Jornal do CAECO

UNIVERSIDADE E TERRITÓRIO

Posted on: 10/02/2010

Conforme tomamos contato com o distrito de Barão Geraldo, percebemos alguns absurdos que acontecem por aqui. Os manuais de bixos e a inundação de publicidade pró-calouros divulgarão endereços e telefones de imobiliárias, escolas de idiomas, serviços de estética, alimentação, lavanderias, proteção patrimonial etc. Essa rede de consumo não atende apenas aos estudantes. Desde a chegada da Unicamp e principalmente nos últimos dez anos, Barão Geraldo se tornou um produto valorizado em termos de localização e qualidade de vida, atendendo aos anseios da comunidade acadêmica bem como de famílias bem- sucedidas que têm seus empregos e negócios na Região Metropolitana de Campinas. As conseqüências imediatas deste status geográfico são as aberrações da especulação imobiliária seguida pelo aumento no custo de vida. A paisagem mais próxima da Universidade já está dominada por kitnets (todas ilegais) que cobram às vezes mais de R$1000,00 mensais (e subindo!) por um espaço em que mal se conseguem dar três passos seguidos sem ser acometido por um móvel; e por casas maiores, feitas de repúblicas ou pensionatos, que necessitam de no mínimo dez moradores para cobrir os custos mínimos de aluguel, IPTU e afins. Os bairros mais distantes, como Vila Santa Izabel, Centro, Jardim América, Jardim Independência, Jardim Santa. Genebra etc. estão sendo arrastados pela onda de supervalorização dos imóveis que, aliada aos aumentos no custo de vida, expulsam moradores mais antigos que se deslocarão ou para a cidade de Campinas ou para Jardim São Gonçalo e Real Parque, já periferia de Barão Geraldo. Tudo isso deve servir de base para pensarmos do que se trata uma universidade pública, porque depositamos um esforço de vida por aqui e porque o resto da sociedade também deposita um esforço de vida para nossa manutenção neste local. O ideal de Universidade Pública atualmente predominante, e que encontrarão na UNICAMP, é o de benefício indireto à sociedade. Em uma frente, a comunidade acadêmica, detentora do privilégio, do tempo e do poder de estudar, refletir, sistematizar, produzir cultura e conhecimento. Para quem? Não importa. O conhecimento é algo bom e puro, que irá reverberar e inevitavelmente trará bons frutos a todos. De outro lado, os profissionais formados por aqui: fornalhas de mão-de-obra qualificada, instrumento de inovações, saltos tecnológicos e todo o kit globalização que é o nosso trem para o futuro! E não adianta bradarmos o slogan “Universidade Pública Gratuita e de Qualidade” nos sentindo revolucionários. Essas palavras de ordem conseguem conviver perfeitamente com tudo isso. Há um outro ideal, hoje frágil, que já abalou os marcos do poder da Universidade e até hoje os arrepia: a idéia de que vivemos em um latifúndio do saber, pronto a ser ocupado por aqueles indiretamente beneficiados por nossas conquistas. É a idéia de universidade pública como benefício direto de toda a população. População que faz da instituição uma praça e exige o direito de conhecer, de ser reconhecido, de produzir conhecimento. Exige também o fim das cercas, catracas e do preconceito da classe acadêmica. Exige que se possa ser pobre e andar por aqui sem a escolta e os olhos de lince da segurança do campus. Exige o contato e a preocupação da universidade com seu entorno imediato. Uma universidade aliada do seu território. O cenário pintado no início do texto serve à demonstração de como caminhamos na direção oposta: uma Universidade Pública em um condomínio fechado, hostil ao verdadeiro interesse público do povo e até mesmo à sua presença física (exceção: Hospital das Clínicas). Temos condições de influir nessa realidade? Sim, e as atividades de extensão nos dão uma boa pista de como isso é possível. Só não devemos comprar barato a idéia de que qualquer transformação está cerrada nos limites das guaritas e cercada de uma dúzia de mentes brilhantes.

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