Jornal do CAECO

A Venezuela que a Globo não mostra

Posted on: 12/05/2010

Diariamente, ou semanalmente no caso da Veja, vê-se na Globo reportagens sobre a Venezuela. Porém, nunca se fala dos avanços que o governo revolucionário tem conseguido. Somente preocupam-se em tentar criar uma imagem de um louco ditador para o Chávez, coisa que é ridicularizada e motivo de piada para os venezuelanos. Baseado em 75 dias vivendo na Venezuela na Capital Caracas e em Barinas, estado tipicamente agrícola, e nos dados da prestação de contas anual do presidente, segundo previsto por lei na constituição de 1999, do ano de 2008.

Na contramão de quase todos os países da América do Sul, no final dos anos 1990, o governo venezuelano já se opunha às reformas neoliberais ditadas pelo FMI, praticando políticas keynesianas de forte intervenção e gastos estatais.

Com essa política, ao contrário dos outros países do continente que viam seu PIB crescer timidamente, a Venezuela viu o seu PIB dobrar em 10 anos. Isso não só pela iniciativa pública, mas também pela iniciativa privada (mais de pequenos produtores do que de grandes) através do aumento e da facilidade de acesso ao crédito.

Muitos dizem que fazer o que o Governo Chavez tem feito é facil com a riqueza petroleira, já que a Venezuela tem hoje a maior reserva descoberta do mundo. Porém, em mais de 50 anos, os governos de direita nunca o fizeram e todos sabem o porquê.

Foi somente após a estatização de 100% da PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A.) em 2003 (após o paro petroleiro de dezembro de 2002) que o governo tratou de transferir a riqueza gerada pelo petróleo, não para o bolso de alguns poucos empresários venezuelanos e extrangeiros, como se fazia antes, mas sim para a população. Para essa transferência criou-se um Fundo de Desenvolvimento Nacional, ao qual até 2008 a PDVSA já havia depositado quase U$22.000.000.000. Isso mesmo, quase 22 bilhões de dólares.

Os bilhões de dólares desse fundo não foram somente para crédito, mas principalmente para programas de saúde, educação, alimentação, segurança, etc., o que acabou consolidando o sucesso da Quinta República e do Governo Revolucionário.

De um IDH* (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,64 em 1998, a Venezuela passou para um IDH de 0,84 em 2008. Isso porque houve avanço em todas as áreas em que divide-se a pesquisa do IDH: saúde, educação e renda.

A expectativa de vida aumentou em um ano e meio, a mortalidade infantil caiu de 21,4 por mil nascidos vivos para 13,7, porque houve melhoria na cesta de alimentos da e os programas de saúde, como o Bario Adentro que já atingia em 2008 a 88,9% da população, têm tido êxito.

A escolaridade que em 1999 era de 85% passou para 93,6% em 2008. O acesso ao nível secundário e universitário que antes era de 21%, aumentou para 35,9%. O analfabetismo, grande conquista anunciada com orgulho pelos venezuelanos, caiu para 0.4%.

No governo passado, os miseráveis, que são aqueles que vivem abaixo da linha de pobreza, chegavam ao número surpreendente de 42% de toda a população. Já aqueles que são considerados pobres, representavam 75,5% de toda a população venezuelana. Após 10 anos de governo, Chávez reduziu essas quantias para 9,1% e 30%, respectivamente. O que não significa que o governo esteja conformado, já que o objetivo é levar esses números a zero. Mas o governo está conciente dos avanços.

O índice GINI**, que avalia a distribuição de renda foi de 0,4865 em 1998 a 0,4099 em 2008, tornando-se a Venezuela o país menos desigual da América do Sul. Para se ter idéia, o Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, possui índice GINI de 0,602.

Já o desemprego, que antes era de 15,3%, passou em 2008 para 6,8%.

Apesar de todos esses números favoráveis e de dar inveja a qualquer país desenvolvido, o Governo Chávez não passou somente por momentos bons.

No ano de 2002, mais precisamente em 11 de abril de 2002, houve uma tentativa de golpe encabeçada por alguns militares, políticos de oposição, grandes empresários e pelos principais meios de comunicação privados. Após 3 dias de intensas manifestações populares em toda Venezuela e com apoio de boa parte do exército, Chávez volta da prisão, aonde o tinham colocado, no dia 13 de abril e retoma o seu cargo, constitucionalmente garantido, de presidente da República Bolivariana da Venezuela (esse fato histórico merece destaque por mostrar o que os meios de comunicação privados defendem e do que eles são capazes – assistir o documentário “A Revolução não será televisionada” além de muitos outros que explicam o que se passou – e por marcar a história venezuelana e dar origem a um dito “todo 11 tem o seu 13” que simboliza que o povo venezuelano nunca mais abaixará a cabeça diante da injustiça e da exploração).

Insatisfeitos com o fracasso do golpe de abril, a oposição e os meios de comunicação organizaram em dezembro do mesmo ano um boicote petroleiro e de diversos setores economicos (alimentação, comércio, combustíveis, etc.) conhecido como “Paro Petroleiro” (assistir o documentário “Jesus y él Viejo”). Porém a compreensão da população de que aquele momento de escasses de produtos era um problema de disputa política e não de incompetência do governo e o esforço dos trabalhadores que estavam ao lado do governo fez com que o governo resistisse a um nível de 19,2% de desemprego em 2003 e a uma alta inflação, levando o PIB a crescer 18,3% em 2004 durante a recuperação da economia do país.

Em 2008 a inflação ainda era muito alta, cerca de 31%. Porém, o diagnóstico da inflação não é o que poderia chegar um economista em uma análise “puramente macroeconômica” (se é que isso seja possível) que levaria a crer que o problema tem origem no aumento de demanda pelo crescimento econômico. A inflação na Venezuela é essencialmente política e se dá por um forte boicote e especulação do setor privado, em resposta ao congelamento de preços e ao alto controle dos reguladores estatais, que somado ao aumento do salário real, reduziu a taxa de lucro dos grandes empresários. Vale destacar aqui que a inflação não atingiu alguns alimentos que compõe a cesta básica, já que o governo controla hoje boa parte do setor de destribuição por mercados estatais e pela forte regulação e punição daqueles que desrespeitam a lei.

A sequência de ataques do setor privado fez com que o governo avancasse no processo revolucionário até mesmo como forma de precaução. A necessidade da segurança alimentar fez com que o governo se apropriasse de grande parte do setor de distribuição de alimentos (como pela estatização dos mercados de uma grande rede transnacional e pela criação de muitos MERCALs – mercado popular) e também de produção, além de acelerar o processo de reforma agrária e incentivar a pequena produção de alimentos.

Até 2008 o governo havia recuperado 2,134 milhões de hequitares, aumentado a área de colheira em 45%, e conseguido autosuficiência em arroz, milho, café e carne suina.

Além do avanço para a soberania alimentar, o governo adotou, através de parceria com diversos países e por uma política de substituição de importações, um projeto de industrialização, para enfim tornar-se independente de importações e de uma economia essencialmente petroleira como tem sido há muito tempo.

Após esses 12 anos de intenso crescimento econômico a Venezuela vive hoje um problema de gargalo para o crescimento. Por falta de planejamento e por um período longo de seca (a maior fonte energética do país hoje são as hidroelétricas) o país enfrenta hoje uma crise energética que tem demandado do governo uma forte política de incentivo a economia de energia nas residências e de imposição de cootas para muitas empresas. Porém, disso também se tira uma lição: parece-me esse um momento importante para a população venezuelana repensar o seu padrão de consumo baseado no padrão estadounidense há décadas.

O processo revolucionário e a necessidade de luta constante contra os velhos donos do poder parecem ser lições diárias para o povo venezuelano, que demonstra-se diariamente disposto a aprendê-las.

 Theo, o espírito errante do CAECO

www.embuscadaamericalatina.blogspot.com

*segundo PNUD, quanto mais próximo de 1 mais desenvolvido é o país.
**quanto mais próximo de 1 mais desigual é o país.

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