Jornal do CAECO

A universidade e a violência contra a mulher

Posted on: 09/04/2011

De acordo com a ONU, uma em cada 3 mulheres será estuprada, violentada ou espancada em algum momento da sua vida. Só no estado de São Paulo são cerca de 32 estupros por dia, de acordo com os dados de 2010.

Muitos fatos que acontecem na sociedade nos passam despercebidos. Estamos tão acostumados com a mentira de uma sociedade livre e de iguais condições somada a uma fatalidade em nossas vidas, que acabamos por naturalizar muitos tipos de violência: fome, desigualdade, falta de acesso à água potável e rede de esgoto, analfabetismo, discriminação racial, xenofobia, entre outros. A violência contra a mulher é uma delas. A mulher morta e esquartejada pelo companheiro, a mulher que fica paralítica vitima de violência domestica, os vários casos de estupros, de abusos, são capazes de nos sensibilizar, geram ódio, raiva, pena, mas não são capazes de nos mobilizar. Esses grandes casos são reflexo daquilo que ocorre diariamente e é por nós, mulheres e homens, naturalizado ou banalizado.

Somos 70% da população miserável do mundo e a maioria entre os analfabetos. Ocupamos os postos de trabalho mais precarizados (sem carteira assinada, com longas jornadas de trabalho e remuneração baixíssima), mesmo com ensino superior ganhamos menos que os homens de mesma qualificação.  Muitos dos trabalhadores contratados por firmas terceirizadas são mulheres, especialmente nos serviços que constituem uma extensão do serviço doméstico, fato que podemos observar em todos os lugares, inclusive na UNICAMP e no IE – basta um olhar atento ao redor.

O machismo é muito cruel. Ele é cruel porque assim como as outras formas de opressão, só pode existir se o oprimido aceita a sua condição, se este olha o mundo sob a ótica do opressor, se este naturaliza o mundo construído sob a ótica do opressor, mas mais ainda, se o oprimido não consegue enxergar a si mesmo como um agente da mudança, se vê apenas o futuro como um fato dado, sob o qual não pode agir. Alguns exemplos? Quantas vezes não ouvimos comentários machistas sendo feitos por mulheres? O próprio consentimento em ser transformado em um objeto: como as mulheres se comportam nas baladas? Quantas mulheres questionam as tarefas domesticas naturalmente atribuída a elas? Como as mulheres se comportam nos seus relacionamentos?

Nas universidades não é diferente, vocês vão ver. Nos jogos universitários, são cantados (por todos, inclusive mulheres) “hinos” explicitamente machistas. Quando se quer ofender, ou para alguns “zoar”, as outras faculdades é comum fazer referência às mulheres, colocando-as explicitamente como um objeto sexual. Este parece quase que um “código de conduta” implícito entre os homens das faculdades rivais: eles não se ofendem uns aos outros, preferem fazer isso com o outro sexo. E ainda, os casos de violência sexual e assédio moral são conhecidos por todos. O episódio do rodeio das gordas, no InterUnesp do ano passado, é uma das muitas situações, esse último caso, mostra mais uma dimensão do machismo incorporado nos padrões de beleza impostos às mulheres. No ano passado, aqui na Unicamp, estudantes foram agredidas e estupradas dentro do campus.

O curso que vocês escolheram também reflete essa realidade em muitos aspectos revelando o machismo presente nas salas de aula, nos corredores, nos hinos e nos livros….Reparem: quantas professoras vocês terão ao longo do curso? Quantas mulheres economistas vocês lerão, estudarão ao longo do curso? Poucas, muito poucas. E será que é porque as mulheres não pensavam, não liam, não escreviam? Não, não é por isso. As mulheres lutadoras, estudiosas, guerreiras, foram apagadas da história em nome do machismo e da submissão da mulher.

Mulheres, não deixem que esse assunto morra nesse artigo, se informem, busquem esclarecimentos e discutam entre parentes e amigos. Percebam as insinuações de machismo no dia a dia, vejam o invisível na busca por criar um novo ponto de vista sobre as opressões (sobre a questão). Homens, sem vocês também a luta não estará completa, o machismo e outras formas de opressão devem ser combatidos por todo o conjunto da sociedade. Mulher, sozinha é mais difícil! Seja o agente das mudanças e não somente um leitor(a) indiferente.

Daphnae Helena Picoli – Economia 3° ano

Flávia Ferreira da Silva – Economia 3° ano

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