Jornal do CAECO

Pelo que lutamos?

Posted on: 25/05/2011

Se há algo de que os estudantes do Instituto de Economia não podem reclamar, é da falta de controvérsias. Ultimamente, elas têm sido abundantes. Apenas para ficar nos casos mais evidentes, basta lembrar as recentes negativas por parte da Direção do Instituto a pedidos de uso do auditório ou de salas de aula para a realização de atividades organizadas por estudantes do IE, o eterno debate em torno aos critérios da CAPES, a restrição por meio de trava eletrônica ao acesso ao SPD da Pós, a reforma da grade curricular dos programas de pós-graduação, ou o mais emblemático de todos os casos, a greve de 2010. Já faz algum tempo que temos visto manifestações de insatisfação dos estudantes, de modo recorrente e chegando ao ápice na referida greve. O que estaria alimentando essa inquietação, essa efervescência? Parece que os termos das polêmicas sempre se pautam pelo que deva ser a Universidade Pública, bem como pelos seus rumos, qualquer que seja a posição que se tenha a respeito. Parece conveniente uma tentativa de exploração do assunto a partir desse ponto, que obviamente é de importância crucial para o movimento estudantil.

A Universidade não é uma entidade à parte da sociedade. É, antes de tudo, parte integrante de determinada sociedade, respondendo às necessidades colocadas pela mesma. Acontece que a sociedade é constituída por forças heterogêneas, com interesses divergentes em disputa. Entram nesse ponto as relações de poder. Determinadas forças, determinados interesses no seio de uma sociedade, conseguem prevalecer sobre os demais. A Universidade é moldada pelo conjunto de forças sociais dominantes do momento. Qual a implicação disso? Isso significa que a luta por uma nova universidade, por um projeto de Universidade Pública, transcende o seu próprio espaço, está para além de seus muros (ou cercas). A construção de uma Universidade de caráter realmente público não pode ser produto de nenhuma mente iluminada, devendo ser aquela que responda a interesses e necessidades concretos da maioria da população, aquela que esteja de fato a serviço da maioria – que hoje não tem acesso à mesma e está totalmente alheia aos critérios e decisões que regem ensino, pesquisa e extensão – ainda que seja quem pague a conta. Nesse sentido, a Universidade Pública só pode ser produto de uma vontade coletiva e de forças transformadoras que se proponham reconstruir o edifício social de cima a baixo. Em suma, o problema da Universidade Pública não será resolvido, no fundamental, a partir de dentro, mas somente com a transformação da própria sociedade.

Isso significa que as lutas pela Universidade Pública e, em particular, o movimento estudantil, sejam em vão? Longe disso. O movimento estudantil, como qualquer luta social, é fundamental. E o será tanto mais se tiver clareza de que sua luta não pode ser encarada de forma separada do conjunto das lutas políticas que atravessam a estrutura social, devendo articular-se com as mesmas em seus princípios mais elementares. Não será o movimento estudantil a definir o que deva ser a Universidade Pública, mas sim os próprios dilemas que a realidade coloca e as forças sociais transformadoras que se proponham a dar-lhes solução positiva. Ainda assim, insistimos, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, cabe ao movimento estudantil um papel radical, necessário para ajudar no parto de uma Universidade para e a serviço da maioria. Pois há um fundamento imprescindível à concretização de tal projeto, e que se coloca atualmente como contradição das mais gritantes na Universidade: a luta pela democracia.

A luta pela democracia deve ser o eixo da luta do movimento estudantil (não a democracia formal, mas aquela que tem como fundamento a igualdade). Pois, primeiro, tal é o denominador comum de todas as lutas sociais, que pode dar a articulação entre movimentos; segundo, é base para afirmar-se o caráter público da Universidade. Se postas nesses termos, as batalhas do movimento estudantil colocarão à mostra as contradições que atravessam de cima a baixo a Universidade hoje existente, o projeto e as forças sociais que lhe são subjacentes. Há de se travar uma luta pela democratização do acesso, pela democratização dos processos políticos e de decisão dentro da Universidade, pela democratização do espaço e do debate, pela construção e proliferação de espaços de debate que transcendam a problemática posta pelos programas dos cursos.

Nesse ponto, voltamos aos nossos problemas concretos. Tudo indica que o que está na base dos conflitos e controvérsias que temos visto recentemente no nosso Instituto (e também na Universidade como um todo) é a exclusão dos estudantes das decisões que lhes afetam direta ou indiretamente, é o modo arbitrário e nada transparente como se chegam a tais decisões, é o espaço circunscrito para o debate, são as reações desproporcionais de força a demandas elementares etc. É natural, portanto, que, para aqueles que se colocam o problema, haja profunda insatisfação e sentimento de revolta. É assim que o movimento estudantil precisa colocar-se com precisão seu objetivo, para que a luta, e as formas de luta a cada novo momento e novo fato ao qual deva responder, não redunde em desperdício de forças, e que possa dar sua contribuição no lançamento das bases de uma Universidade Pública, no mais profundo sentido do termo.

João Paulo Camargo – DTE

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