Jornal do CAECO

O QUE FAZER?

Posted on: 04/05/2011

En la lucha de clases

Todas las armas son buenas

Piedras

Noches

Poemas

(Leminsky)

O corpo discente do Instituto nunca foi o que se pensou, e sobre ele pairam mitos radicais. Quando eu ingressei em 2003, já era antiga a tese de que o IE era uma espécie de terra arrasada do movimento estudantil: um curso crítico, mas alunos com uma inclinação especial a não dar a mínima.

Arrisco dizer que a história surpreendeu a todos, o Instituto não é o que as pessoas pensam. Na infância, seus estudantes tradicionalmente se engajaram numa militância muito similar àquela preconizada pelos professores: a aplicação da crítica teórica às desventuras que a ciência econômica se esforça para naturalizar nos diversos campos da vida social.

 Mas, foi só através do acúmulo e do aprendizado das suas disputas em si e para si estudantis que o corpo discente do Instituto atingiu a maturidade necessária para inaugurar, através da autocrítica da Escola, um movimento autônomo. E, quando o fez, ironicamente, encontrou seus mestres como antagonistas.

Eis que o corpo docente também se movimenta. Seria mais correto dizer: seus capitães sobre suas resistências, mas finalmente essa geração é capaz de fazer sua própria história, nos próprios termos, se despindo das roupagens que emprestaram do passado. E essa afirmação encontra paralelo em outros processos mais gerais nas universidades públicas, compartilhando vários elementos: desarticulação dos sindicatos, das entidades estudantis e disciplinamento total do espaço dos campi.

Este último ponto é o menos intuitivo e o mais importante. O atual reitor Fernando Costa é um artista da truculência, mas o isolamento do campus antecede seu pequenino reinado (que nossa história há de arquivar com sarcasmo). Mérito seja dado, sua dinastia foi extremamente perspicaz: para que a universidade se consagre, é necessário que ela seja apartada do acesso de estranhos (não-professores, não-alunos, não-funcionários, não-pesquisadores).

Ora, se os professores se afirmam enquanto tais, se reivindicam para si o controle da universidade, é porque têm consciência de seu projeto político, têm consciência de seus meios para implantá-lo e, mais importante, têm consciência de que, apesar de toda sua transitividade, seu projeto é um projeto para a educação. Mas é um projeto anti-social que estranha a sociedade à qual pertence.

E se há um conflito, se existe a necessidade do autoritarismo, é porque eles possuem um antagonista no campo da educação. E, assim como o camponês pertence à reforma agrária e a reforma agrária pertence ao nosso futuro, o estudante pertence à construção da Universidade Necessária, à Universidade que dá à sociedade brasileira livre-usufruto de seu próprio conhecimento.

Foi o movimento estudantil que colocou resistências ao projeto de educação implantado através de reformas. E o fez canalizando toda a força e sentido das contradições sociais externas à universidade através da transitividade política que lhe é própria.

Desde 2008, empenharam todas as suas cadeiras para disputar os caminhos da reforma nos espaços institucionais que a Universidade lhe garante. Mas essa ocupação se mostrou insuficiente para generalizar uma discussão de toda a comunidade universitária a respeito de seus rumos. Quem viveu viu: frente à postura repressiva dos professores, o grave problema da falta de paridade nas votações foi o menor dos impedimentos para um processo democrático.

Agora das reformas estão, em sua maioria, concluídas. A universidade está consagrada. A vaga institucional que se abriu para revisão se fechou. Mais triste, é difícil dizer que ela se abriu. E todo o autoritarismo docente na condução da universidade, cada vez mais, tira dos estudantes o direito de ser parte da Escola e os reduzem à condição de seus meros usuários.

Ao que parece, o movimento estudantil perdeu a propriedade do seu tempo e foi abortado.

Mas o Instituto nunca é o que as pessoas pensam.

Os professores têm o CONSEG, o CONSU, têm a Congregação, têm as Comissões de Graduação e Pós, as maiorias e o regimento ainda regido pelo AI-5. Mas nós, estudantes, temos os corredores, e isso é muito.

Darcy Ribeiro ensina: uma universidade é tão mais democrática e comprometida com sua sociedade quanto mais se romper seu isolamento através de um acesso amplo e irrestrito.

A instituição se fechou, mas ela deixou vãos. É por isso que é tão importante para reitoria (e, reconheça-se, recentemente, direções) impedir a infiltração de estranhos. É preciso disciplinar o acesso ao espaço restringindo-o ao vínculo burocrático com a Universidade.

Bem, o currículo e as salas de aula estão disciplinados, mas, mesmo assim, dois estudantes – através do Grupo de Estudos da Realidade Brasileira – nos deram uma pista do caminho quando colocaram 40 pessoas nas escadarias do chão preto para arrancar do Instituto a devida reflexão sobre os dilemas do nosso tempo.

Da mesma forma, nós não precisamos do auditório e da chancela de um professor para colocar os sem-terra no mesmo chão e reintroduzirmos, juntos, o extinto debate da reforma agrária. O CAECO não precisa de professores e créditos contados na DAC para oferecer uma grade de cursos livres, abertos, de conteúdo crítico, que trate com os excluídos da universidade oficial os temas descartados do currículo oficial.

Um debate livre. As possibilidades concedidas pelos corredores e escadas nos devolvem nossos horizontes. A chave é a possibilidade de rearticular os movimentos sociais com a universidade através de uma ocupação acadêmica.

E, neste momento, a forma pela qual a sociedade excluída reivindica para si sua universidade é o movimento dos estudantes. E é preciso que, através deles, nós, os outros movimentos sociais consigam reivindicar o espaço do campus e fazer uso dele em prol de sua própria luta. Só assim, através de uma profanação, a Universidade consagrada ao privatismo, e o conhecimento do nosso tempo, podem ser devolvidas ao livre-usufruto do povo.

E a razão pela qual a profanação dos corredores é a chave para a transformação da universidade vem do fato de que ela é todinha, exclusivamente feita de pessoas. E porque nenhuma pessoa é simples produto determinado por suas equações de classe é que há um limite pelo qual, no lado de dentro das salas, uma aula pode permanecer apática ao discurso do sem-terra, do sem-teto, dos sindicatos, das cooperativas, dos terceirizados e dos estudantes em pé ao lado das portas pelas escadas.

 A universidade brasileira compartilha o momento dramático do Brasil carente de perspectivas. Mas o tempo não pára e, quando as mudanças tomarem seu curso, o episódio dessa geração docente, tão pequena, passará. E quando a mudança começar, ela atingirá a educação pelos portões que a sociedade abriu na pele de seus estudantes.

Daniel – Fantasma Jedi

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