Jornal do CAECO

Este blog é um espaço aberto para se discutir a Universidade, o Instituto, economia e temas relacionados.  Ele está à disposição de todos(as) os(as) estudantes e ex-alunos(as). Todas as contribuições serão postadas pelos editores sem qualquer restrição de viés. Para isso, elas devem ser enviadas para caecounicamp@gmail.com ou deixadas com algum membro da chapa.

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Grande economia: veredas

 

Tirando aqueles casos de eremitas, psicóticos ou usuários constantes de drogas muito pesadas, para todos os fins, vivemos em sociedade. Sem entrar na discussão dos efeitos que essa sociedade tem sobre nós, ou que a gente tem sobre ela, o fato é que para nós, reles mortais que coabitamos esse Instituto de Economia, toda a dinâmica da nossa vida tem a ver, pelo menos um pouco, com a dinâmica da nossa sociedade. E portanto, quase tudo o que fazemos envolve nos comunicarmos com outras pessoas. Afinal, a comunicação é um elemento básico da vida em sociedade, qualquer que seja ela.

Na nossa sociedade judaico-cristã-ocidental-brasileira-de-ordem-e-progresso-sim-sinhô, no entanto, acontece algo bastante curioso: a comunicação é feita através de uma coisa chamada dinheiro. O dinheiro fala, e parece poder ocupar o lugar de todos os outros tipos de comunicação. Mais do que fala, o dinheiro se escuta. Se eu preciso de um teto ou de um prato de comida ou de um livro, e vou pedir encarecidamente a alguém que me ajude, é muito provável que eu não consiga nada. Mas se eu chego com dinheiro, mesmo que eu não precise, consigo o que quiser. Ou pelo menos é isso que me contam por aí. Não se escutam as necessidades, se escuta a possibilidade de pagar por algo. Nessa história, acontece que ninguém mais tem que saber fazer as coisas, mas sim tem que “saber comprar”, ou seja, saber ganhar dinheiro. E a gente acaba não tendo certeza se aprende ou se compra, se olha no olho ou se paga.

 

É nesse mundo onde a língua universal é o dinheiro que se situa nosso curso de economia¹, bem como toda a universidade. Outras comunicações estão presentes, mas parecem sempre estar em segundo plano, e serem impraticáveis quando não há dinheiro para mantê-las. Mas atenção, é essencial entender que “haver ou não dinheiro para tal coisa” nunca é simplesmente uma questão técnica, mas envolve sempre as prioridades de quem maneja o dinheiro.

Por exemplo, muitas outras pessoas gostariam de ingressar no curso economia da Unicamp esse ano, e têm todo esse direito, assim como nós. Afinal, educação é um direito universal, não um direito exclusivo das 105 pessoas que obtiveram os primeiros lugares na prova da Comvest. Mas por milhares de motivos, muitas dessas pessoas ficaram de fora (e o pior, muitas acreditando que a culpa é exclusivamente sua). E a maioria delas vai continuar de fora, tendo que pagar pra fazer seu curso, ou simplesmente tendo que desistir dessa idéia. Infelizmente, ainda vivemos num país onde a grande maioria dos jovens não freqüenta ensino superior, embora eu não tenha dúvidas de que isso não é uma escolha.

 

“Mas por que isso, caramba?”, eu perguntei uma vez pro reitor, na fila do suco do bandejão. Ele me respondeu a velha história de que “não há dinheiro para mais vagas”. Aí eu fico pensando. Será mesmo? Na Argentina, para entrar na universidade pública gratuita (e muito boa, por sinal), só precisa se inscrever, e você tá dentro². Inclusive muitos brasileiros que não conseguem estudar aqui acabam indo estudar lá, em Buenos Aires, Córdoba, La Plata. Lá, pra entrar na universidade é preciso que você tenha terminado o ensino médio, e só. Não tem vestibular. Quem quer estudar está automaticamente dentro da universidade. E acontece que o PIB da Argentina é menos de um quinto do PIB brasileiro³. Mas acontece também  que lá, a educação universal é uma prioridade.

“E então reitor, como tu me explicas essa doidera?”, eu tornei a perguntar. Mas ele já tinha colocado o fone de ouvido e fingiu que não me ouviu falar.

 

No nosso curso de economia, aprendemos que dinheiro também pode ter outros nomes, e um deles muito usado em microeconomia é “Bem-estar”. Nos ensinam então que quanto mais dinheiro, mais bem-estar, e portanto nossa missão como economistas deve ser maximizar o dinheiro, ou o bem-estar. Ou o quê?

 

NÃO, ISSO NÃO É A ECONOMIA IMPORTANTE.

 

Pelo menos não pra mim (e vocês terão a vida inteira para refletir as suas próprias concepções sobre esse e tantos outros temas).

 

O QUE IMPORTA DE VERDADE, SEMPRE E EM QUALQUER OCASIÃO, SÃO AS PESSOAS.

E disso eu tenho certeza. E é isso que significa uma ciência humana, como é necessariamente o caso de economia.

Se vamos especificamente pensar a materialidade da vida* e como ela se reproduz socialmente (o que inclui coisas como  produto, consumo, oferta, demanda, renda, mercadorias,  ativos e passivos externos líquidos, e tudo o mais que vocês vão cansar de ouvir nas salas do IE), é com um único e exclusivo objetivo: pensar de que forma essa materialidade se relaciona com a vida das pessoas, e de que outras formas elas poderiam se relacionar.

 

 

A palavra “economia” vem do grego, significando originalmente algo como “norma do lar”, o que eu entendo como “reprodução da vida material”.

Acontece que a materialidade é só um dos múltiplos aspectos da vida humana, nosso real objeto de interesse como “cientistas humanos”. Sem dúvida, é um aspecto fundamental, mas que por si só não determina se alguém terá uma vida feliz e digna, uma vida mais completa e menos vazia, e nem mesmo menos sofrida.

É aí que entra a sabedoria dos cientistas humanos sensatos, de enxergar até onde essa tal de economia faz sentido, e entender que na verdade ela só faz sentido se for pensada junto e ao mesmo tempo que os outros aspectos da vida humana. Afinal, não adianta ter comida, casa e roupa pra vestir, se não se está bem emocionalmente, corporalmente, psicologicamente, transcendentalmente até; se não se sabe relacionar consigo mesmo ou com a coletividade de que participamos (alguns vão chamar isso de política).

 

Pra mim, essa compreensão é a busca que esse curso pode te ajudar a fazer. Mas como qualquer curso, ele é absolutamente limitado. É imprescindível estar também fora do instituto de economia. Se esforçar ao máximo para conhecer e conviver com pessoas de outros institutos. Se possível, freqüentar outros institutos, acadêmica e não-academicamente. E estar também fora da universidade. Afinal, ela não faz o menor sentido se não for pensada na sua relação com o “resto” da sociedade, que inclusive é quem a banca.

 

Por fim, é essencial pensar no mundo para além de o que a Economia nos propõe. Pensar num mundo onde nos comuniquemos não pelo dinheiro, mas por nós mesmos, diretamente. Um mundo que precisa ser construído também por nós mesmos, diretamente. Um mundo mais justo, mais sincero, mais bonito.

                Um mundo mais vivo, onde seja claro que o que mais importa são, e sempre foram, as pessoas.

                E construir esse outro mundo vai ser difícil, e vai ser uma luta. Porque apesar de parecer absurdo, muita gente insiste em querer manter o mundo como ele está**.

Mas essa construção não vai começar em outro lugar senão bem aqui, no nosso encontro, em nosso dia-a-dia, e em tantos encontros que acontecem agora mesmo, em toda a cidade de Campinas, em todo o país, em todo o mundo.

Existem infinitas ferramentas para participar dessa construção, e todas elas envolvem a organização de pessoas autônomas com objetivos em comum. O Centro Acadêmico, no nosso caso o CAECO, é uma delas. Os grupos de extensão universitária, outra. Os movimentos sociais, mais uma. Os grupos de estudo, grupos de trabalho, e muitas outras organizações dentro da universidade e fora dela também podem vir a ser ferramentas interessantíssimas. Mas é preciso lembrar que, em qualquer caso, o que se busca é uma ferramenta para determinados objetivos, e não um grupo que tenha um fim em si mesmo. 

 

E sempre, em qualquer hipótese, sem esquecer do fundamental:

O que importa são as pessoas.

 

Sejam todos e todas muito bem-vindos à Unicamp, ao IE, e a todas as coisas pra além disso (que eu realmente recomendo que vocês participem)!

Se você é como eu era ao entrar, e acredita que o difícil era o vestibular, saiba que ele é só mais uma etapa, e que difícil mesmo é pensar no “e agora”.

Você é uma pessoa adulta, com todas as responsabilidades e belezas que isso traz. E com uma infinidade de caminhos pra trilhar à sua escolha.

Humildemente eu recomendo que você siga o caminho que te parecer mais humano, mais sincero e mais coerente, coerente com o que você acredita, e com esse mundo incrível e cheio de problemas que te rodeia.

 

Você, ingressante, está convidado (ou convidada) a lutar pela construção coletiva de um novo mundo.

 

 

 

 

 

¹que apesar de estar cada vez mais próximo do ensino de economia tradicional, ainda é um dos, se não o curso de economia mais crítico desse nosso Brasil

 

²para quem se interessar sobre como nossos hermanos conseguiram uma conquista tão importante, informem-se sobre o manifesto de Córdoba de 1918. Ele inclusive está disponível (em espanhol) no blog do caeco, https://ieunicamp.wordpress.com

 

³Para o ano de 2010, em dólares. O PIB per capita argentino também é menor que o brasileiro. Dados do Banco Mundial.

 

*com “materialidade da vida” quero me referir a tudo o que necessitamos fisicamente para sobreviver, como comida, roupa, transporte, remédios, casa, eventualmente uma massagem no ombro porque ninguém é de ferro, etc

 

** é a tal história de que o dinheiro, e também o medo, falam muito alto na nossa sociedade.

 

OBS: perdão a todxs que consideram importante tentar adequar a linguagem a um universo não machista. Usei a maioria das expressões referindo-me a ingressantes no masculino simplesmente por não saber como fazê-lo de outra forma cabível aqui.

 

 

 

                               Bernardo Heer

estudante do instituto de economia da Unicamp e

apaixonado por aquilo que ele mesmo considera economia.

 

Ricardo de Medeiros Carneiro
Ao longo do processo de discussão e implementação da reforma da pós-graduação do IE e, recentemente, com a definição do corpo docente cadastrado na CAPES em reunião da Congregação, os critérios pelos quais esta instituição avalia os cursos de pós-graduação têm sido um tema de discussão recorrente. Nestas notas, sem a pretensão de tratar exaustivamente do tema, procura-se levantar alguns aspectos controversos desses critérios no que tange especificamente à área de Economia. Seu objetivo maior é estimular a discussão e a apresentação de novas contribuições para o aprofundamento do diagnóstico sobre um tema crucial para nossaatividade como professores e pesquisadores.

 

———- Mensagem encaminhada ———-
De: <mctavares@>
Data: 20 de junho de 2011 16:26
Assunto: Apoio
Para: carneirordm@
Cc: mlaplane@
Caro Ricardo Carneiro
Soube de sua candidatura a Diretor do nosso instituto de Economia e estou lhe mandando o meu apoio entusiástico.
Boa campanha e boa sorte.
Com o abraço da amiga
Maria da Conceição Tavares
C/c ao diretor do IE/Unicamp
Prof. Dr. Mariano Francisco Laplane.

POR QUE MARCHAMOS?

No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos.

Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e estupradas por vários homens ao mesmo tempo durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…todas merecemos respeito!

Tolhido se fez
Inocentemente camuflado manteve-se
E assim ficaria até que percebesse.
 Vislumbrou a dicotomia
Perguntou se certo e errado
E surpreso ficaria quando entendesse que tanto fazia.
 Importante era defender
Criticar
Pensar
Colocar
Tentar
Incluir
Debater
Agir
Metamorfosear tudo em verbo; em ação
Mesmo que considerada uma DERIVAÇÃO IMPRÓPRIA.
 Agora se deparava com a dúvida geral em questão, como vai promover a INTEGRAÇÃO quem não considera a DERIVAÇÃO?

  Newton e Leibniz

            Há menos de um ano atrás, estudantes do Instituto de Economia mobilizaram-se contra a efetivação de uma delação requisitada pela reitoria ao diretor do Instituto de Economia, Mariano Laplane. A instância máxima de poder dentro da universidade buscava nomes de responsáveis pela realização de uma festa no campus, o “Encontro de Baterias”, que tradicionalmente ocorre no Teatro de Arena.

            A cruzada contra as festas caminhava a passos largos. O IFCHSTOCK, maior festa realizada no campus, foi definitivamente proibido no mesmo período. A Polícia Militar ordenou a retirada de todo o material que estava armazenado dentro das dependências do Centro Acadêmico de Ciências Humanas. Não mandou recado. Fez isso presencialmente, e durante uma tarde o que se viu foram dezenas de estudantes carregando milhares de cervejas para fora da Unicamp. Aquela cena marcou, para aqueles que viveram outros tempos, o fim de um projeto de integração dos estudantes entre si e da universidade com o entorno. Um projeto construído, com todas suas contradições, deficiências e limites, pelo movimento estudantil, por jovens que viam a Festa como oportunidade política, para além da retórica dos partidos, dos movimentos, do hoje tão repugnante “esquerdismo”.

            Por esse motivo, o IFCHSTOCK ficou conhecido como a MANIfesta. O fato de ocorrer no espaço público, e ser concebido por aqueles que valorizam este espaço (não em termos contábeis, ou estratégicos, mas em termos de formação cívica, moral, da gestação do respeito e da tolerância frente ao diferente), fazia com que nestas festas fosse fortemente desestimulada qualquer atitude opressiva, seja em relação às mulheres, aos homossexuais, aos gordos e gordas, feias e feios, negros, índios, pardos, pobres etc. Essa concepção de encontro no espaço público reverberava de certa forma para todas as outras festas realizadas na Unicamp. Nesse contexto, muitos mudaram suas concepções. Muitos conheceram pessoas diferentes de si e as entenderam. Beberam cervejas juntos, conversaram juntos, embora isso parecesse impossível caso o isolamento do privado nunca tivesse sido rompido. Não descrevo aqui um conto de fadas, só quero deixar claro que essa era uma oportunidade aberta aos universitários: rever, a partir da utilização do espaço público, suas concepções de classe, seus preconceitos, suas ideologias, a dimensão de sua visão de mundo. Do ponto de vista acadêmico, essas atividades sempre concentraram um gigantesco potencial de fazer valer a universidade como universidade, e não como coleção de especificidades.

            A convivência com as celebrações privadas sempre ocorreu. No caso do IE, elas são majoritariamente representadas pelos jogos universitários, com todas as suas contradições e limites. Nestes eventos, as preocupações com o caráter coletivo e público sempre foram muito pouco respaldadas, embora possamos sim encontrá-las nas atitudes de determinados participantes. Entretanto, são poucos. A maior fonte de diversão são as diversas esferas de concorrência e competição (a melhor equipe, a melhor torcida, o mais bêbado, o mais “causador”, o mais pegador…) e geralmente isso leva a reforçar padrões grotescos de sociabilidade e incitar a reprodução dos signos de “superioridade” tão fortes em nossa sociedade (o machismo, a homofobia, a humilhação, a segregação, o preconceito).

            Há dois dias duas estudantes denunciaram essa faceta dos jogos universitários e das festas. Expuseram provas concretas de como se manifestam entre os estudantes e trouxeram outros casos de igual relevância (o “rodeio das gordas”) para questionar: qual o limite de nossa tolerância? Até que ponto admitiremos sem problematizar, sem se incomodar? Até que ponto a conivência não é uma forma de responsabilidade? São essas perguntas que eu gostaria de ver respondidas não só pelos estudantes, mas pelo diretor do Instituto e por outros que sempre consideraram um absurdo a universidade acolher festas, manifestações culturais, acolher as diferenças.

            O que as eleições do CAECO tem a ver com isso? Tudo. A frieza que o ambiente universitário impõe, em suas relações para dentro e para a fora, faz crescer o discurso de que a integração deve ser atomizada. Deve ser uma “integração separatista”, uma integração para dentro (fascimo). Estar próximo a outros estudantes, a outros setores da sociedade, não é integração, é divórcio da sua função bem definida na burocracia acadêmica. As novas gerações de estudantes, na ausência de um outro testemunho do que seja integrar, devem estar atentas a essas concepções fracas e vazias de conteúdo e construir, na medida em que acumularem forças, novos significados para esses termos. Boicotar jogos e festas poderá ser uma consequência, mas deve ser uma consequência refletida, consciente, crítica e não apenas rebelde. Vivi isso quando busquei “sair” do IE em busca de ar fresco, de liberdade, de afetividade, de amor. E vi que dava tempo de apostar em outros valores, se despojar das bestialidades que estão por aí. Sempre há tempo para o verdadeiro diálogo (o diálogo que é feito com amor, carinho e esperança, não o diálogo defensivo que o preconceito clama para se justificar).

            Por fim, devemos ter em mente o aspecto estrutural de todo esse processo e questionar a concepção das instâncias de poder do que é público e o que é privado. Os estudantes que tanto prezam pela diversão e integração dos alunos do IE estão, por linhas tortas, selando um pacto de mediocridade com as instâncias de poder onde são eles mesmos que perdem, ao não explicitar os problemas crônicos de que padece a Universidade e que tem relação direta com a nossa saúde física e psicológica neste lugar.  Neste contexto, a solução é fazer uma festa aqui, outra acolá. Que me perdoem arautos da masculinidade, mas essa verdadeira pagação de pau para a universidade e para o sistema como um todo é das coisas mais broxantes que podem existir.

 Em apoio a Daphnae e Flávia,

 Taufic 06

Hay hombres (e mulheres) que viven contentos aunque vivan sin decoro. Hay otros que padecen como en agonía cuando ven que los hombres (e mulheres) viven sin decoro a su alrededor. En el mundo ha de haber cierta cantidad de decoro, así como ha de haber cierta cantidad de luz. Cuando hay muchos hombres (e mulheres) sin decoro, hay siempre otros que tienen en sí el decoro de muchos hombres (e mulheres). Esos son los que se rebelan con fuerza terrible contra los que les roban a los pueblos su libertad, que es robarles a los hombres (e mulheres) su decoro. En esos hombres (e mulheres) van miles de hombres (e mulheres), va un pueblo entero, va la dignidad humana. Esos hombres (e mulheres) son sagrados.

Martí 

Dentre as diversas formas de ser sórdido, uma das mais esquivas é pelo uso da anedota, porque ela agride e desautoriza os ofendidos a reagir contra ela.

Duas estudantes do IE e militantes do coletivo feminista Pão e Rosas publicaram um artigo no Jornal do CAECO (ieunicamp.wordpress.com) no qual elas primeiro afirmam a existência de uma ideologia de violência contra mulher na sociedade e, posteriormente, apontam como a mesma coisa se verifica no ambiente universitário específico do Instituto de Economia da UNICAMP: contra alunas e contra funcionárias.

O ponto herético foi criticar o jogo universitário, o evento religioso mais importante no calendário da Atlética. A prática esportiva, nunca deixa de ser, também, uma prática lúdica e cultural. E as dimensões culturais possíveis passam por várias possibilidades construtivas ou não. Nossa intocável entidade reproduz – embora não precisasse – uma espécie de High School Musical do ensino superior.

A crítica feita por elas é a forma como a premissa do esporte é apropriada para reproduzir uma cultura de coisificação e violência contra a mulher entre os estudantes. E a excelente denúncia do machismo é forte, porque ela é notada no seio da insuspeita elite rica, branca, educada, cristã, é dirigida aos seus filhotes irrepreensíveis.

No imaginário machista circulam dois estereótipos categóricos e definitivos sobre a condição da mulher: submissa ou desvairada. A mulher que não se coloca na sua posição de adequação ao homem é a mulher louca que transtorna as relações e o seu lugar social.

A reação ao artigo foi brutal, ferocíssima, infame. No mesmo espaço se registraram inúmeras respostas – a maioria anônimas, outras não – com apologia explícita e chocante da violência contra mulher em geral e contra as duas em específico.

Na noite do dia 20/06 o coletivo Pão e Rosas da qual fazem parte, organizou um ato de exposição – prática recorrente da luta desses grupos – da violência que foi dirigida como resposta ao texto. Houve, por um lado, difusão pública da resposta nominal mais emblemática, registrada no espaço de comentários do Jornal, feita por Renato César Martins Pinto, estudante do curso noturno: “Uma mulher que não sabe diferenciar um hino universitário de estupro, espancamento ou qualquer outra forma de violência realmente merece ser subjulgada.” (sic). (Que fique claro, existem inúmeras outras respostas tão ou mais graves registradas anonimamente ou não no mesmo espaço).

Por outro, houve a coleta de assinaturas para uma nota pública de repúdio ao machismo na universidade, acompanhada da uma discussão conduzida pelo grupo para problematizar a questão, principalmente, entre as mulheres do curso.

Dessa vez a reação foi algo mais que brutal, ferocíssima e infame porque foi temperada com a reação das duas chapas em disputa pelo Centro Acadêmico do Instituto.

A chapa composta por ex-membros da Atlética, uma chapa situacionista porque não propõe o enfrentamento de nenhuma das várias questões críticas que permeiam a universidade, partiu em defesa da vítima: o estudante Renato. Isso mesmo. O estudante que estava sendo constrangido e se tornou um mártir do sacro-direito de subjulgar (sic) uma mulher.

Os advogados de defesa argumentaram por dois lados. Primeiro, ele tem o direito de manifestar suas convicções. Segundo, as agressoras, desvairadas, estavam criando um verdadeiro escândalo com base em exagero e manipulação de agentes subversivos soviéticos estudantes do IFCH. De fato, existem estudantes do IFCH no coletivo Pão e Rosas, o que especialmente causa ojeriza nos estudantes do IE, mas também há estudantes de outras faculdades. Todos eles estavam presentes enquanto parte do coletivo.

Bem, há quem diga que a movimentação toda consistiu num golpe eleitoreiro. Não foi. Antes tivesse sido. Explico.

A posição da outra chapa foi explicitamente: a) não intervir, porque não era um problema especificamente dela, apesar de possuir uma pauta contra opressões em sua carta-programa, tratar-se de colegas e alunas de/em seu Instituto; b) não intervir para não ter sua credibilidade de maneira nenhuma associada ao ato das estudantes, à presença de estudantes do IFCH no IE ou atritos com a sacra-atlética.

Por sorte, os oprimidos não precisam da sensibilidade de terceiros para expressar indignação contra seus opressores. Qualquer cultura é difícil de mudar, principalmente uma cultura opressiva. Mas se é possível, a mudança certamente passa por uma reação à violência, por uma exposição dos agressores e pela expressão legítima da indignação das pessoas ameaçadas.

Mas o que se vê, contudo, é uma reação oportunista de isolamento das estudantes. Acontece, por um lado, pela relativização da agressão e, por outro, pela acusação de desvario. O problema do machismo volta a pairar nas nuvens, quase sem nos tocar, e o caso se reduz a meia dúzia de linhas infelizes contra duas pessoas em particular.

O absurdo dessa situação reflete uma deterioração humana sem tamanho. Uma cultura de opressão que brutaliza mulheres, negros, homossexuais não deve jamais ser naturalizada, relativizada, consentida e muito menos ignorada. Sim, haverá barulho, sim, haverá desconforto, sim, haverão rostos desconhecidos e sim, haverá denúncia pública e irrestrita.

Quero declarar minha total solidariedade e respeito a todas as mulheres que se sentiram ofendidas, principalmente à Flávia, à Daphnae e ao senso de dignidade que carregam. Foram agredidas, sofreram esse assédio moral explicitamente por serem mulheres, mas não foram subjugadas por ninguém, em hipótese alguma, sob quaisquer custos.

 Daniel – Fantasma Jedi