Jornal do CAECO

A Falsa Dicotomia entre Ortodoxia e Heterodoxia nas Ciências Econômicas

Posted on: 10/02/2010

Leandro Ramos Pereira – Economista e mestrando em Teoria Econômica pela UNICAMP

                               Ao ingressarem no curso de Ciências Econômicas da UNICAMP os “calouros” normalmente são apresentados a uma discussão amplamente difundida na academia, nos centros de pesquisa e nas esferas políticas. Trata-se da discussão quanto às matrizes teóricas que norteiam as análises econômicas. De um lado, existiria a Ortodoxia e, de outro, a não-Ortodoxia, ou seja, a Heterodoxia.

Achamos a foto no sítio: hid0141.blogspot.com/2009/09/1968-o-ano-que-nao-terminou.html.  Registra barricadas armadas por estudantes em Paris, no ano de 1968. Como há entre os nossos os que acham que fazer greve na universidade é muito “radical” e outros que pensam que somos todos uma cambada de bunda-mole que deveria “radicalizar” ainda mais, aproveitamos o texto de “nosso veterano com alma” e o espaço que ficaria em branco para fomentar a discutição. E você, meu caro, o que pensa? Até que ponto a defesa da rotina e do calendário universitários é mais importante que o conteúdo das reivindicações estudantis?

De maneira geral e simplificada é possível afirmar que a matriz teórica da Ortodoxia é tal que permite a conclusão de que existem elementos próprios e intrínsecos à dinâmica do capitalismo que, levados ao jogo do livre mercado, ou se preferirem, da ”mão invisível”, permitem e facilitam um equilíbrio econômico no qual haveria a plena utilização da riqueza produtiva e toda a força de trabalho estaria empregada. Não obstante, este equilíbrio só poderia ser rompido em função de interferências externas, tal como a intervenção do Estado ou de sindicatos. Entre as características fundamentais desta matriz teórica estão a ênfase na análise do indivíduo racional[1] maximizador da utilidade e da firma individual maximizadora dos lucros, a ênfase no equilíbrio estático atemporal entre os fatores econômicos, a negligência dos fatores de incerteza, a negligência da existência de classes sociais antagônicas, e a ênfase nas formalizações matemáticas abstratas e complexas balizadas por pré-supostos econômicos simplificados.

Se foi relativamente fácil caracterizar os elementos teóricas e as conclusões a que chegou a Ortodoxia, será um tanto quanto mais difícil caracterizar a Heterodoxia. Como uma das formas de afirmar algo é negar o seu oposto, é possível, de início, afirmar que a Heterodoxia é, retoricamente, a antítese ou a negação da Ortodoxia.  Dito de outra forma, a Heterodoxia compreende um conjunto relativamente expressivo de outras correntes teóricas que a melhor forma de apresentá-la é dizer que sua característica essencial é ser um contraponto às formulações e conclusões a que chega a Ortodoxia. Sendo assim, esta primeira caracterização abre-nos as portas para afirmarmos que, de forma geral, a Heterodoxia nega a conclusão central da escola Ortodoxa de que o livre jogo dos agentes mercantis é capaz de levar a economia capitalista, por si só, ao bem estar social, ou seja, ao pleno emprego da força de trabalho e ao nível máximo de renda e de produção. Ademais, alguns negam até possibilidade do bem estar social e coletivo de modo contínuo e permanente dentro do capitalismo, mesmo com a intervenção do Estado, como é o caso dos socialistas.

Contemplando um espectro relativamente amplo de correntes teóricas, que vai da escola keynesiana à escola marxista, nas matrizes teóricas da Heterodoxia encontram-se métodos e pré-supostos variados tais como ênfase na análise agregada e na visão de totalidade da economia, a crença na existência de incerteza econômica[2] e de falhas de mercado, a crença na existência de classes sociais e de sua assimetria, e o uso da história[3] e a ênfase nas particularidades estruturais da cada país como forma de entendimento da realidade socioeconômica.

                Mas, no entanto, nos cabe indagar se esta divisão esquemática entre ortodoxia e heterodoxia realmente nos ajuda a entender os posicionamentos práticos e teóricos dos economistas. Dito de outra forma, a divisão entre economistas que acreditam no livre mercado e de economistas que acreditam na necessidade de intervenção do Estado é suficiente para entendermos a real postura dos economistas quanto aos efetivos problemas existentes em um país como o Brasil? Assim, para respondermos a esta pergunta, é necessário sabermos, em primeiro lugar, quais são os principais problemas socioeconômicos do Brasil, e, em segundo lugar, quais são, qualitativamente, as formas de intervenção do Estado.

Segundo a boa parte dos economistas, um dos maiores problemas socioeconômicos existentes no Brasil é a enorme concentração de renda, o que faz deste país ser um dos mais desiguais do mundo, levando a maioria da população a uma situação de relativa pobreza. Soma-se e integra-se a isso o desemprego e a enorme informalidade, a falta de educação e saúde pública de qualidade, o caos urbano e a falta de infra-estrutura pública e popular nas cidades. Ademais, a relativa situação de dependência econômica e a conseqüente perda da identidade nacional também contribuem para proliferação da violência e da barbarização das nossas estruturas sociais.

Se para a corrente ortodoxa a abertura econômica, as desregulamentações, as desestatizações e a integração da economia brasileira no processo de globalização produtiva e financeira seriam capazes de resolver por si só boa parte destes problemas, para a corrente heterodoxa o Estado tem um papel essencial na correção destas mazelas.

Existem, entretanto, entre os economistas que acreditam na presença do Estado, divergências quanto às formas de intervenção que o mesmo possa assumir. Há aqueles que acreditam que o Estado deve intervir apenas na esfera econômica, controlando os juros e câmbio, fazendo políticas de proteção industrial e de estímulo às exportações, incentivando os por meio do crédito os novos e promissores empreendimentos. Muitos destes crêem que o crescimento econômico por si só é capaz de aumentar a riqueza produtiva e a renda real de toda população, estimulando, desta forma, o desenvolvimento econômico e social. De outro lado, notamos a existência de economistas que acham que o crescimento econômico por si só não é capaz de resolver os reais problemas da sociedade, que o Estado deve ter uma intervenção social mais direta, estimulando políticas distribuição de renda, focando políticas públicas corretivas que melhorem significativamente a vida da população mais pobre. Para estes, o crescimento econômico deve ser visto de forma qualitativa e não apenas quantitativa. Assim, se torna necessário saber se tal crescimento aumentou a renda da população

mais oprimida, ou se, pelo contrário, ele contemplou as classes mais abastadas, aumentando, assim, a desigualdade entre as classes sociais.  Reforma agrária, taxação das grandes fortunas, reforma tributária progressiva, aumento dos gastos em saúde e educação são exemplos de políticas públicas propostas por esta corrente de economistas.

Sendo assim, poderíamos afirmar que existiriam dois tipos de economistas: aqueles que acreditam que a esfera econômica, com ou sem a presença do Estado – ortodoxos e parte dos heterodoxos – seria capaz de resolver os reais problemas da nossa sociedade, e os economistas que pensam que o Estado deve atuar de forma mais direta, atacando as estruturas de reprodução das desigualdades na sociedade. Politicamente, a diferença entre os dois tipos de economistas é que o primeiro acredita que se deve conservar o status quo da classe dominante, enquanto que o segundo acredita que para existir de fato igualdade social, o status quo da classe desprivilegiada deve se elevar, mesmo em detrimento da classe mais abastada. Enquanto os primeiros escondem ou tentam aliar os interesses e os conflitos, os últimos explicitam tais interesses, que são, em muitos casos, antagônicos. Enquanto os primeiros sobrepõem o direito à liberdade e à propriedade aos princípios da igualdade, os últimos crêem nos direitos sociais e nos princípios da igualdade como a única forma de haver de fato liberdade.

Exemplificando, no início dos aos 70 o Brasil viveu um período de grande crescimento econômico, denominado de “Milagre Econômico”. Naquela época, o então ministro da fazenda, Delfim Neto, utilizou diversos mecanismos heterodoxos para estimular a atividade econômica tal como o controle direto inflação, a queda da taxa de juros e incentivo ao crédito e às exportações. A conseqüência foi um crescimento considerável do setor industrial, aumentando assim a riqueza produtiva e a renda real brasileira. No entanto, apesar do relativo sucesso econômico, a concentração de renda naquele período se elevou. A rápida e caótica urbanização sem um planejamento prévio estimulou a proliferação de favelas e cortiços nas grandes cidades, criando um mar de pobreza em meio à abundância econômica do período. Logo, não se pode negar que tal crescimento econômico favoreceu a modernização dos padrões de consumo das classes altas, em detrimento da qualidade de vida dos mais necessitados.

Portanto, os “calouros” devem se alertar quanto à falsa dicotomia entre Ortodoxia x Heterodoxia. Em muitos casos, esta divisão pode até confundir do que explicar. Sendo assim, propomos uma outra clivagem. Dividamos os economistas entre os Conservadores e os Progressistas. Conservadores – ortodoxos e parte da heterodoxia – seriam os economistas que crêem que a atividade econômica e a ação estatal não podem interferir na vida socioeconômica das classes dominantes, conservando assim, o seu status quo; e Progressistas -o que sobrou – seriam os economistas que acreditam que a atividade econômica e a ação estatal devem intervir nos interesses entre as classes, privilegiando as mais oprimidas, de forma progredir para uma sociedade mais justa e igualitária.

Anúncios
Tags:

4 Respostas to "A Falsa Dicotomia entre Ortodoxia e Heterodoxia nas Ciências Econômicas"

Esse artigo é diferente de muitos outros encontrados na internet pois explica de forma simples a diferenciação entre as duas classificações de economistas, ao meu ver está muito claro o artigo…

Parabéns.

Artigo muito bom, parabéns.
Só não sei se rotular os economistas seja uma boa ideia…
pode haver economistas que não se encaixem bem nas duas correntes: pode ser que alguns deles defendam uma tributação mais progressiva mas seja contra a reforma agrária, por exemplo.
Mas é claro que ortodoxos x heterodoxos também é bem impreciso, já li artigos que chamam neoricardianos de heterodoxos, colocando-os junto com pós-keynesianos, apesar da definição pela negação, as diferenças entre eles são inegáveis. Como foi exposto no artigo, a heterodoxia não é homogênea.
A explicação simples e direta do artigo o tornou muito bom mesmo, mas penso que os cursos de economia poderiam expor mais sobre as várias outras escolas como marxistas, austríacos, entre outros.

Em geral os que se consideram “heterodoxos” são economistas envergonhados de se chamarem neo-clássicos, devido já se ter descoberto a aberração dos princípios que comandam a escola neo-clássica.Esses economistas continuam a ser neo-clássicos, embora neguem esse fato.

É uma forma ORTODOXA de ver a questão.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: