Jornal do CAECO

Parabéns, Laplane!

Posted on: 21/06/2011

            Há menos de um ano atrás, estudantes do Instituto de Economia mobilizaram-se contra a efetivação de uma delação requisitada pela reitoria ao diretor do Instituto de Economia, Mariano Laplane. A instância máxima de poder dentro da universidade buscava nomes de responsáveis pela realização de uma festa no campus, o “Encontro de Baterias”, que tradicionalmente ocorre no Teatro de Arena.

            A cruzada contra as festas caminhava a passos largos. O IFCHSTOCK, maior festa realizada no campus, foi definitivamente proibido no mesmo período. A Polícia Militar ordenou a retirada de todo o material que estava armazenado dentro das dependências do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Não mandou recado. Fez isso presencialmente, e durante uma tarde o que se viu foram dezenas de estudantes carregando milhares de cervejas para fora da Unicamp. Aquela cena marcou, para aqueles que viveram outros tempos, o fim de um projeto de integração dos estudantes entre si e da universidade com o entorno. Um projeto construído, com todas suas contradições, deficiências e limites, pelo movimento estudantil, por jovens que viam a Festa como oportunidade política, para além da retórica dos partidos, dos movimentos, do hoje tão repugnante “esquerdismo”.

            Por esse motivo, o IFCHSTOCK ficou conhecido como a MANIfesta. O fato de ocorrer no espaço público, e ser concebido por aqueles que valorizam este espaço (não em termos contábeis, ou estratégicos, mas em termos de formação cívica, moral, da gestação do respeito e da tolerância frente ao diferente), fazia com que nestas festas fosse fortemente desestimulada qualquer atitude opressiva, seja em relação às mulheres, aos homossexuais, aos gordos e gordas, feias e feios, negros, índios, pardos, pobres etc. Essa concepção de encontro no espaço público reverberava de certa forma para todas as outras festas realizadas na Unicamp. Nesse contexto, muitos mudaram suas concepções. Muitos conheceram pessoas diferentes de si e as entenderam. Beberam cervejas juntos, conversaram juntos, embora isso parecesse impossível caso o isolamento do privado nunca tivesse sido rompido. Não descrevo aqui um conto de fadas, só quero deixar claro que essa era uma oportunidade aberta aos universitários: rever, a partir da utilização do espaço público, suas concepções de classe, seus preconceitos, suas ideologias, a dimensão de sua visão de mundo. Do ponto de vista acadêmico, essas atividades sempre concentraram um gigantesco potencial de fazer valer a universidade como universidade, e não como coleção de especificidades.

            A convivência com as celebrações privadas sempre ocorreu. No caso do IE, elas são majoritariamente representadas pelos jogos universitários, com todas as suas contradições e limites. Nestes eventos, as preocupações com o caráter coletivo e público sempre foram muito pouco respaldadas, embora possamos sim encontrá-las nas atitudes de determinados participantes. Entretanto, são poucos. A maior fonte de diversão são as diversas esferas de concorrência e competição (a melhor equipe, a melhor torcida, o mais bêbado, o mais “causador”, o mais pegador…) e geralmente isso leva a reforçar padrões grotescos de sociabilidade e incitar a reprodução dos signos de “superioridade” tão fortes em nossa sociedade (o machismo, a homofobia, a humilhação, a segregação, o preconceito).

            Há dois dias duas estudantes denunciaram essa faceta dos jogos universitários e das festas. Expuseram provas concretas de como se manifestam entre os estudantes e trouxeram outros casos de igual relevância (o “rodeio das gordas”) para questionar: qual o limite de nossa tolerância? Até que ponto admitiremos sem problematizar, sem se incomodar? Até que ponto a conivência não é uma forma de responsabilidade? São essas perguntas que eu gostaria de ver respondidas não só pelos estudantes, mas pelo diretor do Instituto e por outros que sempre consideraram um absurdo a universidade acolher festas, manifestações culturais, acolher as diferenças.

            O que as eleições do CAECO tem a ver com isso? Tudo. A frieza que o ambiente universitário impõe, em suas relações para dentro e para a fora, faz crescer o discurso de que a integração deve ser atomizada. Deve ser uma “integração separatista”, uma integração para dentro (fascimo). Estar próximo a outros estudantes, a outros setores da sociedade, não é integração, é divórcio da sua função bem definida na burocracia acadêmica. As novas gerações de estudantes, na ausência de um outro testemunho do que seja integrar, devem estar atentas a essas concepções fracas e vazias de conteúdo e construir, na medida em que acumularem forças, novos significados para esses termos. Boicotar jogos e festas poderá ser uma consequência, mas deve ser uma consequência refletida, consciente, crítica e não apenas rebelde. Vivi isso quando busquei “sair” do IE em busca de ar fresco, de liberdade, de afetividade, de amor. E vi que dava tempo de apostar em outros valores, se despojar das bestialidades que estão por aí. Sempre há tempo para o verdadeiro diálogo (o diálogo que é feito com amor, carinho e esperança, não o diálogo defensivo que o preconceito clama para se justificar).

            Por fim, devemos ter em mente o aspecto estrutural de todo esse processo e questionar a concepção das instâncias de poder do que é público e o que é privado. Os estudantes que tanto prezam pela diversão e integração dos alunos do IE estão, por linhas tortas, selando um pacto de mediocridade com as instâncias de poder onde são eles mesmos que perdem, ao não explicitar os problemas crônicos de que padece a Universidade e que tem relação direta com a nossa saúde física e psicológica neste lugar.  Neste contexto, a solução é fazer uma festa aqui, outra acolá. Que me perdoem arautos da masculinidade, mas essa verdadeira pagação de pau para a universidade e para o sistema como um todo é das coisas mais broxantes que podem existir.

 Em apoio a Daphnae e Flávia,

 Taufic 06

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