Jornal do CAECO

Posted on: 10/02/2010

Caras(os) ingressantes, recebam meus cumprimentos por terem sido aprovadas(os) – por circunstância ou por vontade, não importa – no curso de economia. Com implicações muito mais profundas do que poderiam ser expostas aqui, ao serem formadas(os) economistas, vocês serão investidas(os) de um poder sacerdótico. Sacerdótico porque o domínio do discurso econômico, no nosso tempo, representa poder de legitimar ou deslegitimar ações e aspirações em larga escala. É por isso que vocês, enquanto economistas, serão chamados a conceder veto ou chancela a toda e qualquer iniciativa de interesse social. Por isso, para que a ingenuidade não seja seu método de atuação enquanto economistas, permitam-me chamar-lhes a atenção para a impossibilidade de se discutir economia sem discutir política, porque é impossível separar o argumento econômico dos interesses sociais que os motivam, seja num órgão de Estado, numa multinacional ou numa sala de aula. Em segundo lugar, convém alertar que existem diferentes disciplinas econômicas, ou vieses, que inspiram diferentes interpretações econômicas da vida social. Em função dessas diferentes perspectivas se racionalizam as teorias que vão compor isso que chamamos de Ciência Econômica. De maneira geral, existem três grandes Escolas de Economia que organizam os cursos universitários. Toda e cada uma com uma monumental carga ideológica, toda e cada uma cunhada para responder a dilemas específicos. Falemos sobre elas e sobre aquela em que vocês se meteram e serão herdeiros (renegados ou não, renegando ou se investindo). Da direita para a esquerda, começamos com a Neoclássica. É a Escola mais influente no mundo e tem, no Brasil, expressão máxima na influente escola da PUC-RJ. Apresenta-se como uma ciência politicamente neutra porque racionaliza pessoas, as relações entre pessoas e a sociedade com toda a frieza do cálculo matemático. É a Escola do individualismo e do livre-mercado, e foi através dela que se justificou, com razão científica, porque tantos, com tão pouco, devem tanto aos poucos que deles tomaram tudo menos o fardo de uma vida explorada. A Escola seguinte se apresenta como uma tentativa de disciplinar as injustiças de um sistema em si e para si injusto. Presta tributo à crítica do britânico John Keynes aos economistas do livre-mercado e por isso é denominada Keynesiana. Sua principal característica é negar o individualismo do livre-mercado como forma mais eficiente de se organizar um sistema social de exploração. Assim, seria necessária ação contundente de uma instituição capaz de dar coerência ao progresso econômico e coordenar a repartição de seus frutos: o Estado. Uma expressão importante dessa vertente é a escola-irmã da Unicamp: UFRJ. Por último, temos a Escola Marxista, cuja principal expressão que me ocorre, no cenário desolado da derrota, é a Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). É uma escola extremamente perigosa e que a gente grande tende a deixar fora do alcance de crianças. Perigosa porque denuncia que vivemos sob o conflito de uma sociedade dividida entre os que têm capital e os que por eles são explorados através de uma compulsão ao trabalho. Sua principal promessa – não cumprida – é a de que a injustiça não é o destino incontornável de nossa História, e que a obsessão econômica que tira dos homens e mulheres sua humanidade não é o único caminho através do qual as pessoas podem se colocar frente a frente. O Instituto de Economia da UNICAMP, que se convencionou chamarmos Casa, herança que agora lhes cabe, mas cujo destino final não lhes é alheio, possui uma forte inspiração keynesiana e suspira, agonizante, suas últimas dores marxistas. Esta que exerceu a mais forte e contundente crítica ao neoliberalismo e se consagrou em tempos sombrios por emprestar seus quadros à defesa dos sindicatos, da reforma agrária, da autonomia nacional e da coisa pública não escapa ao movimento mais geral que se abate sobre os cursos de economia e, portanto, sobre a formação dos sacerdotes de nosso tempo: o deslocamento à direita. As(os) aprendizes de feiticeiro e as(os) comedidas(os) podem se tranquilizar, pois essa mudança é muito conveniente para carreiras glamurosas. Agitadoras(es), párias e traidoras(es), recebam nossos cumprimentos mais cheios de comoção e estima.                                                         

De um veterano com Alma

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