Jornal do CAECO

Não foram subjugadas.

Posted on: 21/06/2011

Hay hombres (e mulheres) que viven contentos aunque vivan sin decoro. Hay otros que padecen como en agonía cuando ven que los hombres (e mulheres) viven sin decoro a su alrededor. En el mundo ha de haber cierta cantidad de decoro, así como ha de haber cierta cantidad de luz. Cuando hay muchos hombres (e mulheres) sin decoro, hay siempre otros que tienen en sí el decoro de muchos hombres (e mulheres). Esos son los que se rebelan con fuerza terrible contra los que les roban a los pueblos su libertad, que es robarles a los hombres (e mulheres) su decoro. En esos hombres (e mulheres) van miles de hombres (e mulheres), va un pueblo entero, va la dignidad humana. Esos hombres (e mulheres) son sagrados.

Martí 

Dentre as diversas formas de ser sórdido, uma das mais esquivas é pelo uso da anedota, porque ela agride e desautoriza os ofendidos a reagir contra ela.

Duas estudantes do IE e militantes do coletivo feminista Pão e Rosas publicaram um artigo no Jornal do CAECO (ieunicamp.wordpress.com) no qual elas primeiro afirmam a existência de uma ideologia de violência contra mulher na sociedade e, posteriormente, apontam como a mesma coisa se verifica no ambiente universitário específico do Instituto de Economia da UNICAMP: contra alunas e contra funcionárias.

O ponto herético foi criticar o jogo universitário, o evento religioso mais importante no calendário da Atlética. A prática esportiva, nunca deixa de ser, também, uma prática lúdica e cultural. E as dimensões culturais possíveis passam por várias possibilidades construtivas ou não. Nossa intocável entidade reproduz – embora não precisasse – uma espécie de High School Musical do ensino superior.

A crítica feita por elas é a forma como a premissa do esporte é apropriada para reproduzir uma cultura de coisificação e violência contra a mulher entre os estudantes. E a excelente denúncia do machismo é forte, porque ela é notada no seio da insuspeita elite rica, branca, educada, cristã, é dirigida aos seus filhotes irrepreensíveis.

No imaginário machista circulam dois estereótipos categóricos e definitivos sobre a condição da mulher: submissa ou desvairada. A mulher que não se coloca na sua posição de adequação ao homem é a mulher louca que transtorna as relações e o seu lugar social.

A reação ao artigo foi brutal, ferocíssima, infame. No mesmo espaço se registraram inúmeras respostas – a maioria anônimas, outras não – com apologia explícita e chocante da violência contra mulher em geral e contra as duas em específico.

Na noite do dia 20/06 o coletivo Pão e Rosas da qual fazem parte, organizou um ato de exposição – prática recorrente da luta desses grupos – da violência que foi dirigida como resposta ao texto. Houve, por um lado, difusão pública da resposta nominal mais emblemática, registrada no espaço de comentários do Jornal, feita por Renato César Martins Pinto, estudante do curso noturno: “Uma mulher que não sabe diferenciar um hino universitário de estupro, espancamento ou qualquer outra forma de violência realmente merece ser subjulgada.” (sic). (Que fique claro, existem inúmeras outras respostas tão ou mais graves registradas anonimamente ou não no mesmo espaço).

Por outro, houve a coleta de assinaturas para uma nota pública de repúdio ao machismo na universidade, acompanhada da uma discussão conduzida pelo grupo para problematizar a questão, principalmente, entre as mulheres do curso.

Dessa vez a reação foi algo mais que brutal, ferocíssima e infame porque foi temperada com a reação das duas chapas em disputa pelo Centro Acadêmico do Instituto.

A chapa composta por ex-membros da Atlética, uma chapa situacionista porque não propõe o enfrentamento de nenhuma das várias questões críticas que permeiam a universidade, partiu em defesa da vítima: o estudante Renato. Isso mesmo. O estudante que estava sendo constrangido e se tornou um mártir do sacro-direito de subjulgar (sic) uma mulher.

Os advogados de defesa argumentaram por dois lados. Primeiro, ele tem o direito de manifestar suas convicções. Segundo, as agressoras, desvairadas, estavam criando um verdadeiro escândalo com base em exagero e manipulação de agentes subversivos soviéticos estudantes do IFCH. De fato, existem estudantes do IFCH no coletivo Pão e Rosas, o que especialmente causa ojeriza nos estudantes do IE, mas também há estudantes de outras faculdades. Todos eles estavam presentes enquanto parte do coletivo.

Bem, há quem diga que a movimentação toda consistiu num golpe eleitoreiro. Não foi. Antes tivesse sido. Explico.

A posição da outra chapa foi explicitamente: a) não intervir, porque não era um problema especificamente dela, apesar de possuir uma pauta contra opressões em sua carta-programa, tratar-se de colegas e alunas de/em seu Instituto; b) não intervir para não ter sua credibilidade de maneira nenhuma associada ao ato das estudantes, à presença de estudantes do IFCH no IE ou atritos com a sacra-atlética.

Por sorte, os oprimidos não precisam da sensibilidade de terceiros para expressar indignação contra seus opressores. Qualquer cultura é difícil de mudar, principalmente uma cultura opressiva. Mas se é possível, a mudança certamente passa por uma reação à violência, por uma exposição dos agressores e pela expressão legítima da indignação das pessoas ameaçadas.

Mas o que se vê, contudo, é uma reação oportunista de isolamento das estudantes. Acontece, por um lado, pela relativização da agressão e, por outro, pela acusação de desvario. O problema do machismo volta a pairar nas nuvens, quase sem nos tocar, e o caso se reduz a meia dúzia de linhas infelizes contra duas pessoas em particular.

O absurdo dessa situação reflete uma deterioração humana sem tamanho. Uma cultura de opressão que brutaliza mulheres, negros, homossexuais não deve jamais ser naturalizada, relativizada, consentida e muito menos ignorada. Sim, haverá barulho, sim, haverá desconforto, sim, haverão rostos desconhecidos e sim, haverá denúncia pública e irrestrita.

Quero declarar minha total solidariedade e respeito a todas as mulheres que se sentiram ofendidas, principalmente à Flávia, à Daphnae e ao senso de dignidade que carregam. Foram agredidas, sofreram esse assédio moral explicitamente por serem mulheres, mas não foram subjugadas por ninguém, em hipótese alguma, sob quaisquer custos.

 Daniel – Fantasma Jedi

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3 Respostas to "Não foram subjugadas."

Ótimo texto, Daniel.

abs

Faço minhas, suas palavras Daniel, muito bom …
Leandro RP.

Vc é muito virgem mesmo né…

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