Jornal do CAECO

Ocupar a Universidade!

Posted on: 12/08/2010

                       Quero através de este texto pôr em relevo a maneira como nós, estudantes, estamos perdendo nossos espaços e nossa voz, e que, agora, neste mesmo instante, se materializa a necessidade de agir e reocupar a universidade, através da ocupação da ex-cantina do IA por parte de vários estudantes inconformados com o andamento das coisas na universidade. É a estes estudantes, e aos que espero se sensibilizem com tais acontecimentos, que coloco todo meu apoio e dedico este texto.

                       Tal ocupação pode parecer, à primeira vista, um fato distante do nosso cotidiano do IE – cujos estudantes, aliás, têm o costume de limitar-se a olhar apenas para si e fechar os olhos para o resto da universidade –, mas mesmo inúmeros fatos a nossa volta dão sinais de que tais problemas estão mais próximos do que pensamos. Falo dos vários espaços que os próprios estudantes de economia perdem diariamente ao mesmo tempo em que mantemos nossa passividade diante dos fatos.  O melhor exemplo é a diminuição das verbas que as três entidades estudantis do instituto – CAECO, Atlética e Econômica – por parte da direção do IE, sem uma satisfação concreta das causas dessa queda do repasse. Além disso, a reitoria já sinalizou para um controle centralizado dos repasses de todas as entidades da universidade, com critérios arbitrários e pouco esclarecidos. Aliás, parte dos repasses provinha do antigo restaurante do IE e que atualmente permanece desabitado, sem utilidade para a comunidade universitária e mesmo para nós estudantes e, também, sem alguma explicação sobre a sua finalidade.

                       Ao mesmo tempo em que há esses espaços “improdutivos”, outros espaços vêm sendo usurpados, sejam eles físicos, materiais, políticos, etc. Há poucos meses foi retirada uma das salas de estudo da biblioteca, que pouco espaço já fornece para os estudantes realizar seus estudos, principalmente em época de provas, em que tais salas são disputadíssimas. Nada contra a funcionária que usufrui do novo espaço, os funcionários também sofrem com a falta de espaço, e seus interesses são comuns aos estudantes. Mas é só perguntar aos próprios funcionários da biblioteca sobre a situação que eles mesmos explicam: a biblioteca em breve ficará abarrotada de material, sem a possibilidade de alocá-la nas prateleiras e disponibilizá-las a todos. Ainda, se a biblioteca já é insuficiente em espaços coletivos de estudo, muito menos eles existem no resto do IE, sem espaços de socialização estudantil e de convivência com funcionários e professores, muito menos de convivência com aqueles que permanecem à margem da universidade – o povo que ficou de fora dela.

                       A tudo isto, acrescenta-se o processo recente de mudança nas grades curriculares do nosso curso (graduação e pós), que em ambas às vezes passam por cima das propostas e formulações dos estudantes. Os docentes optaram por adequar nosso currículo a padrões definidos por agências de financiamento (ex: CAPES e ANPEC), que sugerem conteúdos melhor avaliados para publicações, em detrimento de uma discussão autônoma e aprofundada do que seja a formação do economista e negando todo e qualquer acesso a esta discussão aos estudantes. Creio não ser por acaso que os próprios professores têm a maioria dos votos na congregação e no CONSU (3/5 dos votos), ou seja, têm na mão o monopólio das decisões, seja ao nível do instituto, seja ao nível da universidade. Ainda, me arrisco a dizer que essas mudanças nas grades não são por descuido ou negligência, mas por claro interesse: as adaptações facilitam a ascensão na carreira do pesquisador na medida em que garantem maior produção acadêmica – mesmo que esta nada tenha de comprometida com a causa social, com a qualidade da pesquisa e a formação crítica do pesquisador – e, simultaneamente, nossa formação se adapta ao mundo como nos é dado, sem ser permitido questioná-lo ou transformá-lo.

                       Assistimos a tudo isso, que não vai além de uma mera descrição de fatos, e pelo IE permanecemos quietos. Acho não ser necessário citar os outros inúmeros exemplos de perda de espaços que atravessam as dependências do IE (e que não deixam de estar ligados aos problemas do instituto). Acho não precisar falar da privatização maquiada da universidade, seja através do ensino que nos é inculcado (a privatização da nossa formação), seja pela mercantilização da universidade por meio de cursos pagos, seja pelo “empacotamento” e “venda” das nossas pesquisas, seja pela rejeição e esquecimento cada vez maior àqueles que não têm acesso à universidade – a elitização crescente da mesma.

                       Se os espaços dos estudantes vêm sendo estraçalhados, o que dizer dos espaços daqueles a quem é negada a vivência na universidade a todo momento! Falo daqueles que estão além dos muros da universidade – o povo! –, dos que lutam diariamente por uma casa onde morar, um emprego, uma terra, um pão, aos quais nem sequer se fazem menções num curso que se diz de economia e que deveria parar para pensar-agir sobre essas questões. Pergunto: o que seria, então, um curso de economia? Ou melhor pergunto: o que seria então uma universidade? Como falar de sociedade sem a sociedade falar por si? Como falar de ensino, de educação, se os estudantes (e nisto incluo todos aqueles que, pelas regras de uma universidade elitizada e funcional à lógica do nosso sistema, não têm acesso à universidade) não podem falar sobre a formação que desejam?

                       Diante de tudo isso, ficaremos quietos!? Diante dessas questões, não falaremos!?

                       Por isso, chamo os estudantes a ocupar e a construir uma nova universidade. Ocupar no mais amplo sentido do termo. Ocupar com gente. Ocupar com palavras. Ocupar com festa. Ocupar com idéias. Ocupar com luta. Ocupar o que nos foi tirado. Ocupar o que nunca nos deram, e merecemos. Ocupar o que nos é de direito. Ocupar para nós e para/com os outros. Ocupar para todos.      

El Uruguayo – 09

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1 Response to "Ocupar a Universidade!"

cretino! comece a ocupação do espaço frequentando as aulas ao inves de ficar dormindo na biblioteca!

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