Jornal do CAECO

A natureza humana, existe?

Posted on: 10/02/2010

Tendo a acreditar que toda a discussão da ciência econômica (de juros, câmbio, inflação, investimento, emprego, renda, etc.) deveria ser precedida por uma outra – aliás, muito falha nos cursos de graduação em economia – a natureza humana existe? Ou não? Às vezes, e muitos acreditam nisso, pensa-se que essa não é uma discussão imprescindível. Alguns acham que é uma discussão da filosofia ou da psicologia e não econômica; como se elas pudessem ser dissociadas. Não acho que essa discussão deva ou possa ser esgotada e que se deva chegar a uma verdade absoluta. Aliás, considerar que as verdades são absolutas seria uma grande contradição para a discussão que pretendo instigar com este texto. Parto do pressuposto de que as verdades são construídas e não naturais. Nos primórdios da Economia Política, essa idéia, da natureza humana, ganhou bastante notoriedade. Entender o ser humano era um grande desafio e uma necessidade para se justificar as intensas transformações nos séculos XVII, XVIII e XIX. Dentro dessa discussão uma idéia – ou uma verdade – consolidou-se: a natureza humana existe. Além dessa conclusão, os pensadores da época ainda a caracterizaram: ela, a natureza humana, é instintiva e egoísta. No entanto, diferentemente dos outros animais, o ser humano por possuir a capacidade de raciocinar, poderia direcionar os seus interesses egoístas e as suas paixões impulsivas para o aumento do seu bem-estar individual, e por conseqüência do bem-estar coletivo, mesmo que para isso fosse necessário o controle duma instituição: o Estado. Para os economistas políticos essa seria então a justificativa para o momento de intensas transformações que vivia a Europa, em que o capitalismo consolidava-se e representava a organização de maximização do bem-estar do ser humano. Plausível. Mas limitada. Aí eu me pergunto: o ser humano sempre foi assim? E mesmo que as nossas fontes históricas não consigam comprovar que não, será que ele tem que continuar sendo assim? Há menos de 200 anos o trabalho escravo era legítimo no Brasil. Será que daqui a 100 ou 300 anos o trabalho assalariado ainda será considerado normal? A ciência econômica analisa a sociedade sem se questionar disso. Ou por ingenuidade, ou por clara convicção teórica. Em caso de ingenuidade, alerto: a ciência econômica, ao contrário do que alguns economistas pensam, não está isenta da lógica do Capital! É difícil imaginarmos, dado o nível de abstração, que o ser humano pode se sociabilizar de forma diferente. Não nego isso. Mas também não acho que devemos nos limitar a pensar o desenvolvimento do setor financeiro pós década de 1970 ou aceitar como pressuposto e verdade absoluta as conclusões filosóficas européias de outros séculos. O ser humano possui sim características típicas. Típicas do seu local, do seu tempo, da sua religião e do seu modo de produção. A chamada natureza humana não possui, portanto, nada de natureza. Ou se assim se quer chamá-la, ela é uma natureza não natural, totalmente mutável. O ser humano é socialmente construído e também constrói a sociedade. Se acreditarmos na natureza humana, somos impossibilitados de imaginar um novo tipo de sociedade. Tornamo-nos, assim, reféns de duas possibilidades dentro da ciência econômica: capitalismo com muita ou com pouca exploração.

Tél 06*

*Esvoaçando suas madeixas pela América Latina em busca dos ideais de Bolívar. Fazendo coro com sua mamãe, o aguardamos ansiosos em 2011. Diferentemente da sua mamãe, esperamos que ele volte com algumas boas idéias sobre “O que fazer?”.

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