Jornal do CAECO

“Nunca fomos tão brasileiros.”

Posted on: 19/04/2010

Nem só de percalços vive o processo de discussão em torno à “reforma” da pós. Na última quinta-feira, dia 15 de abril, reunidos em seu Fórum, os estudantes da pós-graduação optaram pela obrigatoriedade de duas disciplinas referentes ao estudo da realidade brasileira em seu currículo: Formação Econômica do Brasil e Economia Brasileira. Para que possamos entender o significado dessa decisão, que reitera a necessidade de ir a fundo na compreensão do capitalismo brasileiro em seus limites e possibilidades, façamos algumas considerações.

Se o pensamento do Instituto de Economia da Unicamp carrega uma marca distintiva, esta tem sido um tanto negligenciada ou ignorada, talvez porque ela se afirme muito mais no plano político do que no âmbito da teoria econômica. Não se deve ignorar o sentido profundo que tem orientado esse corpo de reflexões, de fato plural, mas que se constituiu com relativa unidade de propósitos. Não somos meramente “heterodoxos”, mas, fundamentalmente, um núcleo de resistência e de defesa intransigente da Nação, que sempre se apresentou como alternativa progressista à esterilidade do pensamento hegemônico. Representamos a oposição veemente à economia convencional, que em sua pretensa neutralidade, mascarada por abstrações, representa a defesa da ordem e dos interesses do grande capital nacional e do capital financeiro internacional. Além disso, a construção daquela reflexão crítica parece ter se pautado pela estreita unidade entre pensamento e ação, ou seja, pela investigação científica com vistas à intervenção prática em uma realidade específica, para orientar a ação transformadora na superação dos impasses da economia nacional.

A trajetória desse pensamento, desde o momento histórico de sua constituição e de sua afirmação como projeto, até os dias recentes, torna isso evidente. Começa em pleno regime militar, procurando se contrapor, dentro de suas possibilidades e nos acanhados espaços em que ainda podia vicejar a crítica, à intolerância, brutalidade e opressão da autocracia burguesa contra toda forma de pensamento crítico, tudo em nome da ordem, ou seja, dos grandes negócios do desenvolvimento dependente-associado. E se prolonga até as últimas duas décadas, em que a ditadura civil-militar é substituída pela democracia formal combinada à cínica ditadura do capital financeiro internacional, às vezes ostensiva, às vezes dissimulada, a partir da ofensiva  “neoliberal”,  em sua cruzada contra o pensamento insubmisso. Então, o sentido maior, subjacente à prolongada construção do Instituto de Economia enquanto uma “escola de pensamento” plural, mas coerente, e enquanto instituição eminentemente pública, parece residir justamente na identidade em torno aos seus objetivos teórico-práticos. Isto é, o estudo sistemático da realidade econômica brasileira, em sua situação concreta, com vistas a superar sua condição de subdesenvolvimento crônico e sua posição subordinada no sistema político-econômico do capitalismo internacional. Ou, simplesmente, o compromisso com a construção de uma Nação autônoma, capaz de tomar as rédeas de sua própria História e construir-se a si mesma, em função de suas mais prementes necessidades sociais, e não mais submissa aos imperativos do grande capital.

É esse compromisso histórico que nos separa dos centros ortodoxos e conservadores. Certamente, em seu exercício da crítica e em sua crítica da prática, essa “escola de pensamento” revela-se prenhe de inúmeras contradições e de sérias limitações. Nada mais natural, posto que passa por um momento de crise. Não é de se espantar que tal pensamento tenha entrado em crise, diante da aceleração da história e da violência da ofensiva do “pensamento único” que busca impor os imperativos do capital financeiro internacional e neutralizar toda forma de debate, e que entra em estado de pânico quando são questionados os alicerces de sua dominação. O IE é perpassado por tensões que expressam o choque entre identificações subjetivas e determinações objetivas, enfrentando dilemas particulares mas também os impasses gerais com que se depara a universidade pública. É também na crise que se expressam com maior intensidade as referidas tensões, de modo que esse corpo, em si mesmo heterogêneo, vacile, hesite, retroceda, contemporize, à medida que é abalado em seus próprios alicerces. Todo pensamento encontra seus limites, sob o movimento implacável da roda da história, e assim deve ser submetido à crítica e superado. Superado, não suprimido ou destruído. Para que sua crise não se desdobre em sua completa desagregação, é necessário transcendê-lo em suas insuficiências e debilidades.

O que importa destacar é que, a despeito das adversidades, o IE ainda é uma das grandes referências que aglutina muitos daqueles que escolheram conscientemente, na luta de idéias e na luta política, o lado que se identifica com o combate intransigente às mazelas e aos anacronismos sociais do capitalismo dependente e subdesenvolvido ao qual o Brasil se encontra agrilhoado. Esse conjunto de breves colocações serve para ressaltar a importância da decisão firmada na última reunião do Fórum dos estudantes da pós-graduação, pela inclusão, como disciplinas obrigatórias do núcleo comum aos mestrados de Desenvolvimento e Economia, de Formação Econômica do Brasil e Economia Brasileira. O conteúdo contemplado por essas disciplinas foi considerado indispensável para nossa formação. Cabe restaurar a centralidade da história para se compreender as contradições e impasses de uma sociedade que ainda não pôde cumprir em sua plenitude seu “destino nacional”, bem como as condições e possibilidades para a ação transformadora.

Com a decisão do Fórum dos estudantes da pós, com a preocupação demonstrada por estudantes da graduação e com as expressões de inconformismo que brotam do corpo docente, o IE segue reafirmando seu compromisso com a sociedade brasileira em sua totalidade e com os valores democráticos de “convivência social”. São demonstrações de que ainda temos forças e munição suficientes para continuar a resistência, em contraposição ao compromisso firmado entre os centros conservadores e o capital financeiro e os mais arraigados valores anti-nacionais e anti-democráticos. Com a expectativa de, quem sabe, no futuro, virar o jogo definitivamente.

João Paulo – DTE

Representante Discente

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