela aberta para o desenvolvimento

http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=7&i=6413

07/04/2010 12:54:06

André Siqueira  

 O diretor do Instituto de Economia da Unicamp vê uma chance única criada pela venda de bens primários

Não há contradição entre ser um país exportador de commodities e promover o desenvolvimento econômico, garante o diretor do Instituto de Economia da Unicamp, Mariano Laplane. O que não quer dizer que a abundância de recursos naturais e a crescente demanda internacional por esses produtos sejam a garantia de um futuro promissor. Estudioso do processo de industrialização brasileiro, o professor alerta para a importância de fugir de visões maniqueístas e definir uma estratégia para aproveitar a janela aberta temporariamente para inserir o País no novo cenário mundial. 

Um dos primeiros passos para qualificar esse debate, segundo Laplane, foi a organização do seminário Produção de Commodities e Desenvolvimento Econômico, realizado na segunda-feira 29. O evento é o primeiro passo de um acordo de cooperação recentemente assinado com a Vale, para aproximar a universidade do setor privado. Esta e outras alternativas capazes de promover a diversificação da economia brasileira foram discutidas nesta entrevista a CartaCapital.

CartaCapital: Está superada a ideia de que a produção de commodities relega o País a uma participação menor na economia globalizada?
Mariano Laplane:
Não quero simplificar uma questão complexa e perder de vista aspectos que a discussão, até hoje, apenas tangencia. Precisamos enxergar além da visão maniqueísta, porque não há contradição em ser uma economia com essas características e promover o desenvolvimento. Basta lembrar a riqueza dos EUA em recursos naturais e, apesar disso, ou até graças a isso, se desenvolveu.

CC: A conjuntura internacional favorável à venda de commodities significa uma oportunidade para o Brasil utilizar seus recursos naturais na promoção do crescimento?
ML:
O debate oscila. Há a visão do milagre, do agora vai, com base no pré-sal, no agronegócio, como se o desenvolvimento agora fosse inevitável e automático. De outro lado está o fantasma da volta ao passado, algo como a economia primária e exportadora reloaded. Nenhuma das duas visões é inevitável. O passado não volta, mas tampouco podemos ter a ilusão de que automaticamente nos transformaremos em um país desenvolvido.

CC: Não é real o risco de nos limitarmos a ser uma economia primária, asfixiando outros setores?
ML:
O risco da doença holandesa é uma evidência histórica. Não sou favorável a metáforas panglossianas, mas a economia não é mais a do século XIX. A Ásia viveu um processo de urbanização e industrialização em escala fantástica, criando uma demanda também fantástica. É uma economia muito mais integrada e complexa. Não faz mais sentido a imagem do centro industrializado e da periferia subdesenvolvida.

CC: O mundo estaria em uma nova etapa histórica, a chamada economia do conhecimento?
ML:
A economia do conhecimento não chega a ser uma novidade. Desde a Revolução Industrial se busca aplicar o conhecimento aos processos. Onde as oportunidades tecnológicas se concentram é que há inovações e novos produtos. O que tem ocorrido é que essa lógica industrial tem transbordado das atividades manufatureiras para outros setores. A atual lógica do agronegócio, com as técnicas de correção do solo e produção de sementes, é a industrial. A mesma coisa acontece nos serviços, com novas técnicas de gestão. Não vejo o conhecimento como uma nuvem pairando sobre as economias. O Brasil, por exemplo, tem um sistema científico de ponta em determinadas áreas, mas a conexão com o mundo dos negócios ainda é muito fraca. A indústria eletrônica da Ásia começou com aparelhos commoditizados e evoluiu para chips e softwares. A Índia não faz apenas o outsourcing de serviços. A industrialização periférica é o resultado de iniciativas planejadas para promover o desenvolvimento desses países. E certamente há oportunidades para um país com recursos diversificados.

CC: As cadeias de produção de commodities incorporam uma série de atividades que exigem tecnologia e investimento. Realizar esses processos dentro do País é o caminho para promover o desenvolvimento?
ML:
Isto é fato, mas os processos existem em graus diferentes, de acordo com a atividade. Não temos de fazer uma escolha, temos de pensar em estratégias de desenvolvimento. Há uma janela para aprofundar a industrialização, que não exclui a criação de uma economia moderna de serviços. Desenvolvimento é um processo de diversificação da economia, distribuição de recursos e promoção de bem-estar. Nos anos 80, uma dessas janelas foi aberta para a industrialização. Alguns países asiáticos aproveitaram, mas não a América Latina.

CC: A demora em definir essa estratégia explica os problemas que enfrentamos na área cambial, por exemplo?
ML:
O debate pode ser levado para a questão macro, de modo a se avaliar o custo e o benefício de exportar em larga escala. Por um lado, há a garantia de que não haverá restrição de recursos. De outro, a apreciação cambial pode eliminar outros setores do comércio internacional, causando a doença holandesa. Mas não dá para reduzir o debate, porque há outras variáveis, como a política de juros e a permeabilidade à entrada do capital estrangeiro. Se vamos definir que a estratégia é crescer e diversificar a economia, aproveitando as oportunidades identificadas no mundo, então teremos de qualificar mais esse debate. Os setores ligados às commodities, pelas dimensões, pela escala global e pelo crescimento da demanda, colocam questões que vão além da lógica privada. A localização das jazidas e terras e os requisitos de investimentos em logística fazem com que sejam elementos de reorganização do espaço físico nacional fortíssimo.

CC: Quais as principais ameaças a uma interação positiva com o setor privado?
ML:
Dado que o País parte de grandes vantagens comparativas e disponibilidade de recursos naturais, há o risco do rentismo, um traço comportamental extremamente pernicioso para o desenvolvimento. Como colocar tais recursos aqui não é resultado do esforço de ninguém, não é justo que as rendas de propriedade e monopólio sejam apropriadas por poucos. Um país que já sofre da doença do rentismo financeiro não pode pegar também a doença do rentismo dos produtos naturais. Temos um problema de distribuição de renda e equidade que não é trivial. Um exemplo é a discussão sobre a divisão dos royalties do petróleo. O assunto causou uma tensão no pacto federativo. A intuição me diz que seria mais fácil vincular os recursos a projetos que possam gerar benefícios para todos, em vez de brigar por uma fatia para gastar hoje. Há aqui um problema de transferência de benefícios que ultrapassa tudo o que o mercado pode resolver. Há países que conseguiram construir modelos que a sociedade civil aceitou, como a Noruega. Para um país no estágio das instituições brasileiras a tarefa é mais árdua, mas a enfrentaremos galhardamente.

CC: Por onde se inicia a reorganização?
ML:
Precisamos de marcos institucionais. O sucesso temporário da ditadura com o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) é um exemplo de salto que não conseguiu legitimidade institucional. As oportunidades existem, mas exigem engenharia empresarial, políticas públicas, um marco institucional complexo. Quanto mais longe do maniqueísmo e das frases de efeito, quanto mais interlocutores forem envolvidos, melhor. Depois de duas décadas perdidas do ponto de vista do desenvolvimento, o mercado doméstico é uma base para termos empresas com dinamismo assegurado, lideranças empresariais com outra cara. Durante os 20 anos de estagnação, as empresas adotavam estratégias defensivas. Os obstáculos colocados pela estagnação e pelo rentismo financeiro tornaram nossos empresários tímidos quanto a investimentos de alto risco. Não por falha de caráter, mas diante das condições em que os negócios eram estruturados. Eram empresas pouco inovadoras, que só saíam do País quando havia uma vantagem natural, ou por falta de alternativa. O empreendedor é uma figura rara no País, que podemos contar nos dedos de uma mão.

CC: Um ambiente de negócios mais estável basta para despertar o empreendedor?
ML:
Não é uma coisa trivial. Lutamos contra a combinação de dois genes: uma tradição patrimonialista, que visa preservar a riqueza com o menor esforço, e características que o mercado financeiro incorporou: títulos de curtíssimo prazo e títulos da dívida pública, com inexistência de mercado secundário. Ainda é só uma expectativa, mas quero crer que o ambiente está se tornando mais dinâmico, com menos rentismo. Para usar mais um exemplo otimista, vejo com simpatia o crescimento do número de empresas brasileiras que investem no exterior. As discussões sobre o desenvolvimento estão em curso, e na hora certa.

________________________________________________________

Com a palavra, um cartunista:

“Nunca um governo fez tanto por nosso setor”, diz fundador da UDR

De Araçatuba (SP)
05/04/2010

Silvia Costanti/Valor
Foto Destaque
Luiz Guilherme Zancaner: “Sou um sujeito de direita e a favor da livre iniciativa, mas tenho sensibilidade social”

O empresário Luiz Guilherme Zancaner, dono do grupo Unialco, com três usinas de álcool e açúcar, apoia o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e tem confiança de que a pré-candidata do PT à Presidência, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, continue com a política favorável à expansão do setor. Fundador da União Democrática Ruralista (UDR), Zancaner é sobrinho do ex-senador da Arena Orlando Zancaner, mas não poupa elogios Lula. A opção, diz o empresário, é pragmática. Zancaner é diretor secretário da Unidade dos Produtores de Bioenergia (Udop), entidade de usineiros da região Oeste de São Paulo, onde está concentrado o rico e produtivo agronegócio da cana no país.

Valor: Qual é a expectativa que o senhor tem com relação à ministra Dilma Rousseff?

Luiz Guilherme Zancaner: Houve uma sinalização muito boa da parte dela, de continuidade. Não se esperava a crise e o governo Lula ajudou. Essa já é a terceira vez que ela vem à feira [referindo-se à Feicana, feira de negócios do setor em Araçatuba]. Também já estive com ela no ministério.

Valor: O senhor a conhece há muito tempo?

Zancaner: Pouco antes de Lula ser eleito, em 2006, antes do segundo turno, estivemos numa reunião fechada em um hotel em São Paulo. Estavam Lula, Dilma, Celso Amorim, o então ministro da Agricultura, Luis Carlos Guedes. Do nosso setor, estavam eu, Rubens Ometto, José Pessoa, Maurílio Biagi, Eduardo Carvalho e Hermelindo Ruet. Naquela reunião, Lula expôs ao setor o que ele fez e o setor reconheceu.

Valor: Foi uma reunião de acordo?

Zancaner: Lula e Dilma mostraram a afinidade com o setor. O governo patina algumas vezes, por causa da burocracia, mas nós patinamos também na questão do cumprimento dos preços. Falta estoque regulador.

Valor: Estoque feito pelo governo?

Zancaner: A falta de estoque regulador de preços é ruim para nós, para o consumidor e para o governador. Se a Petrobras fizesse parte disso, ganharia dinheiro.

Valor: Como o senhor avalia a atuação do governo Lula no setor?

Zancaner: Na crise, o governo fez a parte dele. Deu crédito, apesar de toda a burocracia para liberar. O governo Lula foi excepcional para o nosso negócio, fico até emocionado. O setor fez muito pelo Brasil, mas o governo está fazendo muito pelo setor. Nunca houve antes política tão boa para nós. O presidente Lula não perde nenhuma oportunidade de ser gentil. Outras pessoas não perdem a oportunidade de serem desagradáveis, arrogantes.

Valor: É sobre o pré-candidato do PSDB á Presidência, José Serra, que o senhor está falando? Ele tem sido restritivo à plantação da cana?

Zancaner: Só posso afirmar que o Serra é um excelente administrador, mas considero que o Serra não vê o setor como o Lula vê. O Lula formou uma equipe boa, como o ótimo ministro da Agricultura, o Reinhold Stephanes. Noto que o Lula fez um governo melhor. O Fernando Henrique Cardoso fez as bases, mas Lula e Dilma construíram os canais conosco.

Valor: E o senhor acha que a Dilma vai dar continuidade?

Zancaner: A Dilma foi muito clara quando esteve aqui, em Araçatuba. A linha é de continuar a política de Lula.

Valor: O senhor esteve com ela?

Zancaner: Sim, conversei com ela. Sinto que a maioria do setor, mesmo com os problemas com o MST, tem afinidade com a ministra e um diálogo muito bom. O governador [que deixou o cargo na sexta-feira] Serra é mais fechado, não temos diálogo com ele.

Valor: O senhor tem diferenças ideológicas com o atual governo e com a ministra Dilma?

Zancaner: Fui fundador da UDR de Araçatuba, em 1988. Sou muito amigo do Ronaldo Caiado. Tenho divergências ideológicas tanto com Lula quanto com a ministra. Tenho divergência em relação ao MST, nessa questão dos direitos humanos, do ministro Vannuchi, a quem sou muito crítico. Acho que nessa questão da anistia, o que passou, passou. Mas se quer revisar a anistia, quem sequestrou, assaltou banco, quem matou também tem que ser julgado. Tem que ter equidade.

Valor: Quer dizer que esse apoio ao governo Lula e à Dilma é uma questão pragmática?

Zancaner: É uma questão pragmática, do nosso negócio. O governo, por exemplo, se preocupa com a desnacionalização do setor, o que é importante para nós. Nessa questão é importante ter equilíbrio, é interessante o capital estrangeiro vir porque melhora o preço dos nossos ativos. E nós precisamos desse capital. Mas precisa ter equilíbrio. O custo de capital deles é muito menor por causa dos juros que eles encontram lá fora.

Valor: O governo poderia oferecer juros mais baixos, no patamar do americano?

Zancaner: Poderia ser juro mais barato do BNDES.

Valor: A ministra Dilma defende o fortalecimento dos grupos nacional do setor de etanol. Qual seria a maneira de fazer isso além de aumentar a oferta de financiamento?

Zancaner: Por que a Petrobras não pode participar dos grupos nacionais? O governo deverá fortalecer e tem condição de dar sustentação dos grupos nacionais para dar equilíbrio ao capital nacional. Hoje, o capital estrangeiro já tem 25% de toda a produção de cana do Brasil.

Valor: Como poderia ser essa participação da Petrobras?

Zancaner: A Petrobras tem mais chance de entrar na produção de etanol, na usina. A empresa já faz contratos de exportação com o Japão, já tem estrutura de distribuição.

Valor: O senhor defende que a Petrobras plante cana ou seja proprietária de terras?

Zancaner: Não, seria uma participação só nas usinas.

Valor: Os usineiros sempre foram adversários do PT. O senhor acha que contraria a tendência?

Zancaner: Temos deputados do PSDB, DEM, PP, PPS. Eles têm atividade conosco. Acredito que o Serra vá sinalizar qual é a política para o setor, o que ele quer para o etanol. O Alckmin [ex-governador de São Paulo do PSDB Geraldo Alckmin] dialogava com o setor, fez um rearranjo do ICMS do setor, fez a lei das queimadas, mas o Serra modificou e diminuiu o prazo para reduzir as queimadas.

Valor: O senhor acha o governo Lula bom, para além do seu setor?

Zancaner: Sou um sujeito de direita, sou a favor da livre iniciativa, mas tenho sensibilidade social. O Bolsa Família mudou o Nordeste. Tinha gente sem dinheiro para comer ou para comprar uma pasta de dente. A situação fora de São Paulo, do Sudeste, é muito diferente. O Brasil ainda tem muita miséria.

Valor: E o senhor tem pretensões políticas?

Zancaner: Por enquanto não tenho nenhuma. (APG)

Clique aqui para ir à matéria

Somos mais do que um grande celeiro

01/04/2010 15:07:40

André Siqueira

__________________________________________________________________________________________

Esqueça a imagem do Brasil como o celeiro do mundo. Nos próximos anos, o País caminha para se consolidar como grande fornecedor mundial não só de grãos, mas também de carne, açúcar, minério de ferro, petróleo e uma série de

outros bens de largo consumo e cujos preços são cotados internacionalmente – as chamadas commodities. E o melhor é que, diferentemente do que pregavam as teses cepalinas nos anos 60, uma grande participação do setor primário na economia não representa mais, necessariamente, uma ameaça à industrialização e à diversificação de atividades. A conclusão é de acadêmicos, executivos do setor privado e representantes do governo reunidos na segunda-feira 29, em São Paulo, no seminário Produção de Commodities e Desenvolvimento – O esforço empresarial brasileiro.

“A experiência mostra que a exploração dos recursos naturais, por si só, não garante o desenvolvimento. Mas, sem recursos naturais, o desenvolvimento torna-se penoso”, afirma o diretor do Instituto de Economia da Unicamp, Mariano Laplane, responsável pela organização do encontro.

Nos últimos cinco anos, a participação das commodities nas exportações brasileiras ampliou-se em um ritmo médio superior a 6% ao ano, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Em 2009, quando as vendas ao exterior levaram um tombo de quase 30% sob os efeitos da crise financeira internacional, a fatia dos produtos básicos cresceu de 44,8% para 50,2%, o que contribuiu para evitar que o Brasil registrasse déficit na balança comercial.

Mas não é só nas contas externas que se mede o peso dos produtos primários na promoção do desenvolvimento. “A indústria de commodities do século XIX não é a do século XXI. As atividades que antes eram básicas agora são sofisticadas”, afirma o diretor de planejamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), João Carlos Ferraz.

As dificuldades enfrentadas na introdução da cultura da soja e do algodão na Região Centro-Oeste e a complexidade envolvida na extração do petróleo nas profundezas do mar são exemplos de obstáculos que exigiram o uso intensivo de tecnologia na produção brasileira. A esse cenário, Ferraz acrescenta o componente da intensa concorrência internacional. “Em se plantando, tudo dá? Não é bem assim.”

O presidente da Vale, Roger Agnelli, lembrou que as descobertas de grandes jazidas minerais são cada vez mais raras, e dependem da utilização das mesmas tecnologias utilizadas nas pesquisas espaciais. “A atividade pode ser antiga, mas o que era fácil encontrar já foi explorado”, afirma.

O executivo compara o debate sobre o peso das commodities na economia ao jogo de cartas rouba-monte. “Uma discussão sobre reduzir o papel dos produtos básicos na economia é estéril. A vocação do Brasil é ser o maior país agrícola, o maior minerador e o maior produtor de petróleo. Somos bons no que conseguimos naturalmente nos tornar bons. Nada veio de graça”, ressalta. “E precisamos nos concentrar nesses setores para nos tornar ainda melhores.”
Por enquanto, o Brasil beneficia-se da boa fase dos bens primários no comércio internacional. Desde o início da década, cresce a participação de alimentos, minério e petróleo nas trocas internacionais, enquanto os preços acompanham a trajetória de alta. A boa notícia é que os países asiáticos, apontados como principais causadores desse movimento, não dão sinais de exaustão.

Entre 1998 e 2008, a Ásia aumentou de 23% para 30% sua participação nas compras mundiais de produtos básicos, e manteve estável sua fatia nas exportações na categoria. “Isso quer dizer que ainda temos pela frente um período interessante de demanda mundial em alta”, prevê Ferraz, do BNDES. Os números também refletem a clara opção daqueles países por importar insumos do Brasil. “Conversamos com banqueiros chineses, e eles deixam clara a disposição para nos fornecer financiamento, infraestrutura, máquinas e, se preciso, até mão de obra.” A respeito, vale a leitura da coluna de Delfim Netto, à página 27.

Prova do crime

O interesse da China em estimular a exportação de matérias-primas brasileiras, entretanto, guarda uma diferença fundamental em relação à antiga estratégia “centro-periferia”, associada, em outros tempos, ao subdesenvolvimento. “Não somos um País pequeno, com economia especializada. O peso das commodities tem de estar associado ao tamanho do nosso mercado, há espaço para os outros setores”, sustenta Ferraz.

Também conta a favor do Brasil o fato de a grande demanda por insumos, aliada à oferta de bens industrializados no Oriente, ter promovido uma alteração histórica nas relações de troca, com vantagem para os fornecedores. “Antes era necessário vender 15 toneladas de minério de ferro para comprar um computador. Hoje, são três ou quatro”, compara Agnelli. “Se no futuro precisar de uma só, vou ficar feliz.”

O diretor da divisão de mineração, petróleo e gás do Banco Mundial, Paulo de Sá, cita um informe recente da Intel, segundo o qual a produção mundial de microprocessadores vai duplicar nos próximos cinco anos, enquanto os preços cairão pela metade. O movimento é oposto ao do setor mineral, em que a maior parte do valor agregado se concentra nas etapas iniciais. “A rentabilidade da extração não se reproduz nas etapas da manufatura, quando a concorrência é muito maior”, afirma.

Segundo o executivo, restam duas opções aos países ricos em recursos. A primeira é aplicar altos impostos à produção, como fazem, por exemplo, as nações do Oriente Médio em relação ao petróleo. O outro caminho não requer que se abra mão das taxas, mas consiste no alargamento das cadeias produtivas. Não só no sentido vertical, que requer comprar brigas com os clientes, mas no horizontal, ao estimular parcerias com fornecedores locais e a criação de infraestrutura de energia, tecnologia, transportes e serviços. “A integração horizontal contribui muito mais para o desenvolvimento do que a simples taxação”, defende.

Sá dá como exemplos países africanos que, a despeito de possuírem vastas reservas petrolíferas, registram taxas de crescimento negativas, ou inferiores às de vizinhos sem riquezas naturais – um fenômeno batizado de “maldição dos recursos”. Em outros locais, a falta de fontes de financiamento e de orientação política da produção simplesmente impede que minas de alto potencial sejam exploradas.

“A grande questão hoje é como expandir a produção e, ao mesmo tempo, criar laços para contribuir com a economia local. A falta dessa licença social para operar pode inviabilizar empreendimentos inteiros. No caso dos setores que exploram recursos naturais, essa preocupação é ainda mais importante”, afirma o diretor do Banco Mundial. Segundo Sá, o Brasil tem obtido sucesso na estratégia de associar o mercado interno robusto ao desenvolvimento das cadeias produtivas. A Petrobras, com o alto índice de nacionalização de fornecedores e investimentos, tornou-se um exemplo internacionalmente reconhecido, garante o executivo.

As reservas de petróleo na região do pré-sal, que podem se situar entre 10 bilhões e 50 bilhões de barris, podem tornar a estatal brasileira a maior empresa mundial do setor nos próximos anos, de acordo com o vice-presidente da Energia do Rio e conselheiro do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Luiz Carlos Costamilan. “A Petrobras era um grão de areia perto das grandes multinacionais, hoje tem um valor de mercado superior a 200 bilhões de dólares, pouco abaixo de gigantes como a Exxon ou a russa Gasprom”, afirma. “A empresa é reconhecida como a número 1 na exploração em águas profundas, que está para o setor petrolífero assim como a atividade espacial para a indústria aeronáutica.”
Segundo Costamilan, o desafio de substituir as reservas de petróleo em declínio obriga as empresas a investir, de maneira quase compulsória, o equivalente a 800 milhões de dólares ao ano em pesquisa e desenvolvimento. “O Prominp (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural) já capacitou 50 mil profissionais e deve chegar a 200 mil. Isso mostra como a exploração da commoditty envolve um grande desafio financeiro, mas também traz impactos positivos extremamente relevantes”, diz.

Com as encomendas de navios e plataformas para a exploração do petróleo na região do pré-sal, a Petrobras foi responsável pelo renascimento do setor naval brasileiro. A Vale, por sua vez, teve papel fundamental na reativação da indústria ferroviária, com as compras de 259 locomotivas e 12,5 mil vagões desde 2003. A mineradora também terá participações relevantes em mais da metade dos investimentos brasileiros em aumento de capacidade de produção de aço até 2014. O objetivo, na área siderúrgica, não é necessariamente concorrer com outros compradores de minério de ferro, mas criar garantias de demanda interna caso a economia chinesa reduza o ritmo, conforme explica Agnelli.

“Não existem mais enclaves na mineração moderna. Não se constroem mais vilas para os funcionários. Contribuímos para que os municípios invistam na própria infraestrutura, levamos desenvolvimento para onde vamos”, garante o presidente da Vale.

Se o petróleo e a mineração ainda guardam promessas, na agricultura as vantagens comparativas brasileiras sempre foram evidentes. De acordo com as estatísticas de comércio internacional em 2008, da Organização das Nações Unidas, o País é o maior produtor mundial de proteína animal (bovina, suína e de frango), açúcar, café e tabaco. “O agronegócio brasileiro alcançou um sucesso único nos trópicos, uma atividade mais complexa e integrada à economia”, afirma o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Associados. “Em 40 anos, o processamento subiu das zonas mais temperadas do continente para acima dos trópicos, graças ao aproveitamento de vantagens naturais, como água e terra a baixo custo, mas também a um pacote tecnológico, com destaque para a atuação da Embrapa e de outras instituições estatais.”

Mendonça de Barros destaca técnicas como o sistema de plantio direto, que permite o uso quase contínuo dos solos e a obtenção de até três safras por ano ao cobri-los com a palha da colheita anterior. A integração da agricultura com a pecuária e com o reflorestamento também configura soluções tão revolucionárias quanto tipicamente nacionais. A ênfase no agronegócio, garante o economista, pode impulsionar o País em outros setores.

Não são poucas as áreas de pesquisa promissoras para o Brasil a partir da economia do campo. O diretor-geral da Votorantim Industrial, Raul Calfat, prevê para breve o desenvolvimento de uma nova geração de biocombustíveis produzidos a partir dos cavacos de madeira. Se o prognóstico se confirmar, significará uma oportunidade ímpar de agregar valor ao resíduo da produção de celulose da Fibria, líder mundial no setor, controlada pelo Grupo Votorantim. “Plantamos florestas em uma área de 1,2 milhão de hectares, maior do que a Bélgica”, disse o executivo.

“Boa parte da inovação tecnológica não está na indústria, mas nos serviços. A tecnologia da informação, em especial, permite desverticalizar parte da cadeia de serviços que integra o agronegócio”, explica Mendonça de Barros. “Há variedades de cana-de-açúcar que ainda não estão no campo, mas são capazes de aumentar em 40% a produtividade. A biotecnologia, por exemplo, está na fronteira da tecnologia mundial.”

A necessidade de aumento de produtividade, no caso da agricultura, é reforçada por uma realidade histórica: em que pese o aumento da demanda por alimentos, nos últimos 30 anos os preços caíram 5% ao ano, em média, de acordo com dados da Fipe. “Só a tecnologia e a pesquisa vão permitir que continuemos a fazer mais do mesmo, com mais eficiência”, diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora e Produtora de Carne Suína (Abipecs), Pedro de Camargo Neto. “Esse é o debate que importa.”

A aproximação entre a produção de commodities e os processos industriais, segundo o professor de economia da Unicamp e consultor editorial de CartaCapital Luiz Gonzaga Belluzzo, suprimiu as fronteiras entre as duas atividades. “O setor primário ficou mais secundário, enquanto a Ásia suprimiu a divisão internacional do trabalho. Hoje, o Brasil não pode prescindir da indústria que já criou nem abandonar uma vantagem natural que se tornou dinâmica”, afirma o economista. “Precisamos nos concentrar em resolver entraves, como as deficiências de infraestrutura e a falta de financiamento de longo prazo, o que exige reformas e protagonismo do governo e do setor privado.”

A maior evidência de que os produtos básicos não são entraves, mas sim alavancas para o desenvolvimento, é o desempenho de países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Noruega. De acordo com o consultor Cláudio Frischtak, da Inter.B, trata-se de casos de sucesso de quem soube estruturar um setor industrial em torno de uma base de recursos naturais. “Ao mesmo tempo, esses países foram precursores também nos investimentos em educação, com índices elevados de alfabetização no início do século XX. Essa é a maior prova de que o desenvolvimento não é automático”, conclui.

poderiam meus sentidos estarem zombando da minha fé?!