Jornal do CAECO

A DESTRUIÇÃO DOS QUADROS TÉCNICOS E ADMINISTRATIVOS NAS UNIVERSIDADES PAULISTAS

Posted on: 18/06/2010

Luiz Carlos de Freitas – Professor Titular da Faculdade de Educação da Unicamp

A recente crise aberta pelo CRUESP nas Universidades Estaduais Paulistas não é, como se quer fazer crer, uma questão de simples isonomia entre o índice de reajuste salarial de docentes e funcionários. É muito mais que isso. Representa mais um capítulo na quebra da qualidade destas Universidades. A concepção de universidade do CRUESP é elitista: parte da base de que é o professor quem define a qualidade da Universidade, sendo as demais categorias – funcionários e estudantes – coadjuvantes secundárias. Daí que proponham pela primeira vez que se dê reajuste salarial maior para os docentes (12,96%) e menor para os funcionários (6,57%). Também cortam o ponto de funcionários que lutam em época de dissídio pelos seus direitos salariais. Estão os Reitores, sob liderança do Reitor da Universidade Estadual de Campinas, com a concordância tácita das Associações Docentes, testando novas formas de lidar com os trabalhadores destas instituições. Caso sejam exitosos nesta empreitada, estará aberta a possibilidade de usá-las no momento seguinte de forma indiscriminada.

A ação dos Reitores tem um poder destrutivo no interior da comunidade universitária: joga funcionários contra professores e vice-versa; divide estas categorias nas suas reivindicações salariais; tenta quebrar a espinha dorsal da resistência de funcionários. Caso estes testes sejam exitosos, teremos momentos de grande inquietação com desenlaces imprevisíveis para o relacionamento entre Reitoria e servidores públicos, agora e no futuro. Os Reitores estão construindo a radicalização pela recusa ao diálogo e pelo uso da repressão. É o caso dos acontecimentos na USP. Mas, mais que isso, o que se encontra ameaçada neste momento é a qualidade das Universidades Estaduais Paulistas.

Partem os Reitores, na prática, do equívoco de que a qualidade da Universidade é produto da ação do docente, portanto, seu reajuste deve ser maior.

No entanto, juntamente com as reivindicações dos docentes e funcionários também estão as reivindicações dos alunos, que não estão vinculadas a reajuste. Uma Universidade que não ofereça condições para que seus alunos possam se dedicar aos estudos, em especial aqueles que mais necessitam de apoio, está prejudicando a atividade formativa que poderia ser obtida por bons professores bem remunerados. Com os funcionários a situação é mais preocupante ainda. Caso não tenhamos boas e bem organizadas bibliotecas, a atividade acadêmica se vê prejudicada; caso não tenhamos bons administradores de convênios de pesquisa, boas secretárias, uma equipe de informática competente, a atividade acadêmica se vê igualmente prejudicada; caso não tenhamos as salas limpas e abertas nas horas de necessitamos, noss a atuação se vê prejudicada – para citar alguns casos. A defasagem salarial desmotiva e afasta os melhores quadros da Universidade, que paulatinamente migram para a iniciativa privada ou caem no desânimo. Um grande conjunto de atividades encontra-se oculta nos bastidores da docência, da pesquisa e da extensão, na dependência dos funcionários.

Nenhuma organização com uma abordagem moderna pode restringir-se a administrar para uma parte de seus trabalhadores e ignorar outras.

Acabar com uma greve, demitir alguns, não é tarefa difícil de ser feita. Entretanto, no dia seguinte, a administração universitária terá que se defrontar com a desmoralização produzida na categoria por ela mesma. A vergonha não é educativa; a vergonha a que se submete uma categoria não constrói a qualidade da Universidade. Funcionários desmotivados, envergonhados e inferiorizados não produzem adequadamente. Os estudos de administração mostram que o clima organizacional é fundamental para a produtividade desejada. O que se economiza em reajuste salarial, diferenciando índices, se perde depois na eficácia operacional dos processos. É política de curto alcance que põe em risco o futuro dos quadros técnicos e  administrativos das Universidades Paulistas, e isso não é pouco. Como sempre, as pol íticas de precarização das condições de trabalho do serviço público, fornecem no momento seguinte, a “justificativa” para os processos de terceirização e privatização do público.

O que está em jogo, portanto, nesta greve de funcionários nas Universidades Estaduais Paulistas é a própria qualidade destas Universidades enquanto Universidades Públicas. E esta interessa a funcionários, professores, alunos, ao Estado e à Nação.

É preciso urgentemente produzir o entendimento e parar de produzir radicalização. Para isso, é necessário que as Reitorias saiam de suas trincheiras de aço e negociem.

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1 Response to "A DESTRUIÇÃO DOS QUADROS TÉCNICOS E ADMINISTRATIVOS NAS UNIVERSIDADES PAULISTAS"

Esse texto me fez pensar na idéia de microcosmos do prof. Florestan Fernandes em que a Universidade reproduz o modelo de sociedade que temos… Será que nao é um erro pensar em fim de radicalizaçao e de acordo interno se o reitor exerce um claro papel de patrao e defende interesses de quem nós já sabemos? Nao seria tempo de mais radicalizaçao, e nao de menos? Me parece que os tempos de mais radicalizaçao foram muito mais favoráveis que os de menos.. Alias, melhor do que pensar em uma paridade, porque nao pensarmos em decisoes tomadas majoritariamente por estudantes e funcionários, já que temos um longa história de quase 100 anos de majoritariedade de professores?

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