Jornal do CAECO

O Processo Político da Reforma no Instituto de Economia

Posted on: 10/03/2010

Viver é super difícil
O mais fundo
Está sempre na superfície.

Leminski

A cada dez anos, o Instituto de Economia realiza um processo de revisão e reforma com a finalidade de recolocar seus cursos de graduação e pós-graduação em face das novas questões concebidas pela História.

Mais do que um processo burocrático, a reforma consiste, sempre, em um ritual de consulta que a Escola faz às suas próprias entranhas. Um ritual para interrogar quem são aqueles que a compõe e qual a consciência, e o compromisso, que são capazes de assumir frente aos conflitos de seu tempo.

O IE, contudo, possui uma forte característica de mascarar suas dores. Jamais o conflito de idéias é levado à sua expressão nua e, na superfície, paira a conciliação, a democracia e a serenidade.

É por isso que o momento da revisão é extraordinário. Antigos descontentamentos e projetos alternativos ganham a possibilidade de expressão e de serem colocados em discussão. No que concerne o corpo discente, três ordens de questões entraram em ebulição, todas interdependentes.

A primeira delas refere-se ao entendimento que se faz do papel dos estudantes dentro do IE. Há um tipo de cultura acadêmica que coloca o corpo docente como personificação da universidade e os discentes como usuários temporários da Escola.

A expressão cotidiana desta cultura é a de que os professores – pelo controle e monopólio do saber – possuem competência exclusiva sobre o destino da coisa pública que é a Unicamp. Sua expressão prática nega que nós, estudantes, somos parte constitutiva desta instituição e do processo através do qual – e com qual qualidade – ela realiza sua função social.

Decorre diretamente disso o segundo questionamento estudantil. A postura docente concorria diretamente para que os estudantes fossem mantidos firmemente em uma condição de minoridade, isto é, tolhidos na afirmação de sua autonomia intelectual e na liberdade de se servirem de seu conhecimento sem a tutela de outros.

Por último, contra todas as adversidades e desmoralizações, o corpo discente colocou em questão as bases teóricas através das quais a Escola esboçava sua interpretação dos grandes dilemas nacionais, constrangida na incapacidade do keynesianismo transgredir os limites do crescimento econômico como utopia de destino histórico.

Impelidos por essas motivações os representantes discentes na congregação – dos quais eu fazia parte – e na comissão de graduação (CG) formaram uma força tarefa (misteriosamente batizada de “O Mimeógrafo” (?)) para problematizar a reforma.

Como o corpo de estudantes era tão heterogêneo em suas opiniões quanto o docente, a estratégia moveu-se no sentido de tentar garantir a todo aquele que se debruçou sobre os problemas do Instituto, espaço para manifestação de suas ponderações através de sua própria voz.

O momento da discussão era crucial. Pelo regimento da universidade, os representantes dos estudantes têm direito a 1/5 dos votos válidos, os funcionários técnico-administrativos a outro 1/5 e dos professores a 3/5. Isso significa que o corpo discente e de funcionários está sempre em posição de ser vetado.

À época da reforma percebíamos claramente que, caso nossa intervenção só pudesse se dar sobre um projeto pronto, elaborado pela CG, só poderíamos influir sobre questões marginais.

Por isso, o único momento fecundo era o momento do processo criativo, quando os problemas estavam sendo interpretados pelos professores e poderiam ser colocadas nossas contribuições através do debate de idéias.

Transcorrido todo o processo, consta nos autos oficiais que a reforma foi um sucesso, elaborada nos marcos do respeito mútuo e da democracia. O que não ficou registrado foi a resistência imediata da direção, da coordenação e a apatia vergonhosa dos professores restantes diante de nossa reivindicação de diálogo.

Primeiramente alegou-se que era impraticável discutir a questão dando a cada um direito à voz. Convictos de que impraticáveis eram a intransigência e a ignorância não-assistida, realizamos um abaixo-assinado com centenas de assinaturas reivindicando a abertura de todas as reuniões nas quais se discutia a reforma. A iniciativa foi ignorada.

Após esforços da representação para abertura das reuniões, a solução veio sob a forma de uma série de seminários – que chamarei doravante sob a notação “engodo” – aos quais compareciam estudantes, docentes da comissão de graduação e palestrantes convidados.

O palestrante dava uma aula sobre diversos temas relacionados e os estudantes escutavam. Caso questionamentos avançassem sobre temas espinhosos ou sensíveis entrava em ação a censura que abortava o debate.

Paralelamente, em cada departamento, os professores realizavam reuniões que culminaram na elaboração de um projeto, sistematizado após uma discussão fora das dependências da Unicamp, na qual foi barrada metade da representação estudantil, inclusive este autor.

No final das contas, as contribuições discentes restringiram-se a referendos específicos convocados pela CG e às intervenções instantâneas e marginais durante a reunião da Congregação. O núcleo central e o sentido da reforma, bem como sua abrangência, já estavam postos.

Decorrida a experiência, três notas devem ser registradas nos autos de resistência dos estudantes.

Em primeiro lugar, deve-se registrar a lição do poeta: “los derechos se toman, no se piden; se arrancan, no se mendigan”.

A segunda nota é que os ilustres professores não possuem uma consciência completa das circunstâncias que definem a função social do Instituto. Durante a reforma, foram desengonçadamente incapazes de responder às perguntas centrais: Qual o papel necessário para uma Escola de Economia, o que define uma Escola enquanto tal e qual a função do estudante formado em economia.

Por último, consta-se que este corpo estudantil, outrora tão arrasado pelo apego à rotina, tem manifestado, nos momentos mais dramáticos, a vitalidade necessária para se posicionar com autonomia e isto é o primeiro passo de nossa regeneração.

Daniel 03

MDE – Regional e Urbana

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