Jornal do CAECO

ESPAÇO E DEMOCRACIA: QUAIS AS VIAS DE TRANSFORMAÇÃO?

Posted on: 13/06/2011

Por muito tempo a Democracia foi ovacionada como forma de regime inerente a qualquer processo de desenvolvimento capitalista econômico e social. As ideologias nela embutidas – liberdade, individualidade, representatividade, etc. – são consideradas essenciais à vida político-social contemporânea. Entretanto, diversos acontecimentos recentes têm trazido à tona o questionamento de se, de fato, a Democracia vem cumprindo seu papel. A gigante mobilização de jovens na Espanha, a qual vem se espalhando por toda a Europa Ocidental, evidencia isso: ali não se reconhece mais no regime democrático, como ele é hoje, uma via de mudança, melhoramento. Não obstante, a Primavera Árabe mostra a outra face dessa questão: as ideologias nas quais a democracia deveria se basear são almejadas, mas até que ponto na prática a Democracia já não se esvaziou delas e se tornou apenas mais um artefato do status quo?

Tanto em nosso curso de Economia quanto em debates paralelos realizados pelos próprios estudantes,as interpretações mais coerentes para cenários conflitantes como este parecem ser as totalizantes: parte-se da apresentação das relações causais sistêmicasdos dilemas sociais, tal qual a apropriação de conceitos marxistas, com os quaisse defende que a hegemonia do capital por meio de relações de poder desiguais aprisiona a lógica de funcionamento de todas as esferas da sociedade. Mesmo o tão aclamado Estado Democrático de Direito estaria submetido ao capital, tendo sua funcionalidade original (“governar para todos”) distorcida (“governar para poucos”). Dentro dessa ótica, percebemos como é impossívelcompreender as relações locais, e mesmo globais, sem antes entendermos os fatores estruturais do sistema capitalista.

Apesar de essa ser uma leitura de mundo extremamente coerente e bem formulada, indispensável para a formação crítica de qualquer indivíduo, sinto que há nela um grande defeito no que diz respeito às possibilidades de solução e intervenção diretanos problemas político-sociais tão latentes na sociedade contemporânea – ainda que convençamos o mundo inteiro de que os dilemas capitalista-democráticos são fruto do próprio sistema, se não demonstrarmos qual o papel do cidadão dentro da superação desses dilemas, poderemos estar simplesmente alimentando no consciente das pessoas a ideia de que “não tem jeito”, “o sistema é assim e não há como muda-lo”. Daí, um discurso o qual em princípio tem o intuito de estimular a transformação, pode fazer o papel inverso, reafirmando o ideário fatalista. Por isso, considero de fundamental importância que tanto a Academia quanto os próprios estudantes parem de negligenciar um assunto tão importante, passando a discutir não só sobre quais as causas, mas também quais as possibilidades concretas de transformaçãoviaação individual earticulação coletiva, das quais são exemplos as mobilizações descritas no início. Do contrário, nunca sairemos do âmbito das abstrações e nossos debates continuarão esvaziados de sentido.

Para tanto, um primeiro passo me parece ser entender como nos articulamos no espaço, ou seja, qual o nível de alcance de nossas açõesdentro da localidade imediata. Em palavras mais simples: dentro do nosso cotidiano (faculdade, trabalho, casa, etc.) o que pode ser feito? E devo ressaltar que não estou tentando, tal qual fazem diversas teorias de cunho ortodoxo, atribuir aos indivíduos a responsabilidade total do alcance do “bem-estar geral”, mas antes, ressaltando que nenhuma transformação nasce do vento, sem que antes os próprios indivíduos venham a busca-la. Se quisermos uma Democracia verdadeiramente democrática (perdão pela redundância, mas se sou redundante é só porque deixamos que a palavra se esvaziasse de seu próprio significado…) e um país mais justo é necessário que a sociedade reaprenda seu papel dentro de tal regime; e tal papel jamais pode ser o de espectador, o de agente passivo.

Nesse sentido, no que tange à articulação no espaço em prol de transformações para uma sociedade melhor, acredito que as ações individuais têm importância fundamental: a não ser que as pessoas, dentro de seus locais de vivência particular, reavaliem seu modo de vida (repensando se vale a pena ter valores como o individualismo exagerado, o consumismo desenfreado, a passividade política, entre outros que muitos não admitem carregar, mas carregam, como machismo, homofobia ou outros preconceitos em geral) a sociedade não poderá evoluir pelas vias democráticas, pois permanecerá a Democracia enquanto aglomerado de gente com interesses social, ambiental e politicamente destrutivos. Pode soar um tanto quanto ingênuo dizer que o desenvolvimento por vias democráticas depende da mudança de mentalidade e também, em certa medida, de altruísmo; mas insisto na ideia, porque me parece contraditório a possível existência de um cidadão que ao mesmo tempo em que luta por uma sociedade melhor, tem hábitos completamente opostos ao que almeja.

Entretanto, apesar de considerar a ação individual importante, acredito que é a mobilização coletiva a maior ferramenta para seprezar pelos princípios do regime democrático – e, porém, a mais negligenciada. Daí a importância de esclarecer o que entendo por mobilização coletiva, pois a alienação de todos nós em relação aos espaços nos quais poderíamos intervir é tão grande, que o termo “mobilização coletiva” logo é considerado distorcidamente por muitos como ‘coisa de esquerdinha’ ou até ‘delinquência’. Por articulação coletiva quero dizer qualquer manifestação política, ou expressão artística, ou produção de textos, ou qualquer coisa externa ao indivíduo e sua própria bolha, feita em conjunto com outras pessoas.Trata-se não só de ter a capacidade de romper com a ‘naturalidade’ de uma vida enraizada num individualismo exacerbado no qual somos todos estranhos uns aos outros, como também de gerar qualquer contraponto (estético, de discurso, de qualquer formato!) dentro da rotina incessante na qual estamos imersos.

A Democracia está longe de ser a solução para as contradições capitalistas – e talvez em grande medida seja por vezes usada para reproduzi-las… -, contudo, quando a articulação social é capaz de ocupar os espaços de expressão que por princípio devem existir nesta forma de governo, podemos dar um pequeno passo em direção a princípios tão importantes quantoa própria liberdade: equidade, justiça, respeito aos Direitos Humanos. Por isso, gostaria de dirigir este texto não àqueles que o leram e agora estão de perguntando “E eu com isso?”, mas àqueles que, ainda que discordem de absolutamente tudo o que eu disse, queiram pensar um país melhor, uma Democracia melhor. Se discordam de mim: escrevam, se expressem. Se concordam comigo: escrevam, se expressem. Precisamos reocupar os espaços reservados para nós, sociedade, dentro disto tudo. Precisamos, tal como dizia Paulo Freire, abandonar essa estúpida mentalidade da passividade, do ‘ser menos’ e substituí-la pela do ‘ser mais’, do ser agente transformador.

Jéssica (Pocahontas) 09

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1 Response to "ESPAÇO E DEMOCRACIA: QUAIS AS VIAS DE TRANSFORMAÇÃO?"

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