Jornal do CAECO

Navegando no curso de economia.

Posted on: 09/04/2011

“Passados os temores da reprovação, enfim sou estudante da “escola de economia mais crítica do país”! Estou muito animado com as aulas sobre os teóricos mais importantes que terei no curso! Os clássicos não sairão da minha mente e das discussões na sala de aula! Os professores – interessados em dar aulas e especialistas nas matérias que ministram – me darão todo apoio em temas de interesse extra-curricular assim como em pesquisas sobre os temas mais importantes para a sociedade brasileira!! Sou um aluno da Unicamp!”

Meu caro amigo receio lhe dizer que não trago boas notícias! Aquela escola que a Unicamp fora outrora, passa como as demais escolas de economia, dia após dia, por um enquadramento nos padrões mainstream. Mostra nítida disso foi a reforma da graduação de 2010, que, por exemplo, adiciona uma cadeia inteira de métodos¹ e retira matérias e reorganiza a cadeia de brasileira  ². Assim, você terá um curso bem diferente dos que ingressaram até 2009 e muito – e muito! – mais diferente daqueles que ingressaram no começo dos anos 2000. Exemplo? As temidas ME414 (Estat 1) e MA111(Cálculo 1), hoje ministradas no IMECC, eram oferecidas no IE, assim, contavam com professores diferentes, ementa e modo de condução do aprendizado distinto daquele que temos hoje. Inúmeras mudanças vêm sendo feitas no nosso curso ao longo do tempo. Assim como a graduação teve seu curso reformado em 2010, a pós-graduação também sofreu mudanças no catálogo para 2011.

Fora as mudanças que vieram com a reforma, a graduação na Economia-Unicamp têm lá suas matérias legais: Economia Internacional, História Econômica Geral, Economia Política, Formação Econômica do Brasil…. Porém, para chegar até o sonhado diploma, muitos são os “pedágios”: Introdução à Microeconomia, Microeconomia 1, Microeconomia 3, Macroeconomia 2, Macroeconomia 3, Internacional 3 (entre outras..)– todas elas matérias que duvidam da nossa capacidade mental ao mostrar o mundo idealizado dos piores manuais: concorrência perfeita, com todas suas homogeneidades, racionalidade, livre informação e os sonhados equilíbrios, tudo isso ilustrado pelos piores exemplos – e claro – ministrados em aulas tediosas!

E todos aqueles grandes nomes da economia? E aquele do time do futebol? Na graduação: não. Os nossos professores há muito deixaram de ter interesse em ministrar aula para a graduação: devido ao sistema de pontuação e evolução da carreira docente dar aula na graduação “vale poucos pontinhos”. Daí a gente encontrar certos professores desinteressados, aulas não preparadas… Claro! Há sempre um ou outro docente que salva, mas não é a regra.

Aulas sobre os clássicos? Smith, Ricardo, Marx? Contente-se com Economia Política 1 e 2. A primeira, uma visão de todos os mais importantes economistas até o Ricardo (via de regra é uma matéria bem dada, porém o conteúdo acaba ficando bem espremido). Já a segunda se propõe a ser o estudo de todos os volumes do Capital, Marx (sim!, o esforço é monumental).

O mundo da pesquisa também passa por mudanças… Se você se interessa num tema super interessante de pesquisa – que contribuirá para entender os dilemas da sociedade nacional, você procura um professor, escreve um projeto e manda pra FAPESP (pedindo uma bolsa de Iniciação). E aí? O seu projeto é negado!! Quase nada que não contenha a exatidão da econometria nem tenha por base a pureza do mundo do equilíbrio será aprovado: há um viés ortodoxo na banca que escolhe os projetos. ³

Muitas das ilusões dos ingressantes vão ser quebradas já no começo do curso. Entender os motivos de tantas mudanças na universidade e no ensino de economia também é tarefa de um graduando; Talvez uma boa lida nesse jornalECO e uma boa conversa com os veteranos esclareça esses que são alguns dos muitos questionamentos sobre a nossa graduação. Porém, todo esse processo das mudanças no nosso curso estão ligadas a mudanças mais gerais no ensino superior brasileiro, e entender as suas motivações e implicações começa desde uma calourada, mas é um esforço que leva bem mais que 5 anos….

Melissa, 09 Noturno

1 –  Cadeia de matérias de instrumental matemático ou de instrumentos da informática para “aplicação” nas disciplinas – é o que reza a lenda!

2 – Cadeia das matérias de economia brasileira, essenciais para entender a formação da economia nacional e os rumos que nosso desenvolvimento foi tomando com o passar dos anos (claro, considerando o viés “da casa”).

3 – Claro, nada como ter uma segunda chance e mandar o projeto para a PIBIC…

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