Jornal do CAECO

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Sente-se no Reino da princesa do Oeste

Algo que antes já se sentira em Dinamarca.

Os Apologetas, para deixar sua marca,

Co’ adereços de bondade cobrem suas vestes.

 

Por de trás de tão nobre cortejo aí mire-se,

Dentre tantos, o mais impensável absurdo.

Pois o que em essência deveria ser tudo

Relegou-se à arte dominada por Circe.

 

Por alguns punhados de algarismos se trai

O compromisso irrevogável adquirido

De criar para aqueles de quem mais se extrai.

 

Levantam com ideias e ações racionais

A Casa, com portões onde pode ser lido:

“Abandonai toda esperança, vós que entrais!”

Boris, o aranha.

“Passados os temores da reprovação, enfim sou estudante da “escola de economia mais crítica do país”! Estou muito animado com as aulas sobre os teóricos mais importantes que terei no curso! Os clássicos não sairão da minha mente e das discussões na sala de aula! Os professores – interessados em dar aulas e especialistas nas matérias que ministram – me darão todo apoio em temas de interesse extra-curricular assim como em pesquisas sobre os temas mais importantes para a sociedade brasileira!! Sou um aluno da Unicamp!”

Meu caro amigo receio lhe dizer que não trago boas notícias! Aquela escola que a Unicamp fora outrora, passa como as demais escolas de economia, dia após dia, por um enquadramento nos padrões mainstream. Mostra nítida disso foi a reforma da graduação de 2010, que, por exemplo, adiciona uma cadeia inteira de métodos¹ e retira matérias e reorganiza a cadeia de brasileira  ². Assim, você terá um curso bem diferente dos que ingressaram até 2009 e muito – e muito! – mais diferente daqueles que ingressaram no começo dos anos 2000. Exemplo? As temidas ME414 (Estat 1) e MA111(Cálculo 1), hoje ministradas no IMECC, eram oferecidas no IE, assim, contavam com professores diferentes, ementa e modo de condução do aprendizado distinto daquele que temos hoje. Inúmeras mudanças vêm sendo feitas no nosso curso ao longo do tempo. Assim como a graduação teve seu curso reformado em 2010, a pós-graduação também sofreu mudanças no catálogo para 2011.

Fora as mudanças que vieram com a reforma, a graduação na Economia-Unicamp têm lá suas matérias legais: Economia Internacional, História Econômica Geral, Economia Política, Formação Econômica do Brasil…. Porém, para chegar até o sonhado diploma, muitos são os “pedágios”: Introdução à Microeconomia, Microeconomia 1, Microeconomia 3, Macroeconomia 2, Macroeconomia 3, Internacional 3 (entre outras..)– todas elas matérias que duvidam da nossa capacidade mental ao mostrar o mundo idealizado dos piores manuais: concorrência perfeita, com todas suas homogeneidades, racionalidade, livre informação e os sonhados equilíbrios, tudo isso ilustrado pelos piores exemplos – e claro – ministrados em aulas tediosas!

E todos aqueles grandes nomes da economia? E aquele do time do futebol? Na graduação: não. Os nossos professores há muito deixaram de ter interesse em ministrar aula para a graduação: devido ao sistema de pontuação e evolução da carreira docente dar aula na graduação “vale poucos pontinhos”. Daí a gente encontrar certos professores desinteressados, aulas não preparadas… Claro! Há sempre um ou outro docente que salva, mas não é a regra.

Aulas sobre os clássicos? Smith, Ricardo, Marx? Contente-se com Economia Política 1 e 2. A primeira, uma visão de todos os mais importantes economistas até o Ricardo (via de regra é uma matéria bem dada, porém o conteúdo acaba ficando bem espremido). Já a segunda se propõe a ser o estudo de todos os volumes do Capital, Marx (sim!, o esforço é monumental).

O mundo da pesquisa também passa por mudanças… Se você se interessa num tema super interessante de pesquisa – que contribuirá para entender os dilemas da sociedade nacional, você procura um professor, escreve um projeto e manda pra FAPESP (pedindo uma bolsa de Iniciação). E aí? O seu projeto é negado!! Quase nada que não contenha a exatidão da econometria nem tenha por base a pureza do mundo do equilíbrio será aprovado: há um viés ortodoxo na banca que escolhe os projetos. ³

Muitas das ilusões dos ingressantes vão ser quebradas já no começo do curso. Entender os motivos de tantas mudanças na universidade e no ensino de economia também é tarefa de um graduando; Talvez uma boa lida nesse jornalECO e uma boa conversa com os veteranos esclareça esses que são alguns dos muitos questionamentos sobre a nossa graduação. Porém, todo esse processo das mudanças no nosso curso estão ligadas a mudanças mais gerais no ensino superior brasileiro, e entender as suas motivações e implicações começa desde uma calourada, mas é um esforço que leva bem mais que 5 anos….

Melissa, 09 Noturno

1 –  Cadeia de matérias de instrumental matemático ou de instrumentos da informática para “aplicação” nas disciplinas – é o que reza a lenda!

2 – Cadeia das matérias de economia brasileira, essenciais para entender a formação da economia nacional e os rumos que nosso desenvolvimento foi tomando com o passar dos anos (claro, considerando o viés “da casa”).

3 – Claro, nada como ter uma segunda chance e mandar o projeto para a PIBIC…

Bem  vindos queridos calouros! Há exatamente um ano atrás eu estava na mesma situação que vocês e centenas de sentimentos e expectativas corriam pelas minhas veias. Eu estava embarcando “no curso de Economia mais crítico do Brasil”. Estava prestes a pensar a sociedade brasileira de uma forma que eu sempre quis, teria contato direto com os grandes gurus da Economia brasileira, sem contar na efervescência cultural que estaria prestes a vivenciar diariamente com festas, festivais e apresentações espalhadas por todo o campus. Não posso dizer que de certa forma não desfrutei de momentos que satisfizessem minhas expectativas durante este primeiro ano (primeiramente para não desanimá-los e também por que estaria sendo hipócrita – se fosse tão ruim assim, já teria me mandado!), mas é fato que aquilo que esperava encontrar agoniza em nossa universidade e consequentemente dentro do IE. A universidade que os veteranos dos veteranos e uma dúzia de veteranos sortudos respiraram está sofrendo uma metamorfose.

A Escola crítica (que você sempre vai ouvir sendo chamada de Casa) na verdade não me ofereceu até então muitas ferramentas para pensar a ciência econômica mais criticamente e quando ousamos pensar algo fica a “leve impressão” de que estamos sendo inconvenientes (se você for um bixo tímido como eu, vai até se sentir constrangido de pensar, mas logo passa!), o barato da coisa e ouvir e reproduzir. De qualquer forma, se a Casa não te receber bem podem vir para a área de serviços que lá estamos sempre confabulando algo.

A maior decepção talvez fique por conta do contato com os Chuck Noris das Ciências Econômicas. Temos alguns professores fantásticos por aqui, é bom procurarem saber quem são para não embarcarem em aulas trote todo semestre, mas se espera ter aula com um ex-presidente do banco x, com o conselheiro do presidente da república, etc., fique sabendo que estes caras não estão mais muito interessados em você! Mesmo não concordando com muitos desses figurões, seria monumental poder ter aulas com eles e discordar pessoalmente do que eles estão dizendo. Fica o consolo de esperar que eles estejam vivos quando chegarmos à “maturidade intelectual” de um mestrado ou doutorado pra poder trocar idéia com os caras.

Tudo bem, se dentro do IE as coisas não estão maravilhosas, pelo menos podemos atravessar a rua e ir ao IFCH ou ao IMECC curtir um happy hour e esquecer um pouco do economês nosso de cada dia certo?  Não tão certo assim na verdade. Há algum tempo festas e encontros de universitários para beber uma simples breja e trocar idéia, interagir, ou seja, viver a universidade, estão sendo podados, atendendo à interesses de alguns e com total aval da reitoria. Esse papo tem muito pano pra manga mas o fato é que com isso as nossas opções de quebra de rotina, descontração e mesmo momentos excelentes para teorizar sob efeito de algumas doses, estão cada vez mais se restringindo e o espaço público sendo tomado de assalto.

Essa foi a universidade pública que encontrei. Mas apesar dos pesares, queridas e queridos ingressantes, ainda respiramos e esta metamorfose que ocorre ainda esta longe de nos fazer parar de pensar na universidade que realmente queremos, metamorfizada de forma oposta à esta. Ah, se não concordam com algo que aqui está escrito, não se reprimam (uoooo!) sintam-se à vontade para desdizer tudo aquilo que lhes disse antes. Queremos bixos e bixetes pensantes acima de tudo!

De um agora veterano que espera ter eternamente o brilho nos olhos dos calouros.

De acordo com a ONU, uma em cada 3 mulheres será estuprada, violentada ou espancada em algum momento da sua vida. Só no estado de São Paulo são cerca de 32 estupros por dia, de acordo com os dados de 2010.

Muitos fatos que acontecem na sociedade nos passam despercebidos. Estamos tão acostumados com a mentira de uma sociedade livre e de iguais condições somada a uma fatalidade em nossas vidas, que acabamos por naturalizar muitos tipos de violência: fome, desigualdade, falta de acesso à água potável e rede de esgoto, analfabetismo, discriminação racial, xenofobia, entre outros. A violência contra a mulher é uma delas. A mulher morta e esquartejada pelo companheiro, a mulher que fica paralítica vitima de violência domestica, os vários casos de estupros, de abusos, são capazes de nos sensibilizar, geram ódio, raiva, pena, mas não são capazes de nos mobilizar. Esses grandes casos são reflexo daquilo que ocorre diariamente e é por nós, mulheres e homens, naturalizado ou banalizado.

Somos 70% da população miserável do mundo e a maioria entre os analfabetos. Ocupamos os postos de trabalho mais precarizados (sem carteira assinada, com longas jornadas de trabalho e remuneração baixíssima), mesmo com ensino superior ganhamos menos que os homens de mesma qualificação.  Muitos dos trabalhadores contratados por firmas terceirizadas são mulheres, especialmente nos serviços que constituem uma extensão do serviço doméstico, fato que podemos observar em todos os lugares, inclusive na UNICAMP e no IE – basta um olhar atento ao redor.

O machismo é muito cruel. Ele é cruel porque assim como as outras formas de opressão, só pode existir se o oprimido aceita a sua condição, se este olha o mundo sob a ótica do opressor, se este naturaliza o mundo construído sob a ótica do opressor, mas mais ainda, se o oprimido não consegue enxergar a si mesmo como um agente da mudança, se vê apenas o futuro como um fato dado, sob o qual não pode agir. Alguns exemplos? Quantas vezes não ouvimos comentários machistas sendo feitos por mulheres? O próprio consentimento em ser transformado em um objeto: como as mulheres se comportam nas baladas? Quantas mulheres questionam as tarefas domesticas naturalmente atribuída a elas? Como as mulheres se comportam nos seus relacionamentos?

Nas universidades não é diferente, vocês vão ver. Nos jogos universitários, são cantados (por todos, inclusive mulheres) “hinos” explicitamente machistas. Quando se quer ofender, ou para alguns “zoar”, as outras faculdades é comum fazer referência às mulheres, colocando-as explicitamente como um objeto sexual. Este parece quase que um “código de conduta” implícito entre os homens das faculdades rivais: eles não se ofendem uns aos outros, preferem fazer isso com o outro sexo. E ainda, os casos de violência sexual e assédio moral são conhecidos por todos. O episódio do rodeio das gordas, no InterUnesp do ano passado, é uma das muitas situações, esse último caso, mostra mais uma dimensão do machismo incorporado nos padrões de beleza impostos às mulheres. No ano passado, aqui na Unicamp, estudantes foram agredidas e estupradas dentro do campus.

O curso que vocês escolheram também reflete essa realidade em muitos aspectos revelando o machismo presente nas salas de aula, nos corredores, nos hinos e nos livros….Reparem: quantas professoras vocês terão ao longo do curso? Quantas mulheres economistas vocês lerão, estudarão ao longo do curso? Poucas, muito poucas. E será que é porque as mulheres não pensavam, não liam, não escreviam? Não, não é por isso. As mulheres lutadoras, estudiosas, guerreiras, foram apagadas da história em nome do machismo e da submissão da mulher.

Mulheres, não deixem que esse assunto morra nesse artigo, se informem, busquem esclarecimentos e discutam entre parentes e amigos. Percebam as insinuações de machismo no dia a dia, vejam o invisível na busca por criar um novo ponto de vista sobre as opressões (sobre a questão). Homens, sem vocês também a luta não estará completa, o machismo e outras formas de opressão devem ser combatidos por todo o conjunto da sociedade. Mulher, sozinha é mais difícil! Seja o agente das mudanças e não somente um leitor(a) indiferente.

Daphnae Helena Picoli – Economia 3° ano

Flávia Ferreira da Silva – Economia 3° ano

No meio de inúmeras felicitações pelo ingresso na Unicamp, a apresentação alternativa dessa “nova casa” parece, num primeiro momento, uma tarefa absurda, para alguns talvez um monte de palavras de um cara chato de CA. Agora, me diga: esse tal “Instituto de Economia”, esse “Curso Crítico”, essa “Universidade” só têm coisa boa mesmo? Alguns diriam que este momento não é para falar dessas coisas, que tem que ser só de festa, de comemoração, etc*. Mas a idéia deste texto, ao contrário de querer colocar tudo em termos pessimistas, é a de apresentar alguns pontos que, no emaranhado de apresentações “bonitinhas”, de euforia pelo acesso à universidade, passam desapercebido ou mesmo nunca são mencionados na calourada, além de mostrar fatos importantes que vêm se manifestando e que são de desconhecimento dos atuais ingressantes.

Começando pelo que há de mais essencial num ambiente educativo que é a questão pedagógica. Sobre as práticas deste instituto (em outras unidades é bastante semelhante), dá-se o privilégio para formas de ensino cuja metodologia é a mesma de sempre – professor expõe, aluno ouve – e que pouco promovem o diálogo professoraluno, incluindo a ausência de debates em sala de aula e de questionamentos, seja da matéria, seja do método de ensino. Isto contraria a idéia de uma “formação crítica”, uma vez que o mínimo que se exige é que o ambiente educativo proporcione espaço para a reflexão, crítica e revisão do conteúdo exposto.

Não precisamos citar a falta de didática de muitos docentes e a ausência de criatividade de alguns deles, a exemplo daqueles que, na tentativa de “diversificarem” com aulas em power point, mais parecem dar uma aula de karaokê, além de outras anedotas a serem vivenciadas.

O espaço físico é outro item importante e bastante palpável no nosso cotidiano. A biblioteca em breve sofrerá problemas para alocar novos livros e os espaços para estudos são insuficientes, principalmente em épocas de prova; mesmo assim, não há cogitações de reforma. A carência de espaços de socialização entre estudantes e funcionários da universidade, além disso, é notável, seja para estudos, seja para intercâmbio de idéias, experiências ou mesmo descanso das atividades “de rotina”. Aliás, a rotina é um dos pilares desta “nova vida” – o roteiro casa-salade-aula-biblioteca – em detrimento das trocas entre aqueles que convivem na universidade – sem falar, ainda, naqueles que ficam/ficaram de fora da mesma, estes a muito vem sendo esquecidos pela universidade elitista em que estudamos e nenhuma troca com os mesmos esta universidade nos possibilita.

Agregando ao tema do espaço, no ano passado vivenciamos os problemas relativos às festas no campus, que também denotam o quanto a universidade vem fechando o cerco para a convivência universitária. Longe de ser um tema esgotado, uma vez que existem alguns pontos a serem melhor esclarecidos, as festas revelam-se como um espaço de confraternização estudantil, inclusive com pessoas de fora da universidade, e mesmo guardas que trabalham na unicamp alegam que as festas nunca apresentaram problemas maiores, sempre foram pacíficas e integrativas; em contrapartida, a política da universidade tem sido a de inibir, boicotar, reprimir esse tipo de atividade, inclusive elaborando processos contra estudantes, como aquele em que envolveu, de início, membros da atlética da economia e, logo, do caeco, “O Encontro de Baterias de 2009”, sem mesmo termos participado do evento em que éramos incriminados.

Se por um lado o espaço físico é cada vez mais limitado, as verbas para estudantes seguem o mesmo rumo. Os cortes são cada vez mais freqüentes, como o que vem prejudicando o caeco, a atlética e a econômica atualmente. Além disso, a reitoria já sinalizou para a centralização das verbas, o que dificulta a obtenção de mais recursos para a realização de atividades das entidades. Soma-se a isso os cortes realizados na área de extensão, um dos setores mais precarizados na universidade e um dos poucos canais de intermediação da universidade com a sociedade.

Por último cabe citar as alterações curriculares que vimos sofrendo nestes últimos anos, das grades da graduação e da pós. Ambas mostram claramente como o curso vem dando uma guinada a uma formação mais tecnicista e instrumental, voltada para a modelagem matemática ou para a disputa no mercado de trabalho, em detrimento de conteúdos humanistas ou voltados para a crítica da sociedade atual, sinalizado pela diminuição da carga de matérias de humanas e aumento de disciplinas de matemática/modelagem. A tendência é clara: uma adequação a padrões de produtividade ditados por entidades financiadoras públicas (capes, fapesp, etc.), ou mesmo ao “empacotamento” da pesquisa voltada para empresas e seus interesses privados (lucros, claro).

Como dito acima, não se trata de colocar os vastos problemas e permanecer pessimistas diante disso. Muito pelo contrário. Aqui apenas foram elencadas questões que perpassam o cotidiano dos estudantes e, daqui a diante, dos calouros, para a partir disso elaborar formas de intervenção visando transformar essa situação. Nesse sentido, a participação dos estudantes é fundamental, seja através de entidades representativas do movimento estudantil, seja em coletivos, seja de forma autônoma, mas tendo em conta que a organização dos estudantes pode fortalecer essa luta por mudanças. Esperar a boa vontade das instâncias burocráticas e superiores da universidade não nos levará a nada (não nos levou até agora!), pois seus membros são os principais beneficiados do que está dado.

* Nada contra as festas, a bebida, etc, sou completamente a favor, mas desde que não se preste a esconder o mar de problemas que estão a nossa volta.

Diego Ortiz – “Uruguayo”

Boaventura de Sousa Santos, professor catedrático da Faculdade de Economia na Universidade de Coimbra, declarou em um artigo escrito em 1988 que “Vivemos num tempo atônito que ao debruçar-se sobre si próprio descobre que os pés são um cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca vimos a ser”. Além desse pensamento se mostrar cada vez mais válido para o “estado do mundo”, atualmente é excepcionalmente válido para o estado da Ciência Econômica. Nos circuitos econômicos (academia, governo e mercado) reina a discórdia – Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, em 2008, na época acadêmico do M.I.T., concluiu em um artigo que o estado da teoria macroeconômica era ótimo; Alan Greenspan, presidente do FED de 1987 a 2006 e considerado por muitos o “maestro dos mercados”, declarou em outubro de 2009 estar atônito, que muito do que ele acreditava não se mostrava válido diante do que estava acontecendo com a economia mundial. Da onde vêm essa discrepância de declarações de pessoas que supostamente possuem a mesma linha de visão econômica, em um intervalo de apenas um ano, e a desilusão expressada por Greenspan? Proponho ser o “cruzamento de sombras”, a que Boaventura se refere, a causa da incongruência de idéias e da desilusão atual para com a ciência econômica Proponho também que a interpretemos como sendo combinação da confiança secular no método científico como prática central de geração de conhecimento, que nos faz pensar termos deixado para trás o tempo em que a natureza estava acima do homem, ao mesmo tempo em que cada vez mais tem-se a impressão que dela nada sabemos, juntamente com a excitação futurística advinda da percepção de que a economia enquanto ciência atingira seu ápice e seria capaz de explicar a realidade, moderar os mercados (o comportamento humano), e prever o futuro; práticas que parecem estar ao alcance mas ao mesmo tempo distantes.

Refiro-me por ‘método científico’ à combinação de conceitos resultantes da revolução iniciada por Galileu, Copérnico e Newton no século XVI. Pouco a pouco, os métodos e a consciência derivada dessa revolução – racionalidade plena, separação entre observador e o objeto, formulação de leis universais, causalidade, pontos de equilíbrio, experiências empíricas passíveis de repetição e comunicação através da matemática, entre outros conceitos – foram transbordando para as ciências sociais. Em primeira instância, Descartes e Bacon, principalmente, imprimem um caráter filosófico a esses conceitos, onde o homem passa a ter invariavelmente um determinismo mecanicista, utilitário e funcional. Agora a parte que mais nos interessa – a partir de Adam Smith no século XVIII, considerado o primeiro economista, utiliza-se do método científico para explicar o funcionamento da nova organização social que dava seus primeiros passos: o capitalismo. E através dos trabalhos principalmente de Ricardo, J. S. Mill, Malthus, Say, Walras e Marshall, nasce o corpo teórico da economia, enquadrada na “consciência objetiva” da revolução científica do século XVI, chamada de economia clássica e posteriormente neoclássica. Por outro lado, há também sempre a crítica, em que se propõe a introdução de fatores subjetivos na análise econômica. J. M. Keynes, em uma das obras-primas da teoria econômica – Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda –, utiliza o mínimo de funções matemáticas possível (inclusive, reservadamente expressava desconfiança no uso da econometria) e introduz a dimensão psicológica do ser humano como fundamental para a análise econômica. No entanto, mesmo introduzindo fatores subjetivos, essas teorias estão fundadas no mesmo paradigma científico do que as estritamente objetivas, por isso estão sujeitas às mesmas incongruências e desilusões. Estaria, então, a ciência econômica presa em um caminho sem saída? Minha resposta, felizmente, é não.

            Inicia-se no século XX uma nova revolução científica, ainda em curso. Iniciada por Einstein, com sua teoria da relatividade, e complementada por Rutherford, Schrodinger, Heisenberg e Bohr, os quais constituem a física atômica. Surge, com a conjunção das teorias, a Física Quântica.  O mundo-máquina herdado da física clássica, de repente se vê transformado em um mundo-continuum. Inviabiliza-se, principalmente: a visão de que a totalidade do real pode ser reduzida à soma das partes que dividimos para observar e medir, a distinção sujeito-objeto, e a certeza – pois a existência não é certa, apenas apresenta uma tendência a existir. A realidade se apresenta muito mais complexa do que aparenta ser, onde não é possível mais explicá-la se utilizando de conceitos clássicos e fica mais difícil ainda visualizá-la, pois estamos acostumados com uma percepção tri-dimensional. O mais interessante é notar que, aparentando ser novidade para a maioria da população, as conclusões da física quântica já eram conhecidas no oriente, originadas de introspecções espirituais desde aproximadamente o século XV a.C. Confira, primeiramente, a afirmação do físico Heisenberg (formulador do princípio da incerteza): “O mundo afigura-se assim como um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes tipos se alternam e se sobrepõe, ou se combinam, determinando, assim, a textura do todo”. E agora a de um místico oriental: “O objeto material torna-se diverso do que aquilo que agora vemos, não um objeto separado, ao fundo ou ao meio ambiente, do restante da natureza mas uma parte indivisível e até mesmo, de um modo sutil, uma unidade de tudo aquilo que vemos”. Temos duas conclusões que dizem a mesma coisa sobre a natureza do universo, uma extraída usando o método racional e outra usando técnicas totalmente não-racionais apoiadas primordialmente na intuição.

            Além da física, a biologia também abandona progressivamente as noções estáticas, substituindo-as pelo conceito de processo. É conhecida de longa data, por parte dos biólogos, a afirmação “O organismo em equilíbrio é um organismo morto”.

            Diante destes fatos, fica evidente a quebra do paradigma clássico. O método científico não é invalidado, mas ele próprio valida outros meios para se extrair conhecimento da realidade (com ‘apenas’ alguns séculos de atraso). Obviamente surge uma nova concepção do mundo em que vivemos. No novo paradigma, a única certeza que temos é a da incerteza. E o conhecimento emergente tende a ser não-dualista, onde temos que abandonar as noções de natureza/cultura, esquerda/direita, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, observador/observado, sujeito/objeto, coletivo/individual, animal/pessoa…

Nesse sentido, por algumas vias, a economia tem participado da tentativa de construção de um novo paradigma. No entanto, esta tarefa não é nem um pouco trivial e diria que incômoda, pois os economistas têm que abandonar a maioria dos instrumentos com os quais estão acostumados – por exemplo, é necessário a introdução de novos tipos de matemática na análise econômica, que não se baseiem na geometria euclidiana, pois essa não pode ser aplicada a espaços curvos; a matemática dos fractais fica como uma alternativa. A Economia Evolucionária, que faz paralelos com a biologia, a Economia Comportamental, ressaltando aspectos inerentes à mente humana, e a Nova Economia Institucional (um dos seus fundadores, Oliver Williamson, dividiu o prêmio Nobel de economia em 2009), a qual internaliza fatores antes tidos como externos ao campo da economia, avançam no sentido exposto pela nova percepção de realidade.

            O avanço na construção de um novo paradigma, para diminuirmos a probabilidade de sermos incongruentes e experimentar (tantas) desilusões, é necessário um interesse maior, da nossa geração, pelo desenvolvimento teórico, superando a fundamentação clássica. O estudo econômico deve ser combinado com a filosofia do conhecimento, onde o estudo das coisas se combina com o estudo do estudo das coisas. Por fim, combinando também a razão, que a universidade nos oferece bem, e a intuição, que cada qual tem que buscar, pela introspecção pessoal, do jeito que preferir.

 

Guilherme B. R. Lambais (Marinho 04)

gbrlambais@gmail.com

 Agradeço os comentários e sugestões de Guilherme Gonçalves (Gui 04) e Gabriel Papaiordanou Elias (Gibi 06).

 Referências Consultadas

 Capra, Fritjof. O Tao da Física. 2ª Edição. São Paulo: Cultrix. 1983.

 Santos, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as Ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Estudos. Avançados [online], vol. 2, n. 2, 1988.

 Referência Adicional

 Robbins, Leonel. An Essay on the Nature and Significance of Economic Science. London: MacMillan. 1932.

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