Jornal do CAECO

Fila

Posted on: 13/06/2011

Desde criança ouço que fila é coisa de comunista. Que na antiga URSS, para se obter bens básicos, como sabão, as filas eram quilométricas. Já ouvi uma história (ou uma piada) – se não me engano de um amigo dos meus pais que viveu na União Soviética –, dessas do estilo de português, de dois sujeitos que esperavam o ônibus pela manhã sentados no ponto e pegaram no sono, adormecendo um no ombro do outro. Quando acordaram, se depararam com uma dúzia de pessoas que formavam uma fila a partir deles e os olhavam com cara de curiosidade querendo saber o que os dois esperavam, que também estavam interessados em receber…

A fila é uma coisa interessante. Tudo tem fila. Dizem que é errado cortar. Dizem que todo mundo corta, então vamo que vamo. Dizem que essa história de cortar ou não vem “de casa”, da educação. Dizem que fila faz parte da vida, que paciência é uma virtude. Dizem que fila organiza a vida, dizem que desorganiza. Tem fila para a fila, às vezes fila para a senha da fila da senha. Já ouvi até que namoro é que nem fila – cada minuto que você espera é um a menos que você terá de esperar para conseguir o que quer… E muito mais blá blá blá.

Coisas assim que tenho ouvido por aí. Mas, como sou economista – ou quase um –, fila é economia. É simples. Do jeito que vejo, a economia tem três perspectivas (num grosso modo desgraçado): a de livre mercado, a do intervencionismo e, digamos, a da negação do capitalismo como modo de organização da sociedade, o famoso Marxismo. O primeiro ‘prega’ que o melhor para o bem estar coletivo é a livre iniciativa desimpedida, para que a busca individual nos leve para o aumento da riqueza coletiva, se elevem o agregado das trocas, os preços relativos se equilibrem, etc, e o mundo seja feliz para sempre. A segunda defende que o bicho é do mal, então temos que o colocar numa coleira, ou seja, o capitalismo é uma besta amoral que, se for dar lucro, vende até a alma das pessoas para o diabo, portanto precisa ser controlado, moralizando-o, norteando-o, para que a humanidade consiga usufruir de seu lado construtivo. O terceiro, no seu esforço interpretativo, argumenta que é impossível por coleira no bicho, que é patológico e ponto final; em suma, que neste sistema quando se puxa em cima se descobrem os pés, portanto já “cumpriu seu papel histórico” e está na hora de irmos desta para uma melhor.

E a fila, onde entra? A associação é direta. Se não houvesse fila, isto é, se a liberdade individual fosse, em alguma medida, soberana a uma convenção pública ou, em outras palavras, se a livre iniciativa é exercida sem nenhuma regulamentação, teríamos pessoas caoticamente formando um “bolo” em vez de fila, onde os mais fortes teriam vantagens sobre os fracos – basicamente, é a lei da selva. Por outro lado, se há fila, então temos uma ação intervencionista, de coordenação da anarquia, de planejamento, de organização. Entretanto, por que há fila? É necessária? É justa? Não estaríamos na hora de superar a fila? Dá para exigir que as pessoas tomem a fila? Acho que essa seria a conduta da terceira “vertente” de pensamento, a do marxismo.

Não sei se posso conceituar assim, mas, basicamente, é isso. E fila é isso, é conduta pela perspectiva econômica – que não deixa de ser uma ciência social, por mais que me provem o contrário. A existência da fila e a atitude de entrar na fila é isso, é economia. E economia é a fila. Assim, quando entrar calado numa fila pense que está defendendo um ideal intervencionista da livre iniciativa ou, por outro lado, quando achar que sua liberdade está acima das determinações sociais e furar a fila, você está defendendo a livre iniciativa acima da conduta coletiva socialmente convencionada. Agora, se um dia tremer de indignação perante uma fila neste mundo, então seremos companheiros…

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1 Response to "Fila"

Franco 07D assina este texto.

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