Jornal do CAECO

Archive for junho 2012

Grande economia: veredas

 

Tirando aqueles casos de eremitas, psicóticos ou usuários constantes de drogas muito pesadas, para todos os fins, vivemos em sociedade. Sem entrar na discussão dos efeitos que essa sociedade tem sobre nós, ou que a gente tem sobre ela, o fato é que para nós, reles mortais que coabitamos esse Instituto de Economia, toda a dinâmica da nossa vida tem a ver, pelo menos um pouco, com a dinâmica da nossa sociedade. E portanto, quase tudo o que fazemos envolve nos comunicarmos com outras pessoas. Afinal, a comunicação é um elemento básico da vida em sociedade, qualquer que seja ela.

Na nossa sociedade judaico-cristã-ocidental-brasileira-de-ordem-e-progresso-sim-sinhô, no entanto, acontece algo bastante curioso: a comunicação é feita através de uma coisa chamada dinheiro. O dinheiro fala, e parece poder ocupar o lugar de todos os outros tipos de comunicação. Mais do que fala, o dinheiro se escuta. Se eu preciso de um teto ou de um prato de comida ou de um livro, e vou pedir encarecidamente a alguém que me ajude, é muito provável que eu não consiga nada. Mas se eu chego com dinheiro, mesmo que eu não precise, consigo o que quiser. Ou pelo menos é isso que me contam por aí. Não se escutam as necessidades, se escuta a possibilidade de pagar por algo. Nessa história, acontece que ninguém mais tem que saber fazer as coisas, mas sim tem que “saber comprar”, ou seja, saber ganhar dinheiro. E a gente acaba não tendo certeza se aprende ou se compra, se olha no olho ou se paga.

 

É nesse mundo onde a língua universal é o dinheiro que se situa nosso curso de economia¹, bem como toda a universidade. Outras comunicações estão presentes, mas parecem sempre estar em segundo plano, e serem impraticáveis quando não há dinheiro para mantê-las. Mas atenção, é essencial entender que “haver ou não dinheiro para tal coisa” nunca é simplesmente uma questão técnica, mas envolve sempre as prioridades de quem maneja o dinheiro.

Por exemplo, muitas outras pessoas gostariam de ingressar no curso economia da Unicamp esse ano, e têm todo esse direito, assim como nós. Afinal, educação é um direito universal, não um direito exclusivo das 105 pessoas que obtiveram os primeiros lugares na prova da Comvest. Mas por milhares de motivos, muitas dessas pessoas ficaram de fora (e o pior, muitas acreditando que a culpa é exclusivamente sua). E a maioria delas vai continuar de fora, tendo que pagar pra fazer seu curso, ou simplesmente tendo que desistir dessa idéia. Infelizmente, ainda vivemos num país onde a grande maioria dos jovens não freqüenta ensino superior, embora eu não tenha dúvidas de que isso não é uma escolha.

 

“Mas por que isso, caramba?”, eu perguntei uma vez pro reitor, na fila do suco do bandejão. Ele me respondeu a velha história de que “não há dinheiro para mais vagas”. Aí eu fico pensando. Será mesmo? Na Argentina, para entrar na universidade pública gratuita (e muito boa, por sinal), só precisa se inscrever, e você tá dentro². Inclusive muitos brasileiros que não conseguem estudar aqui acabam indo estudar lá, em Buenos Aires, Córdoba, La Plata. Lá, pra entrar na universidade é preciso que você tenha terminado o ensino médio, e só. Não tem vestibular. Quem quer estudar está automaticamente dentro da universidade. E acontece que o PIB da Argentina é menos de um quinto do PIB brasileiro³. Mas acontece também  que lá, a educação universal é uma prioridade.

“E então reitor, como tu me explicas essa doidera?”, eu tornei a perguntar. Mas ele já tinha colocado o fone de ouvido e fingiu que não me ouviu falar.

 

No nosso curso de economia, aprendemos que dinheiro também pode ter outros nomes, e um deles muito usado em microeconomia é “Bem-estar”. Nos ensinam então que quanto mais dinheiro, mais bem-estar, e portanto nossa missão como economistas deve ser maximizar o dinheiro, ou o bem-estar. Ou o quê?

 

NÃO, ISSO NÃO É A ECONOMIA IMPORTANTE.

 

Pelo menos não pra mim (e vocês terão a vida inteira para refletir as suas próprias concepções sobre esse e tantos outros temas).

 

O QUE IMPORTA DE VERDADE, SEMPRE E EM QUALQUER OCASIÃO, SÃO AS PESSOAS.

E disso eu tenho certeza. E é isso que significa uma ciência humana, como é necessariamente o caso de economia.

Se vamos especificamente pensar a materialidade da vida* e como ela se reproduz socialmente (o que inclui coisas como  produto, consumo, oferta, demanda, renda, mercadorias,  ativos e passivos externos líquidos, e tudo o mais que vocês vão cansar de ouvir nas salas do IE), é com um único e exclusivo objetivo: pensar de que forma essa materialidade se relaciona com a vida das pessoas, e de que outras formas elas poderiam se relacionar.

 

 

A palavra “economia” vem do grego, significando originalmente algo como “norma do lar”, o que eu entendo como “reprodução da vida material”.

Acontece que a materialidade é só um dos múltiplos aspectos da vida humana, nosso real objeto de interesse como “cientistas humanos”. Sem dúvida, é um aspecto fundamental, mas que por si só não determina se alguém terá uma vida feliz e digna, uma vida mais completa e menos vazia, e nem mesmo menos sofrida.

É aí que entra a sabedoria dos cientistas humanos sensatos, de enxergar até onde essa tal de economia faz sentido, e entender que na verdade ela só faz sentido se for pensada junto e ao mesmo tempo que os outros aspectos da vida humana. Afinal, não adianta ter comida, casa e roupa pra vestir, se não se está bem emocionalmente, corporalmente, psicologicamente, transcendentalmente até; se não se sabe relacionar consigo mesmo ou com a coletividade de que participamos (alguns vão chamar isso de política).

 

Pra mim, essa compreensão é a busca que esse curso pode te ajudar a fazer. Mas como qualquer curso, ele é absolutamente limitado. É imprescindível estar também fora do instituto de economia. Se esforçar ao máximo para conhecer e conviver com pessoas de outros institutos. Se possível, freqüentar outros institutos, acadêmica e não-academicamente. E estar também fora da universidade. Afinal, ela não faz o menor sentido se não for pensada na sua relação com o “resto” da sociedade, que inclusive é quem a banca.

 

Por fim, é essencial pensar no mundo para além de o que a Economia nos propõe. Pensar num mundo onde nos comuniquemos não pelo dinheiro, mas por nós mesmos, diretamente. Um mundo que precisa ser construído também por nós mesmos, diretamente. Um mundo mais justo, mais sincero, mais bonito.

                Um mundo mais vivo, onde seja claro que o que mais importa são, e sempre foram, as pessoas.

                E construir esse outro mundo vai ser difícil, e vai ser uma luta. Porque apesar de parecer absurdo, muita gente insiste em querer manter o mundo como ele está**.

Mas essa construção não vai começar em outro lugar senão bem aqui, no nosso encontro, em nosso dia-a-dia, e em tantos encontros que acontecem agora mesmo, em toda a cidade de Campinas, em todo o país, em todo o mundo.

Existem infinitas ferramentas para participar dessa construção, e todas elas envolvem a organização de pessoas autônomas com objetivos em comum. O Centro Acadêmico, no nosso caso o CAECO, é uma delas. Os grupos de extensão universitária, outra. Os movimentos sociais, mais uma. Os grupos de estudo, grupos de trabalho, e muitas outras organizações dentro da universidade e fora dela também podem vir a ser ferramentas interessantíssimas. Mas é preciso lembrar que, em qualquer caso, o que se busca é uma ferramenta para determinados objetivos, e não um grupo que tenha um fim em si mesmo. 

 

E sempre, em qualquer hipótese, sem esquecer do fundamental:

O que importa são as pessoas.

 

Sejam todos e todas muito bem-vindos à Unicamp, ao IE, e a todas as coisas pra além disso (que eu realmente recomendo que vocês participem)!

Se você é como eu era ao entrar, e acredita que o difícil era o vestibular, saiba que ele é só mais uma etapa, e que difícil mesmo é pensar no “e agora”.

Você é uma pessoa adulta, com todas as responsabilidades e belezas que isso traz. E com uma infinidade de caminhos pra trilhar à sua escolha.

Humildemente eu recomendo que você siga o caminho que te parecer mais humano, mais sincero e mais coerente, coerente com o que você acredita, e com esse mundo incrível e cheio de problemas que te rodeia.

 

Você, ingressante, está convidado (ou convidada) a lutar pela construção coletiva de um novo mundo.

 

 

 

 

 

¹que apesar de estar cada vez mais próximo do ensino de economia tradicional, ainda é um dos, se não o curso de economia mais crítico desse nosso Brasil

 

²para quem se interessar sobre como nossos hermanos conseguiram uma conquista tão importante, informem-se sobre o manifesto de Córdoba de 1918. Ele inclusive está disponível (em espanhol) no blog do caeco, https://ieunicamp.wordpress.com

 

³Para o ano de 2010, em dólares. O PIB per capita argentino também é menor que o brasileiro. Dados do Banco Mundial.

 

*com “materialidade da vida” quero me referir a tudo o que necessitamos fisicamente para sobreviver, como comida, roupa, transporte, remédios, casa, eventualmente uma massagem no ombro porque ninguém é de ferro, etc

 

** é a tal história de que o dinheiro, e também o medo, falam muito alto na nossa sociedade.

 

OBS: perdão a todxs que consideram importante tentar adequar a linguagem a um universo não machista. Usei a maioria das expressões referindo-me a ingressantes no masculino simplesmente por não saber como fazê-lo de outra forma cabível aqui.

 

 

 

                               Bernardo Heer

estudante do instituto de economia da Unicamp e

apaixonado por aquilo que ele mesmo considera economia.