Jornal do CAECO

Por uma educação libertadora na forma e no conteúdo: uma homenagem a Paulo Freire

Posted on: 13/06/2011

Em tempos de hegemonia das teorias do “capital humano”, onde a educação é vista apenas pela ótica quantitativista (numero de alunos por sala, índice de aprovação, numero de artigos publicados e etc) os aspectos qualitativos do processo socioeducativo vão se esvaindo, e a educação em si mesmo vai se tornando uma grande indústria de produção e reprodução em série de conhecimentos desconexos que deixam de refletir (direta e indiretamente) os problemas apresentados pela realidade. Assim, as discussões programáticas passam girar em torno apenas daquilo que se ensina e não como e de que forma se ensina.

O maior educador do Brasil, Paulo Freire, em vida, foi um dos que mais discutiu estas questões. Consciente das relações de dominação e opressão em nossa sociedade, Paulo Freire, propunha uma educação que não reproduzisse tais relações, e sim a superasse, constituindo uma verdadeira educação libertadora, catalizadora de uma ação e reflexão, que possibilitasse “armar” os oprimidos no seu próprio processo de emancipação.

É neste movimento que ele vai criticar a educação “bancária”, a educação narrativa, unidirecional, que “enche” os alunos (fragmentos da realidade) de conteúdos desconexos (como arquivos segmentados) e vazios de elementos concretos. A ênfase no “o mundo é” teria como pressuposto uma realidade imutável, cujo saber em si, por sua vez, seria antes uma doação, já que supõe um ser que sabe e um ser que não sabe. Há por de trás desta análise uma absolutização da ignorância, que o educador aliena ao educando. Como consequência, este tipo de educação pressupõe a existência de apenas um sujeito (educador) e de um objeto (educandos), onde a realidade é posta como algo petrificada, parada e bem comportada, faltando uma visão de totalidade do mundo, cuja absorção dos conteúdos passa a se dar por meio de memorizações mecânicas. Os educandos se tornam vasilhas ou gavetas onde conhecimentos externos são depositados ou arquivados. Obviamente, para o mesmo autor, este tipo de educação serviria antes aos opressores do que aos oprimidos, visto que o educando é impedido de ser sujeito, ao anular seu poder criador. Assim, os oprimidos não conseguiriam seguir sua vocação histórica de ser mais.

É nestes marcos, portanto, que o Paulo Freire vai abordar a necessidade de se construir uma outra educação, uma educação problematizadora, partindo de outras premissas e princípios. Esta “nova” educação partiria da visão dos homens como corpos conscientes, cuja mesma é intencionada ao mundo e, portanto, não existe consciência separada do homem e nem separada do mundo. Logo, o saber não é algo alheio à realidade e a outros homens, mas antes é fruto da interação entre homens e o mesmo com o mundo. O conhecimento é coletivo, e portanto “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre sí, em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Assim, a educação se dá, não na transferência, mas no diálogo, ondo a problematização do objeto do conhecimento (qualquer que seja) será a grande mediatizadora dos sujeitos cognoscentes (educador e educando). Ao contrário da educação bancária, na qual o objeto passível de conhecimento é o fim do ato cognoscente do sujeito, na educação problematizadora o objeto cognoscível é o meio para entrar nos sujeitos cognoscíveis. Ou seja, a reflexão sobre a realidade, sobre o mundo, deve voltar-se para a reflexão sobre si já que não existe separação entre sujeito e objeto (entre o homem e o mundo). Na medida em que vamos conhecendo o mundo (objeto), vamos aumentando o conhecimento sobre nós mesmos e sobre os outros (sujeitos). Esta educação responderia, nestes marcos, à consciência da consciência: conhecer a si não é nada mais do que conhecer a sua história, o seu posicionamento no mundo.

Consequentemente, o educador ao perceber a complexidade do mundo e que o mesmo está em constante mutação, está em constante aprendizado, não alienando sua ignorância. O educador se torna um educador-educando. Ademais, a incidência da reflexão da realidade entre os educadores e os educandos através do diálogo permite ao educador-educando refazer constantemente o seu conhecimento por meio do próprio conhecimento do educando. Logo, o educando passa a ser um educando-educador.

Nesta nova relação os educandos (agora educandos-educadores) são chamados a conhecer, e não a memorizar; a imersão da consciência na realidade tem como resultado uma emersão critica da realidade; a própria problematização da realidade leva aos agentes deste processo a integrarem as partes do conhecimento (por meio das suas interconexões) de modo a formar uma visão de totalidade da realidade. A imersão e a reflexão crítica dos problemas faz com que o conhecimento supere o nível da “doxa” (ingenuidade, senso comum), e siga o nível do “logos” (“razão”).

Esta seria, assim, uma educação como pratica libertadora, já que veria os homens como seres históricos, inconclusos, conscientes da sua historicidade e inconclusão, na busca de ser mais. A educação passa a ser um “quefazer” permanente, já que o mundo não é, está sendo!

“Esta busca do ser mais, porém, não pode realizar-se no isolamento, no individualismo, mas na comunhão, na solidariedade dos existires, daí que seja impossível dar-se nas relações antagônicas entre opressores e oprimidos. Ninguém pode ser, autenticamente, proibindo que os outros sejam, esta é uma exigência radical. O ser mais que se busque no individualismo conduz ao ter mais egoísta, forma de ser menos. De desumanização. Não que não seja fundamental – repitamos – ter para ser. Precisamente porque é, não pode o ter de alguns converter-se na obstaculização ao ter dos demais, robustecendo o poder dos primeiros, com o qual esmagam os segundos, na sua escassez de poder”. (Paulo Freire)

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1 Response to "Por uma educação libertadora na forma e no conteúdo: uma homenagem a Paulo Freire"

Ótima síntese de Pedagogia do Oprimido! Parabéns!!
Sempre inspirador..

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