Jornal do CAECO

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———- Mensagem encaminhada ———-
De: <mctavares@>
Data: 20 de junho de 2011 16:26
Assunto: Apoio
Para: carneirordm@
Cc: mlaplane@
Caro Ricardo Carneiro
Soube de sua candidatura a Diretor do nosso instituto de Economia e estou lhe mandando o meu apoio entusiástico.
Boa campanha e boa sorte.
Com o abraço da amiga
Maria da Conceição Tavares
C/c ao diretor do IE/Unicamp
Prof. Dr. Mariano Francisco Laplane.

É curioso. As três “principais” candidaturas à presidência (Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva) afinam cada vez mais seu discurso, na disputa por um lugar sob os holofotes dos meios de comunicação e nos corações dos representantes políticos e ideólogos do grande capital. Reiteram seu compromisso com os interesses do grande capital, e assim ganham visibilidade, apoio e recursos. Podem apresentar-se em embalagens diferenciadas, ao gosto do freguês, mas o conteúdo é o mesmo. Ou seja, nenhuma dessas candidaturas faz o questionamento dos problemas estruturais e históricos do país – a segregação social e a dependência externa – e só apresentam propostas de intervenções pontuais na “questão social” e de “tudo ou nada” pelo crescimento econômico (mesmo que se tente colar o rótulo ecológico sobre a obsessão com o crescimento, ou melhor, pela acumulação de capital). A esquerda socialista, que a princípio poderia representar o contraponto a esse bloco, fazendo a crítica de uma ordem que privilegia minorias – grandes empresários e banqueiros, e especialmente o capital estrangeiro – e colocando em pauta uma proposta alternativa para o país, entra desarticulada nesta disputa eleitoral. Não foi possível constituir uma Frente de Esquerda.

Essa dificuldade da esquerda brasileira de criar e manter a unidade não é de hoje. É certo que reflete as adversidades do momento atual, mas é de extrema importância levar em conta problemas estruturais que afligem a esquerda revolucionária no Brasil. Entre os fatores mais imediatos, podemos incluir desde o fracasso das experiências do “socialismo real”, que foi propagado como se fosse prova cabal da superioridade do capitalismo, passando pela ofensiva neoliberal e do capital globalizado que desmobilizou e fragilizou a classe trabalhadora no mundo, até a crise atual. O pensamento socialista e a esquerda política saíram muito fragilizados diante desses insucessos. No caso brasileiro, temos no poder um partido originalmente de esquerda que, aproveitando-se politicamente de uma conjuntura ímpar, conseguiu “congelar” as lutas sociais e ocultar os antagonismos de classes, avançando até mesmo na criminalização dos movimentos sociais (basta ver as recentes declarações da presidenciável Dilma Rousseff sobre o MST). Obviamente, nunca é demais lembrar os esforços continuados dos grandes meios de comunicação para excluir completamente do debate eleitoral qualquer contestação à ordem, ou para desqualificar a esquerda.

Quanto aos fatores estruturais, que queremos ressaltar, parece-nos que o fundamental é aquele que está por trás do sectarismo: o dogmatismo. Isso significa que diversos setores da esquerda permanecem agarrados a interpretações fossilizadas, transformadas em verdades absolutas, impedindo tanto o debate quanto a luta conjunta. Falta uma leitura da realidade, da história, enfim, um conhecimento profundo do Brasil em suas particularidades. Não se realiza a transformação social a partir do nada, tampouco é produto da mera vontade de indivíduos esclarecidos, mas deve ser construída a partir das próprias condições encontradas na realidade concreta. Se nossa esquerda ainda sofre dessa deficiência, é de se esperar que prossiga girando em um círculo de decepções e de disputas mesquinhas. Outro elemento (que em parte decorre do anterior) é a imensa dificuldade de dialogar e de penetrar na maioria da população marginalizada. Se a luta política não ganha corpo, se ela não se impregna em toda a extensão do país, não há como por à prova as formulações teóricas e interpretativas que orientam o movimento socialista. Nesse ponto, sente-se a falta de uma mediação, a ausência de uma classe trabalhadora consciente de seus próprios interesses e dotada de organização própria e autônoma – problema típico do subdesenvolvimento, mas que foi aguçado pelo momento histórico adverso de globalização do capital e de ideologia neoliberal. A esquerda paga por seus próprios pecados, mas não só, e talvez nem principalmente. Também paga o preço de viver sob um regime particularmente opressivo, anti-democrático, como é o capitalismo e a dominação burguesa nas condições de subdesenvolvimento, onde historicamente observamos profunda intolerância ao uso construtivo do conflito, ao debate e a quaisquer formas de contestação popular. Esse conjunto de circunstâncias não permite construir, propor e apresentar um programa viável, uma alternativa que aponte a superação dos dilemas brasileiros no interesse do próprio povo.

Infelizmente, é a partir dessas premissas que a esquerda entra na disputa eleitoral em 2010, fragmentada. Ao invés de juntar forças contra o inimigo comum – inimigo de muitas cabeças, mas um só corpo – corre o risco de reincidir em disputas fratricidas que a enfraqueceriam ainda mais. Mas ainda há esperança. A convergência do discurso dos “principais” presidenciáveis em defesa da ordem, a crescente intolerância quanto aos movimentos sociais e o acirramento das contradições do novo padrão de desenvolvimento dependente que vem se afirmando, em contexto de crise mundial, enfim, as lições do processo eleitoral e da luta política que se abre, podem levar a esquerda à condição de dar um salto qualitativo. Essa será condição indispensável para apresentar ao povo brasileiro uma alternativa concreta e radical contra um regime histórico de opressão, e pela qual valha a pena lutar.