Jornal do CAECO

Reforma – Entrevista com Prof Pedro Paulo Zahluth Bastos

Posted on: 01/06/2010

Prof Dr Pedro Paulo Zahluth Bastos é chefe do Departamento de Política e História Econômica do IE e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE). Ministra aula na área de história e formação econômica do Brasil.

A entrevista foi realizada por Andrej Slivnik e Franco Villalta.

1) Qual a importância para o Brasil da ciência econômica nas universidades?

As universidades formam alunos em nível superior que dispõem de conhecimentos diferenciados em relação ao conjunto dos cidadãos e do mercado de trabalho. Ainda mais por serem majoritariamente públicas, pois as empresas privadas em educação superior são faculdades e não universidades, as universidades devem cuidar não apenas de formar recursos humanos para as empresas, mas também cidadãos com capacidade de entendimento e liderança diante dos desafios técnicos, políticos e sócio-econômicos do Brasil. Por isto, as universidades devem conciliar ensino especializado com abertura geral para o mundo. Em ciências econômicas, em particular, a tarefa de formar cidadãos e recursos humanos, e algumas lideranças que não sabemos de onde virão (dentre o conjunto de alunos que ensinamos), deve passar pela transmissão de um entendimento amplo do mundo, ou seja, não apenas pelo conhecimento de uma pequena caixa de ferramentas conceituais, mas pela compreensão de amplos processos de transformação econômica do modo de operação do capitalismo mundial, do capitalismo brasileiro, de setores e empresas, que permita ao aluno enquadrar conceitos e técnicas em uma compreensão de porque são necessários, e/ou a quem servem. Uma universidade de ponta não deve formar bons robôs ou cães de Pavlov, mas cidadãos críticos, bem informados, com visão estratégica e capacidade de liderança, embora capazes de operar bem tarefas técnicas, quando necessário. Nem todos os formandos terão todas essas capacitações, mas se não nos esforçarmos para que a maioria tenha, pouquíssimos terão, seja porque a escola secundária nos traz alunos com muitos vícios, seja porque o mercado se satisfaz, a curto prazo pelo menos, apenas com recursos humanos tecnicamente competentes. Não podemos pensar apenas nas necessidades do mercado, porém, pois temos um dever com os desafios públicos do Brasil, e estamos cansados de saber que o mercado nem sempre aloca bem os recursos.

2) O que define epistemologicamente uma escola de Economia?

Enquanto ciência, a economia se separou da religião, da filosofia ou da ética quando, em um contexto já avançado de desenvolvimento do capitalismo na Europa, um conjunto de pensadores identificou motivações individuais de cunho econômico separadas de motivações solidárias amparadas por valores religiosos ou filosóficos, e alegou que uma sociedade baseada no indivíduo centrado nos seus interesses econômicos não só era viável, mas era fonte de progresso. Na teoria estava embutido um projeto político: as sociedades tradicionais deveriam ser reformadas sob liderança do burguês, do homo economicus. Enquanto ciência, portanto, a economia nasceu se preocupando com as fontes da riqueza e de sua distribuição, e trazendo esta preocupação para o centro do debate político e ideológico. Ao longo do tempo, as escolas de pensamento não se diferenciaram apenas pelas variáveis econômicas estudadas, ou pelo sentido de causalidade entre elas, nem trataram apenas de caixas de ferramentas conceituais, mesmo quando alegaram só fazer isto; as escolas de pensamento são permeadas por valores a respeito do mercado, do capitalismo, do trabalho, do individualismo, do Estado, de como interesses individuais e coletivos influenciam, em contextos históricos particulares, as fontes da riqueza e de sua distribuição.

3) Qual é a Escola de Campinas?

O núcleo de fundadores da Escola de Campinas certamente originou-se de um diálogo crítico com a Cepal, e alguns passaram por cursos de formação da Cepal, ou seja, nascemos da concepção estruturalista latino-americana, segundo a qual os diferenciais internacionais de desenvolvimento são sistêmicos; ou seja, não resultam do estágio em que as diferentes economias se encontrem em um modelo de desenvolvimento que poderia ser repetido por qualquer delas, mas da posição em que se encontram em um sistema internacional estruturado por assimetrias econômicas e hierarquias de poder, que se formaram e evoluíram historicamente. Assim, era preciso conhecer relações teóricas entre variáveis, de modo heterodoxo, ou seja, descrente da auto-regulação dos mercados, mas também enquadrá-las em um método histórico-estrutural: em um entendimento dos desafios históricos específicos ao desenvolvimento econômico e social típico de nossos países, das fontes de riqueza e distribuição que são característicos deles. Em outras palavras, metodologicamente, não se pretendia simplesmente explicar a relação de causalidade teórica entre fatos econômicos abstratos, isolados de seu contexto histórico, mas compreender e reconstituir o contexto histórico específico, e os modelos de desenvolvimento em que fatos e processos econômicos ocorreram, relacionados com fatos e processos sociais, políticos e ideológicos historicamente particulares. Politicamente, embora algumas das críticas à Cepal e aos neoclássicos fossem influenciadas pelo marxismo, a crítica da auto-regulação dos mercados, e do subdesenvolvimento da periferia não significava necessariamente apoiar movimentos revolucionários, mas crer no potencial de civilizar o capitalismo brasileiro, e apoiar políticas de Estado fiscalizadas democraticamente, mais do que outras escolas de economia estavam dispostas a apoiar.

4) Qual o papel da ANPEC e da Capes no cotidiano do IE?

São coisas diferentes. Não creio que influenciem muito na graduação, mas sim na pós. A Anpec influencia por causa do exame para a pós, do qual alguns conhecimentos teóricos e históricos que valorizamos como escola estão ausentes. Isto exige que os alunos que entrem pelo exame da ANPEC passem por um processo de formação intenso, que necessariamente toma tempo. Por outro lado, a Capes encurta o prazo de defesa das teses, mas a pressão para encurtar talvez venha mais de uma parte dos alunos. Ouvi dizer, da boca de alunos da pós em economia, que alguns outros alunos, que não querem fazer carreira com ensino e pesquisa, mas que estiveram bem colocados no exame da ANPEC, querem menos a formação em si, do que um diploma e uma bolsa que lhes permita prestar concursos rapidamente. Daí, surge alguma pressão para que o prazo de formação se encurte, e que o atalho para o diploma seja rápido. Não creio que devamos ceder a essa pressão, se é que ela existe mesmo, pois, enquanto escola, tradicionalmente formamos professores e pesquisadores de outras instituições, e líderes com visão estratégica para o setor público e privado (no privado, executivos-chefe e gestores de tesouraria em empresas e bancos, além de técnicos de boa qualidade, e, no público, também técnicos de boa qualidade, mas inclusive alguns reitores, ministros, candidatos ao senado e à presidência), e devemos continuar a fazê-lo. Se algum ajuste deve ser feito, minha opinião é que deve ser feito no escopo do trabalho de conclusão, e não na profundidade do processo de formação.

5) Qual a função da pós?

Alimentar sinergias entre ensino e pesquisa, contribuindo também para a formação dos alunos no ensino de graduação, com originalidade e crítica do conhecimento tradicional.

6) Quais são as questões centrais desta reforma?

É sempre bom repensar programas, disciplinas e encadeamentos delas, sujeitando tudo à crítica. É importante que utilizemos nossos métodos de raciocínio e análise crítica de modo reflexivo, ou seja, sobre nossa própria prática. Por outro lado, a experiência prática nos traz sempre novos problemas e novas reflexões que devemos socializar e debater. Um, é a pressão para encurtamento de prazos de formação a que fiz referência antes. Outro, é o fato que a prática das pesquisas leva pesquisadores e núcleos para temas e problemas novos que muitas vezes não dizem respeito à formação básica de pós, mas que devem ser trazidos de algum modo para o ensino. Conciliar formação básica sólida, e pesquisa de fronteira (que às vezes se desmancha no ar com muita rapidez) é um dilema que precisa ser equacionado pela reforma; na minha opinião, sem prejuízo do tempo e da solidez da formação.

7) Quais as linhas gerais?

Avançar nas pesquisas de fronteira, e nas pesquisas de consultoria, sem perder de vista e prejudicar a formação sólida de cidadãos com ampla visão do mundo, domínio rigoroso de seus objetos de pesquisa, e de ferramentas conceituais básicas, devidamente enquadradas em compreensões de contextos.

8 ) Qual o papel da história econômica?

Do ponto de vista da formação, lutamos para a formação de intérpretes do Brasil, e das mudanças do capitalismo mundial, pois se não contribuirmos para formar a memória do modo que consideramos correto e justo, inclusive à luz das lutas do presente e dos projetos de futuro, outros farão. Análise do passado e projeto social estão sempre ligados, e um certo diagnóstico sempre embute uma proposta. Lutamos por exemplo para divulgar a memória que consideramos correta e justa, mas que, frente a memórias diferentes ou rivais, é uma certa memória do neoliberalismo, uma certa memória da ditadura militar, uma certa memória da industrialização, uma certa memória da especialização exportadora tradicional, das lutas sociais, da concentração histórica da renda e do patrimônio no Brasil etc. E temos um compromisso com a compreensão da totalidade, ou seja, do modo de articulação de processos e variáveis econômicos com estruturas e processos políticos e sociais, pois sabemos que parâmetros econômicos são variáveis de processos históricos mais amplos, que não podem ser reificados. Temos também um compromisso com o entendimento da conjuntura como um momento da estrutura em movimento, ou seja, o entendimento dos processos do presente como resultantes da interação de processos com temporalidades distintas, da curta, da média e da longa duração, entendendo o peso do passado no presente. E com o método histórico-estrutural a que fiz referência.

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1 Response to "Reforma – Entrevista com Prof Pedro Paulo Zahluth Bastos"

Caro professor, certamente a CAPES, assim como outras instituições de fomento que controlam os recursos de financiamento da pós-graduação nas universidades (e lhes viola a autonomia?), exerce uma pressão mais contundente para o encurtamento de prazos do que o suposto aluno oportunista.

Em nenhum momento registra-se em qualquer ata do fórum dos estudantes da pós-graduação qualquer defesa do encurtamento dos cursos. Pelo contrário, nossa preocupação é que, no mínimo, criem-se melhores condições de aproveitamento dos estreitíssimos prazos de conclusão, por exemplo, através de bolsas mais longas que permitam aos alunos se dedicarem integralmente aos estudos.

Certamente existem oportunistas no Instituto. Contudo, que essa seja uma bandeira dos estudantes é puro folclore.

Quanto ao resto do texto, particularmente discordo da maneira como a “formação” é reivindicada dentro do Instituto. Não é função da universidade “formar cidadãos”. Se o fosse nós teríamos uma república muito mais tragicômica do que já é.

De maneira geral, acho que no Instituto se faz um esforço de formação que é construtivo em alguns termos, mas que tem o grave defeito de afirmar contra o estudante uma condição permanente de minoridade. Isso porque nem permite que ele se sirva de seu próprio conhecimento sem se colocar como intermediário do processo, nem tolera as transgressões mais banais que fazem parte da afirmação da autonomia. A “análise crítica de modo reflexivo” não é bem vinda. As reuniões de reforma são vedadas ao corpo dos estudantes, e não se restringem somente aos representantes dos professores. O Instituto foi incapaz de organizar uma discussão ampla e aberta em sua comunidade a respeito dos próprios dilemas e mudanças. Mesmo as críticas nas avaliações de curso são desqualificadas. A intervenção em sala é hostilizada e recebida com sarcasmo.

Tomando-se essa herança anti-democrática e anti-pedagógica de nossa fundação, não é de se surpreender que as tão esperadas descontinuidades e superações teóricas nunca tenham ocorrido.

Quanto a avançar nas pesquisas de consultoria, se não há ambigüidades na expressão, creio que haja um problema de perda de perspectivas entre o público e o privado, tal como sugerido pelo Armando em outra ocasião:
https://ieunicamp.wordpress.com/2010/04/07/o-publico-e-o-privado-a-luz-da-capes-reflexoes-sobre-a-reforma-da-pos-graduacao-do-ieunicamp/

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