Jornal do CAECO

O trauma do renascimento neoclássico

Posted on: 19/05/2011

 “It is a vulgar fallacy to suppose that scientific inquiry cannot be fundamental if it threatens to become useful, or if it arises in response to problems posed by the everyday world. The real world, in fact, is perhaps the most fertile of all sources of good research questions calling for basic scientific inquiry.” Simon, 1979.

             A oposição atual da ciência econômica em uma espécie de quantitativismo (abstrato/positivo) vs. qualitativismo (crítico/normativo) pode não ser tão profunda assim como alguns/algumas argumentam. O meu argumento é que essa aparente cisão metodológica advém da radicalização na teorização econômica neoclássica, o que fez com o diálogo pluralista fosse encerrado, e não de uma incompatibilidade intrínseca.

            Após a espetacular queda da teoria neoclássica no final dos anos 20, o “renascimento” não tardou e começou já no final da II Guerra Mundial. Apesar dos “anos de ouro” do capitalismo ter coincidido com a predominância de um “keynesianismo bastardo” nas políticas econômicas, na academia a situação era outra. Com o avanço da economia matemática e consequentemente do equilíbrio geral, teoria estatística da decisão, teoria dos jogos e expectativas racionais, este mix se tornou fortemente imperativo a partir dos anos 70.

            No entanto, o que quero chamar atenção é que até o frenesi utópico dos anos 80, da busca da integração micro-macro e o graal da previsão, a ciência econômica não era uma pronunciada escolha de clubes. Para ilustrar a existência de diálogo mesmo entre a extrema ortodoxia darei dois exemplos: Kenneth Arrow e John Muth.

            Kenneth Arrow juntamente com Gerard Debreu formalizaram o equilíbrio geral walrasiano[i], contudo, Arrow não deixava de lado trabalhos de proposição normativa. Seus trabalhos de maior repercussão talvez foram um sobre bem-estar e alocação de recursos para invenção[ii] e um sobre aprendizado[iii]. “A contribuição [destes dois trabalhos] é fundamental por localizar a atividade inventiva no contexto das decisões econômicas, envolvendo formas organizacionais, financiamento da atividade de inovação e suas implicações para a análise do bem-estar”, atenta o prof. José Maria[iv].

            Já Herbert Simon (proponente da racionalidade-limitada) classifica[v] o surgimento da teoria das expectativas racionais como uma ironia histórica, pois foi derivada de um trabalho conjunto dele com John Muth, Charles Holt e Franco Modigliani[vi]. Este trabalho, de cunho normativo, tinha como objetivo entender melhor como os gerentes tomam decisões frente à incerteza e flutuações de demanda, visando maior estabilidade da produção e do emprego. Sendo que a partir de apenas um dos casos específicos, Muth generalizou para padronizar o comportamento humano e escreveu um artigo[vii].

            O problema então é quando as correntes de pensamento perdem o diálogo, isolam-se e subjugam-se. Em todo conflito há um perdedor, independentemente de quem começa. Posteriormente com a radicalização – que também envolveu a esfera política – enquanto a macroeconomia do equilíbrio geral com microfundamentação das expectativas racionais “levou a melhor”, as outras correntes viram seus orçamentos de pesquisa serem cortados, seus conselhos renegados e suas proposições políticas taxadas de não-científicas.

            Hoje em dia temos o pior dos mundos, crise econômica e social global e crise na academia. Tem-se uma ciência traumatizada; grosseiramente, de um lado a arrogante decepção do método, de outro um certo ar de vingança e a recusa de incorporar qualquer coisa que remeta primeiramente aos neoclássicos e mais fortemente aos métodos quantitativos. Neste caso, vale a pena relembrar o ditado, “tudo será em vão se jogarmos fora o bebê com a água da banheira”.

 Guilherme B. R. Lambais (marinho 04), MDE

 

Agradeço os comentários de Vitor Bukvar (paraná 05), MDE e Gustavo Zullo (05), MDE 


 

[i] Kenneth Arrow e Gerard Debreu. Existence of an equilibrium for a competitive economy. Econometrica, v. 22, n. 3, 1954.

[ii] Kenneth Arrow. Economic welfare and the allocation of resources for invention, in Nelson, R.R. (ed.), The rate and direction of inventive activity, Princeton University Press, 1962.

[iii] Kenneth Arrow. The Economic Implications of Learning by Doing. Review of Economic Studies,      v. 29, n. 3, 1962.

[iv] José Maria da Silveira. Apresentação (idéias fundadoras). Revista Brasileira de Inovação, v. 7, n. 2, 2008.

[v] Herbert Simon. Rational Decision Making in Business Organizations. American Economic Review,  v. 69, n. 4, 1979. (aula do Nobel).

[vi] Holt, Modigliani, Muth e Simon. Planning Production Inventories and Work Force, Englewood Cliffs, 1960.

[vii] John Muth. Rational expectations and the theory of price movements. Econometrica, v. 29, n. 3, 1961.

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1 Response to "O trauma do renascimento neoclássico"

Gostei muito do texto. Acho que os heterodoxos (posso falar em nome da maioria dos professores do IE) insistem na crítica dos pressupostos da teoria tradicional. Entretanto, os ortodoxos são popperianos à ciência econômia, pelo princípio da falseabilidade tudo é verdadeiro se prever fatos novos. Ou seja, a crítica heterodoxa tem que ficar menos presa à crítica das suposições tradicionais (racionalidade, maximização, etc.) e pensar a ciência como explicação e crítica, fugindo aí sim do tecnicismo.

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