Jornal do CAECO

Uma reflexão sobre a ‘Economia’ enquanto Ciência Econômica

Posted on: 10/02/2010

Boaventura de Sousa Santos, professor catedrático da Faculdade de Economia na Universidade de Coimbra, declarou em um artigo escrito em 1988 que “Vivemos num tempo atônito que ao debruçar-se sobre si próprio descobre que os pés são um cruzamento de sombras, sombras que vêm do passado que ora pensamos já não sermos, ora pensamos não termos ainda deixado de ser, sombras que vêm do futuro que ora pensamos já sermos, ora pensamos nunca vimos a ser”. Além desse pensamento se mostrar cada vez mais válido para o “estado do mundo”, atualmente é excepcionalmente válido para o estado da Ciência Econômica. Nos circuitos econômicos (academia, governo e mercado) reina a discórdia – Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, em 2008, na época acadêmico do M.I.T., concluiu em um artigo que o estado da teoria macroeconômica era ótimo; Alan Greenspan, presidente do FED de 1987 a 2006 e considerado por muitos o “maestro dos mercados”, declarou em outubro de 2009 estar atônito, que muito do que ele acreditava não se mostrava válido diante do que estava acontecendo com a economia mundial. Da onde vêm essa discrepância de declarações de pessoas que supostamente possuem a mesma linha de visão econômica, em um intervalo de apenas um ano, e a desilusão expressada por Greenspan? Proponho ser o “cruzamento de sombras”, a que Boaventura se refere, a causa da incongruência de idéias e da desilusão atual para com a ciência econômica Proponho também que a interpretemos como sendo combinação da confiança secular no método científico como prática central de geração de conhecimento, que nos faz pensar termos deixado para trás o tempo em que a natureza estava acima do homem, ao mesmo tempo em que cada vez mais tem-se a impressão que dela nada sabemos, juntamente com a excitação futurística advinda da percepção de que a economia enquanto ciência atingira seu ápice e seria capaz de explicar a realidade, moderar os mercados (o comportamento humano), e prever o futuro; práticas que parecem estar ao alcance mas ao mesmo tempo distantes.

Refiro-me por ‘método científico’ à combinação de conceitos resultantes da revolução iniciada por Galileu, Copérnico e Newton no século XVI. Pouco a pouco, os métodos e a consciência derivada dessa revolução – racionalidade plena, separação entre observador e o objeto, formulação de leis universais, causalidade, pontos de equilíbrio, experiências empíricas passíveis de repetição e comunicação através da matemática, entre outros conceitos – foram transbordando para as ciências sociais. Em primeira instância, Descartes e Bacon, principalmente, imprimem um caráter filosófico a esses conceitos, onde o homem passa a ter invariavelmente um determinismo mecanicista, utilitário e funcional. Agora a parte que mais nos interessa – a partir de Adam Smith no século XVIII, considerado o primeiro economista, utiliza-se do método científico para explicar o funcionamento da nova organização social que dava seus primeiros passos: o capitalismo. E através dos trabalhos principalmente de Ricardo, J. S. Mill, Malthus, Say, Walras e Marshall, nasce o corpo teórico da economia, enquadrada na “consciência objetiva” da revolução científica do século XVI, chamada de economia clássica e posteriormente neoclássica. Por outro lado, há também sempre a crítica, em que se propõe a introdução de fatores subjetivos na análise econômica. J. M. Keynes, em uma das obras-primas da teoria econômica – Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda –, utiliza o mínimo de funções matemáticas possível (inclusive, reservadamente expressava desconfiança no uso da econometria) e introduz a dimensão psicológica do ser humano como fundamental para a análise econômica. No entanto, mesmo introduzindo fatores subjetivos, essas teorias estão fundadas no mesmo paradigma científico do que as estritamente objetivas, por isso estão sujeitas às mesmas incongruências e desilusões. Estaria, então, a ciência econômica presa em um caminho sem saída? Minha resposta, felizmente, é não.

            Inicia-se no século XX uma nova revolução científica, ainda em curso. Iniciada por Einstein, com sua teoria da relatividade, e complementada por Rutherford, Schrodinger, Heisenberg e Bohr, os quais constituem a física atômica. Surge, com a conjunção das teorias, a Física Quântica.  O mundo-máquina herdado da física clássica, de repente se vê transformado em um mundo-continuum. Inviabiliza-se, principalmente: a visão de que a totalidade do real pode ser reduzida à soma das partes que dividimos para observar e medir, a distinção sujeito-objeto, e a certeza – pois a existência não é certa, apenas apresenta uma tendência a existir. A realidade se apresenta muito mais complexa do que aparenta ser, onde não é possível mais explicá-la se utilizando de conceitos clássicos e fica mais difícil ainda visualizá-la, pois estamos acostumados com uma percepção tri-dimensional. O mais interessante é notar que, aparentando ser novidade para a maioria da população, as conclusões da física quântica já eram conhecidas no oriente, originadas de introspecções espirituais desde aproximadamente o século XV a.C. Confira, primeiramente, a afirmação do físico Heisenberg (formulador do princípio da incerteza): “O mundo afigura-se assim como um complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes tipos se alternam e se sobrepõe, ou se combinam, determinando, assim, a textura do todo”. E agora a de um místico oriental: “O objeto material torna-se diverso do que aquilo que agora vemos, não um objeto separado, ao fundo ou ao meio ambiente, do restante da natureza mas uma parte indivisível e até mesmo, de um modo sutil, uma unidade de tudo aquilo que vemos”. Temos duas conclusões que dizem a mesma coisa sobre a natureza do universo, uma extraída usando o método racional e outra usando técnicas totalmente não-racionais apoiadas primordialmente na intuição.

            Além da física, a biologia também abandona progressivamente as noções estáticas, substituindo-as pelo conceito de processo. É conhecida de longa data, por parte dos biólogos, a afirmação “O organismo em equilíbrio é um organismo morto”.

            Diante destes fatos, fica evidente a quebra do paradigma clássico. O método científico não é invalidado, mas ele próprio valida outros meios para se extrair conhecimento da realidade (com ‘apenas’ alguns séculos de atraso). Obviamente surge uma nova concepção do mundo em que vivemos. No novo paradigma, a única certeza que temos é a da incerteza. E o conhecimento emergente tende a ser não-dualista, onde temos que abandonar as noções de natureza/cultura, esquerda/direita, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, observador/observado, sujeito/objeto, coletivo/individual, animal/pessoa…

Nesse sentido, por algumas vias, a economia tem participado da tentativa de construção de um novo paradigma. No entanto, esta tarefa não é nem um pouco trivial e diria que incômoda, pois os economistas têm que abandonar a maioria dos instrumentos com os quais estão acostumados – por exemplo, é necessário a introdução de novos tipos de matemática na análise econômica, que não se baseiem na geometria euclidiana, pois essa não pode ser aplicada a espaços curvos; a matemática dos fractais fica como uma alternativa. A Economia Evolucionária, que faz paralelos com a biologia, a Economia Comportamental, ressaltando aspectos inerentes à mente humana, e a Nova Economia Institucional (um dos seus fundadores, Oliver Williamson, dividiu o prêmio Nobel de economia em 2009), a qual internaliza fatores antes tidos como externos ao campo da economia, avançam no sentido exposto pela nova percepção de realidade.

            O avanço na construção de um novo paradigma, para diminuirmos a probabilidade de sermos incongruentes e experimentar (tantas) desilusões, é necessário um interesse maior, da nossa geração, pelo desenvolvimento teórico, superando a fundamentação clássica. O estudo econômico deve ser combinado com a filosofia do conhecimento, onde o estudo das coisas se combina com o estudo do estudo das coisas. Por fim, combinando também a razão, que a universidade nos oferece bem, e a intuição, que cada qual tem que buscar, pela introspecção pessoal, do jeito que preferir.

 

Guilherme B. R. Lambais (Marinho 04)

gbrlambais@gmail.com

 Agradeço os comentários e sugestões de Guilherme Gonçalves (Gui 04) e Gabriel Papaiordanou Elias (Gibi 06).

 Referências Consultadas

 Capra, Fritjof. O Tao da Física. 2ª Edição. São Paulo: Cultrix. 1983.

 Santos, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as Ciências na transição para uma ciência pós-moderna. Estudos. Avançados [online], vol. 2, n. 2, 1988.

 Referência Adicional

 Robbins, Leonel. An Essay on the Nature and Significance of Economic Science. London: MacMillan. 1932.

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