Jornal do CAECO

A reforma da pós para além da superfície

Posted on: 06/04/2010

Todo processo de revisão da universidade – ou de uma de suas partes – deve responder a certa hierarquia de princípios como requisito mínimo de coerência institucional. Sua organização interna e a concepção de suas atividades devem dar expressão prática àquilo que se definiu como sua função social.

Como parte dos processos de reforma do Instituto de Economia, que nem mesmo sob a mais cândida das consciências pode ser tratado como uma mera reorganização de grade, três questões imperativas se colocam: Qual a função de uma Escola de Economia? Qual a Escola necessária? Quem é seu egresso?

Freqüentemente o expediente no Instituto segue um procedimento muito heterodoxo. Os trabalhos de revisão começam pelos meios para depois se perguntar a que fins poderia se prestar o resultado obtido.

Não é por outro motivo que a assembléia de reforma da pós-graduação se encontrou, perplexa, em meio a uma discussão de grade curricular que precedeu a discussão dos conteúdos necessários. Nem é por outro motivo que a graduação teve seu currículo reformado sem que os reformadores pudessem dar qualquer palpite de qual economista é formado pelo novo projeto.

O traço recorrente desse processo não é só resultado de um “deslize” da cordial comunidade do Instituto. Ele é resultado de uma perspectiva política tradicional disso que se chamam “Casa”: a absoluta intolerância com o conflito. Herança de seus fundadores, ela se tornou um jeito de ser e de fazer que bloqueia os processos de ajustamento em face do fluxo contínuo de transformações que moldam o presente. A dinâmica é avançar acomodando as contradições.

Violemos por um minuto esse protocolo que nos arrasta e que afoga a instituição no marasmo de seus impasses mal resolvidos. Indaguemos o Instituto de Economia. Vejamos sua profissão de valores e suas convulsões intestinais.

É certo que o IE reivindica para si o status de “último estandarte da economia crítica e de esquerda”. A apresentação decorre diretamente da herança idealizada dos fundadores que foram capazes de se apropriar das rupturas epistemológicas da CEPAL e dar a um pensamento original expressão prática no campo político.

Assim nos ilustra o comprometimento dos quadros com a luta sindical, a reforma agrária e, ainda mais importante, com uma determinada perspectiva de autonomia nacional e democracia (nos marcos do capitalismo).

A função da Escola era, antes de tudo, a disputa pelas utopias nacionais e se deu pela contraposição crítica e herética à teoria convencional, referindo-se diretamente aos dilemas históricos da modernização industrial típicos do subdesenvolvimento.

Decorridos 40 anos, a historicidade das questões torna óbvia a necessidade de renovação. No plano simbólico, a jovem-guarda do Instituto se compromete com os princípios fundantes através de uma conexão frágil, algo idealizada e algo anacrônica. No plano da organização dos mecanismos que dão expressão prática à função social da Escola, orquestram sua negação.

Essa contradição se manifesta de maneira imprecisa, mas, ainda assim explícita, nos dois programas de pós-graduação. Imprecisa porque em cada lado há professores e estudantes forçando uma opção pela “Análise Econômica” ou pela “Economia Política”. Porém, a divisão ente os programas torna-se um dado pertinente porque é no programa de Teoria Econômica que a vanguarda da reforma ortodoxo-analítica reivindica seu espaço, se polariza e se manifesta.

As definições desse conflito são emprestadas de Carlos Lessa. De um lado se coloca a “Análise Econômica” e, do outro, a “Economia Política” (este eufemismo que alivia os economistas penitentes).

O procedimento fundamental da “Análise” é a partição, a dissecação de uma totalidade em um conjunto de conceitos correlacionados pela lógica formal e que se definem pela abstração da História, da Geografia e das relações de força na sociedade. O problema econômico é a escassez relativa e a matéria de estudo a racionalidade das escolhas.

A característica da “Economia Política” é a operação crítica: a reconstituição dos elos perdidos entre as partes e o todo através da dialética. A reconciliação entre a História, a Geografia, a Sociologia, e as ciências humanas de maneira geral, a fim de explicitar as leis sociais que, sob a ideologia econômica, organizam a coletividade.

Este esforço para adequar o funcionamento do Instituto às pautas e às categorias que estruturam o debate convencional no campo da economia – típicos da “Análise Econômica” – é a resposta das novas gerações à sua incapacidade de superar criticamente os marcos utópicos da fundação e de proporem um novo horizonte de interpretação histórica que questione contundentemente os dilemas do seu tempo.

Três elementos nos dão pistas dessa guinada.

Em primeiro lugar, a seleção de pós-graduandos, através do exame da ANPEC, procura premiar os candidatos formados com maior proficiência no arcabouço analítico da ortodoxia, preterindo explicitamente os economistas formados na tradição da própria Escola.

Em segundo lugar, a adesão às regras da CAPES aliena radicalmente a autonomia universitária porque vincula o financiamento e a progressão na carreira de professores e pesquisadores a uma agenda externa. Dessa forma, a agência atua como correia de transmissão das recorrentes pressões pela internacionalização e alienação das pautas investigação aos marcos do que vimos definindo como “Análise Econômica”.

Por último, há a apologia da flexibilização do curso como forma de favorecer as especificidades de cada estudante, mas que esconde duas dimensões.

A primeira delas é que a assim chamada flexibilização cria condições para que a grade curricular contemple uma variedade maior de discussões mais específicas, o que força ainda mais a compartimentação do conhecimento e a negação das abordagens totalizantes no momento em que a formação e a produção de pesquisa são mais convergentes.

Em segundo lugar, se propõe flexibilidade pela subtração dos conteúdos de história e economia política em prol das disciplinas-chave do modelo “analítico” da CAPES: Microeconomia, Macroeconomia e Métodos Quantitativos. A proposta resulta, em última análise, não numa flexibilização, mas na implantação do pensamento único que impera na maioria esmagadora das escolas de economia, mesmo que sob uma roupagem crítica.

Certamente a Escola chegou ao limite das contribuições do passado. O dilema é se ela se permitirá renovação dentro de sua tradição crítica ou se irá compor com o pensamento único. O que se poderia esperar do Instituto de Economia seria uma resolução objetiva de sua contradição. Um debate explícito, em seu próprio terreno e envolvendo toda sua comunidade, a respeito de quais são os projetos propostos por essa geração.

Daniel

MDE – Regional e Urbana

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: