Jornal do CAECO

CONTRADIÇÕES E IMPASSES DA “REFORMA”

Posted on: 04/04/2010

O dia 31 de março guardava mais surpresas do que qualquer um poderia imaginar. Para o bem e para o mal. A apresentação da proposta de reestruturação da grade curricular para o mestrado em Economia foi suficiente para mobilizar emoções e desatar a polêmica entre o corpo docente. Demonstrou, igualmente, a gravidade do processo em curso, que tem afetado diretamente o programa de Economia, mas que em sua essência interessa a toda a pós-graduação do IE.

Antes de tudo, a proposta apresentada não correspondia àquela que vinha sendo divulgada até então. Mantido o número de dez disciplinas, o primeiro semestre deveria incluir Macroeconomia, Microeconomia e Econometria como disciplinas obrigatórias, enquanto os dois semestres seguintes seriam submetidos a uma progressiva flexibilização. No segundo semestre, o mestrando deveria escolher duas entre as três matérias a seguir: Economia Brasileira, Economia Internacional e Economia Política. Fecharia a carga do semestre com uma eletiva. No último semestre, somente cursaria eletivas, sendo que, em algum momento desse percurso, teria de passar pelos Seminários de Dissertação – que lhe proporcionaria orientação quanto ao processo de elaboração da dissertação. Economia Monetária e Financeira, Formação Econômica do Brasil e Macroeconomia II, formalmente ainda obrigatórias, passariam à categoria de eletivas.

Uma grade curricular dessa natureza é deveras problemática e desperta tremendas inquietações, particularmente pela naturalidade com que foi exposta e pelo apoio majoritário – mas não unânime – com que teria sido acolhida. Há motivos de sobra para preocupação. Essa proposta, sem hesitações, quebra a coluna vertebral de um curso eminentemente crítico e formativo. Enquanto o primeiro semestre contempla a “Santíssima Trindade” (Macro, Micro e alguma matéria de Métodos Quantitativos) conforme as determinações da CAPES para a pós-graduação em Economia, o segundo semestre abre a possibilidade de que o mestrando deixe de cursar Economia Brasileira ou Economia Política. Ora, permitir que o estudante abra mão de qualquer uma dessas disciplinas não quer dizer que, no espírito da “reforma”, elas sejam igualmente importantes. Ao contrário, significa que são entendidas como igualmente dispensáveis.

Contudo, o ponto mais grave é a demolição dos alicerces do curso. De uma só tacada, suprime-se o caráter obrigatório de Economia Brasileira, Economia Política e Formação Econômica do Brasil. Não é concebível que um mestre formado pelo IE abra mão de carregar qualquer uma dessas disciplinas em seu currículo, pois são fundamentais para quaisquer reflexões que se proponha ou quaisquer problemáticas sobre as quais se debruce – seja em sua dissertação, em seu doutorado ou ao longo de sua vida. Além de constituírem uma marca indelével da história do pensamento do Instituto, são imprescindíveis para que se preserve seu caráter crítico e militante, frente aos dilemas concretos da realidade brasileira – donde vem o renome do IE, tanto entre a “heterodoxia” quanto entre adversários, tanto na academia quanto na vida política do país.

Sem as mencionadas disciplinas, teremos uma formação sofrendo de sérias lacunas, de debilidades injustificáveis. Não terá uma visão das determinações mais profundas do modo de produção capitalista, sem as quais não se pode apreender com nitidez as contradições do capitalismo contemporâneo e os desafios que representam. Tampouco terá conhecimento das especificidades da realidade histórica e da forma de capitalismo que nos coube, pelo desenvolvimento histórico particular do Brasil, e por que certos problemas se reapresentam constantemente e em maiores proporções. Enfim, abrir mão dessas dimensões em um curso de pós-graduação como o nosso implica em enormes dificuldades para identificar, dissecar e superar os problemas postos pela realidade concreta de nossa economia, em particular, e de nossa sociedade, em geral.

Não se trata de uma mera questão de preservar a tradição. Tampouco reverência por certa tradição ou por um passado idealizado. Trata-se, isto sim, em primeiro lugar, de preservar a qualidade e os alicerces de um pensamento crítico que, a despeito dos problemas, que naturalmente tem, nunca deixou de mostrar-se extremamente fecundo; e, em segundo lugar, de corresponder às determinações objetivas que devem nortear as atividades de pós-graduação em uma universidade pública, financiada pela sociedade (e, principalmente, por uma determinada sociedade, com todas suas mazelas, que é a brasileira), e que portanto deve assumir certas responsabilidades e compromissos, perante a elaboração e equacionamento teórico e a superação prática de nossos dilemas históricos.

Não se fazem mudanças dessa magnitude sem critérios objetivos muito bem definidos. Entendo que tais critérios foram contemplados no parágrafo anterior, assim como foram devida e recorrentemente levantados ao longo das discussões preliminares dos estudantes da pós em seu Fórum. Aqui não entraremos no mérito de saber se a proposta soluciona ou não o problema que a teria motivado. Só cabe mencionar de passagem que, conforme os elementos apresentados no segundo parágrafo, a referida proposta dificilmente resolve os problemas do prazo de defesa e do processo de elaboração da dissertação. Apesar das boas intenções, apenas atesta o pragmatismo irrefletido que parece ter norteado sua construção.

O momento presente exige determinação, uma postura firme de nossa parte, de maneira a preservar tanto o espaço de diálogo conquistado junto ao corpo docente quanto a mobilização coletiva do corpo discente, de maneira a avançar no movimento e nas discussões propostas. Apesar da gravidade da situação, as inconsistências e controvérsias postas no dia 31 de março, explicitando a disposição por parte considerável do corpo docente de resistir a tais mudanças no mínimo questionáveis e precipitadas, coloca também a possibilidade de participação ativa e positiva do corpo discente no processo. Isso fica igualmente evidente pelas inúmeras indicações, nas falas dos professores, de uma disposição a discutir conteúdos antes de especificar qualquer grade, o que vai de encontro às nossas próprias discussões e propostas de sistematização da reforma curricular. Em todo caso, já não há como ficar indiferente ou impassível diante das mudanças que, informalmente, já vem se insinuando há muito tempo no programa de Economia, e que, com a intenção de sua institucionalização, estabelecem o precedente e os marcos para um curso sem identidade e ameaçado de desagregar-se em uma “colcha de retalhos” desprovida de sentido ou em algo ainda pior.

Não podemos abrir mão de um pensamento crítico, coerente e combativo frente à ditadura do “pensamento único” hegemônico. Ao contrário, devemos cobrar e colaborar ativamente em sua construção. Não podemos assistir inertes ao que, em essência, se apresenta como uma forma de rendição a imperativos que, em última instância, remetem todos àquele “pensamento único”. O primeiro passo para a superação da crise do “pensamento da casa” será justamente lutar pela conservação daquilo que ele tem de melhor a oferecer.

João Paulo – DTE

Representante Discente

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