Jornal do CAECO

Carta do CAECO ao XXV Congresso da ANGE

Posted on: 15/10/2010

Campinas, 13 de Outubro de 2010

 

“Quem como eu critica e propõe com tamanha veemência, o faz porque acredita que é praticável erradicar a conivência, superar a mediocridade e vencer a alienação que denuncia. Obviamente meu discurso não se dirige aos que estão contentes com nossas sociedades e com as universidades que as servem ou desservem. Escrevo para os descontentes, para os que estão predispostos a mudar a América Latina que existe para edificar aqui e agora a primeira civilização solidária.” (Ribeiro, D. A Universidade Necessária – 1974).

 

A ANGE nasceu depois de um “amplo processo de debate nacional acerca da reforma do currículo de economia” em 1985. Transcorridos 25 anos desse processo, nós, estudantes do Instituto de Economia da UNICAMP, sediamos este congresso após uma experiência própria de reformas. Nessa via, os estudantes, em conjunto com o Centro Acadêmico, desenvolveram reflexões, partindo do questionamento de problemas cotidianos, acerca dos cursos de graduação em economia – tendo em foco o curso da Unicamp.

O momento é oportuno para relembrarmos as lições de Darcy Ribeiro: a universidade latino-americana tem um talento nato para defender ideologicamente as estruturas de privilégio, de desigualdade e de submissão próprias das sociedades – sim – subdesenvolvidas.

A universidade necessária, uma universidade que sirva a uma sociedade que reivindica para si a própria libertação – sim, inconclusa – estará sempre em questão enquanto a possibilidade do conflito ameaçar a intolerância acadêmica.

É importante ressaltar que essa carta não deve ser interpretada como uma forma de desmerecer o significado desta instituição ou o esforço empenhado pelos professores e pesquisadores na construção deste curso; muito menos deve ser tomada como um ataque à categoria docente. O verdadeiro propósito dessa carta é reivindicar o direito ao conflito em todas as instâncias acadêmicas.

Há uma insatisfação patente, mal digerida, entre os estudantes a respeito do conteúdo e das práticas de sua formação, contra a instrumentalização do ensino, a hostilização do debate e, principalmente, contra a inépcia do curso em tratar as grandes questões nacionais. Ocorre que tais aspectos são reforçados por um bloqueio de quaisquer tipos de conflitos no seio da academia; o professor sem voz e o estudante sem fibra são suas marcas. O primeiro padece de um falso decoro que o impede de se manifestar explicitamente acerca dos dilemas latentes na sociedade. O segundo, a exemplo de seus mestres, se mostra incapaz de se expressar política e criticamente.

Reconhecemos que toda essa acomodação tem raízes em questões concretas, tais como o acesso a canais de financiamento externos. Se por um lado estes se fazem estritamente necessários, em função da insuficiência dos recursos públicos destinados à universidade – fruto de uma decisão política dos governos estaduais e federais -, por outro lado exigem a submissão a determinados padrões de produtividade e ensino impostos – os quais rompem com a autonomia universitária e anulam a possibilidade de existência de espaços de expressão das divergências internas.

Ademais, o grande propósito ao qual os centros de ensino economia devem se prestar é o de uma intervenção social, acompanhado de uma reflexão crítica capaz de restabelecer à Universidade sua missão de racionalizar os dilemas e possibilidades de nosso tempo. Uma instituição de graduação em economia não se resume a uma linha de produção de economistas e nem unicamente a uma espécie de trampolim para a concretização de aspirações individuais, não justificando que provas como a ANPEC e concursos públicos transformem o espaço universitário em uma espécie de “cursinho superior”. O cumprimento de sua função enquanto escola é indissociável do princípio de intervenção prática na sociedade. E é em face desse desafio que denunciamos o empobrecimento dos cursos.

Ora, a premissa de intervenção no meio social entra em contradição com a lógica de inércia do debate e infantilização do aluno nos supostos espaços de discussão. Cabe confrontar a tendência à instrumentalização do ensino com os pressupostos da reflexão crítica: a intervenção não existe sem reflexão, na medida em que o exercício reflexivo é necessário para viabilizar a formulação de diagnósticos para a constelação de problemas colocados. Dentro do quadro do ensino instrumentalizado, não há tempo para a reflexão e o confronto de idéias, pois impera uma lógica acadêmica produtivista.

No âmbito da relação professor-aluno, o que se vê por aqui é um expressivo tutelamento do aluno pelo professor, com uma rígida hierarquização do conhecimento acadêmico. Como se este se transmitisse em uma via única, qual seja, de cima para baixo – unicamente dos professores para alunos: os estudantes não contam com um espaço efetivo para contestações ou debates mais aprofundados em sala de aula. Uma premissa aí ausente é a da construção coletiva do conhecimento, ou seja, de um processo de constante crítica da crítica, capaz de romper com o marasmo da “pedagogia da hierarquia” e reforçar a formação propriamente dita do estudante. Acreditamos que o conhecimento construído coletivamente é vital não somente porque permite a renovação de idéias, como também faz do estudante um agente transformador de seu meio – pois capacita o cidadão a reconhecer o seu lugar e seu potencial na sociedade.

Como dito, tal tutelamento consiste ainda num dos diversos corolários do recrudescimento da lógica produtivista na academia e no cotidiano da carreira docente. O prestígio acadêmico encontra-se agora atrelado a metas, tais quais a publicação de artigos e a produção de pesquisas encomendadas, numa busca tragicômica por pontinhos na carreira, em detrimento da dedicação do docente às funções pedagógicas. A construção coletiva do conhecimento cede lugar à construção do estudante infantilizado pela pedagogia “do tablado e da carteira”. Ademais, o problema crônico de falta de professores sobrecarrega aqueles que lecionam a uma jornada de horas/aula, por vezes, já extensa.

Entendemos que os problemas aqui tratados refletem questões e conflitos vigentes na sociedade e, portanto, o raio de ação dos cursos de graduação em economia é, numa primeira vista, limitado. Contudo, há muito espaço para a reelaboração da estrutura curricular, das práticas pedagógicas e do relacionamento entre professor e aluno. Ainda mais se levarmos em conta que muitos dos grandes cargos políticos do país, a exemplo da eleição presidencial corrente, são ocupados por economistas, os quais ajudam a elaborar os planos de governo, inclusive aqueles destinado à educação. Sendo assim, o que queremos é inserir, nas discussões deste congresso da ANGE, a relevância central do conflito na vida acadêmica como um motor de idéias e do estabelecimento da crítica como um método de formação.

A acomodação de interesses pode ser positiva na perspectiva da reprodução do sistema em vigor na academia, mas oblitera as chances de reforma do mesmo. Convém ressaltar que o nascimento desta “casa”, como muito nos foi dito, foi fundado no conflito e na dissonância com correntes tecnocráticas e ortodoxas de pensamento econômico; lutemos, portanto, para que o restabelecimento do conflito como uma forma legítima de reflexão e prática política seja não só o fundamento de uma escola necessária, mas o primeiro passo de nossa regeneração.

CAECO 2010

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